Por que tanta Dilma e pouco Lula?

Antonio Aurélio: “Desculpe, o senhor tem escrito diariamente quantos dias faltam para ela assumir, mas esquece o presidente Lula. Ela existiria sem ele?”

Comentário de Helio Fernandes:
Fico surpreendido com a tua pergunta. E o que você pretende, que eu fizesse uma série sobre “quantos dias faltam para Lula deixar o Poder”? Aurélio, ele se promove sozinho (ou com os amestrados) de tal forma, que não precisa de apoio ou de ajuda de ninguém. Ocupa variados espaços, deixa para Dona Dilma todas as dúvidas e dívidas.

A Veja publicou no número que está nas bancas, uma foto duplamente sensacional. Não é de hoje, mas vejam Lula no Maracanã, já consagrado por ele mesmo e pela mídia orquestrada. É um salto lembrando Nureyev. Não há explicação, como ele se sustenta no ar? Só pela admiração não do próprio corpo, mas é a mente autocrática que impulsiona tudo.

(A foto admirável, é da excelente fotógrafa Ana Carolina Fernandes, não tenho nada com isso. O Fernandes é meu, mas a categoria jornalística é dela. Estava com menos de um mês, quando a mãe viajou para o meu julgamento em Brasília, até hoje “cobra” que não foi “amamentada” como os outros),

Esses cinco dias do salto na condição de coadjuvante para a de presidente propriamente dita, apenas dela.  O país será beneficiado com o que fizer, prejudicado com o que não fizer.

Lula, que colocou Dona Dilma no Planalto, e logicamente na História, está dividido “entre ele, e ele mesmo”. Só fala, não esquece de pronunciar a palavra voltar, não explica de que maneira.

*** 

PS – Não pode torcer, (como diz a Ofélia Alvarenga) para dar tudo errado, pois os erros ou desacertos desabariam sobre ele mesmo. No geral, não escaparia: “Eu não disse, Lula inventou uma desconhecida, o resultado negativo está aí”.

PS2 – Ou o outro lado da meada, Dona Dilma faz um governo positivo e proveitoso, como tirá-la no meio do caminho? Normalmente, os presidentes agora, têm direito a 8 anos.

PS3 – Num processo nada pedregoso, Dona Dilma sairia em 2018, com 71 anos. Lula estaria então com 73, qual a diferença? A diferença está ou estaria no improvável, no não imaginável, jamais no impossível.

O mundo não acabou para Ciro Gomes

Helio Fernandes

Apesar do prestigiado governador de Pernambuco ter dito que “Ciro atirou para todos os lados”, não imagino que tenha sido impensadamente.

Indicou um desconhecido de Sobral (Ceará), a verdade incontestável: como quase todos, admite que 2011 começa com 37 ministros, pode terminar com o mesmo número, mas não em gênero e em grau.

Aí então tentará ocupar o seu lugar no ministério. Sobre isso, poucas dúvidas. O difícil de acontecer, é concretizar o plano final, que não persegue de hoje.

DIRETORIA DA PETROBRAS

Enquanto muitos brigam por ministérios com status de secretaria, ou o inverso, Sergio Machado, que já foi senador pelo Ceará, (formando um trio invencível e quase insubstituível com Ciro e Jereissati), está há anos comandando a potência Transpetro, não foi nem incomodado. (Ciro e Jereissati foram governadores, na vez de Sergio Machado, romperam).

A Nação Rubro-negra responde à CBF

Helio Fernandes

Depois de 20 anos, Ricardo Teixeira resolve “unificar” títulos de campeão de futebol. Só o Flamengo saiu perdendo. Protestou, Ricardo Teixeira respondeu: “O Flamengo perdeu uma ação na Justiça, não posso desrespeitar essa decisão, PODERIA SER PRESO”.

Em cima do laço, a Nação Rubro-negra apresenta seu protesto, e atinge de forma fundamental, o passado, o presente e o futuro de Ricardo Teixeira: “Não se justifica o temor do senhor Ricardo Teixeira de ser preso, Se vier a ser, não será certamente por causa do Flamengo”. Nota MIL.

A PROPÓSITO DE TEIXEIRA E PELÉ

Ficaram anos e anos brigados, irreconciliáveis, Pelé mostrava seu amor à verdade, só chamava o presidente da CBF de “C-O-R-R-U-P-T-O”. Nem mais nem menos. Só que Teixeira “replicava”, não convidava Pelé para nada, aqui ou pela FIFA, onde Teixeira também manda.

Esse “ostracismo”, sem poder mostrar e exercitar seu exibicionismo, Pelé não agüentou. Fizeram entendimentos através de prepostos ou porta-vozes, se encontraram. “Parece que foi ontem”, disseram os dois saudosistas do nada. E Pelé ainda falou: “Nunca estivemos brigados, a imprensa é que falsificou tudo, criou a inimizade que nunca existiu”.

 ***

PS – Esse é o Pelé de 70 anos, felizmente 35 dentro do campo. Esses ninguém esquece. Nos outros 35, Pelé não quer ser esquecido, se reconcilia até com quem chamou de C-O-R-R-U-P-T-O.

Novo presidente do Banco Central: “Juro que não engano ninguém”

Helio Fernandes

Escolhido para substituir Meirelles,  Alexandre Tombini disse logo, que não pensava (?) em aumentar os juros. Repliquei aqui mesmo: “Logo em janeiro haverá o primeiro acréscimo dos juros”. E isso é oficial.

Quando falei nos juros espantosos do Brasil, “por causa da inflação”, e ainda gozei os autores, dizendo que a palavra inflação só existia no dicionário português, mostrei: Japão, ZERO, EUA, 0,25%, Grã-Bretanha, 0,50%, Alemanha, 0,25%. Nenhum receio com a inflação.

Para o leitor-comentarista Paulo Sólon e sua admirável cultura religiosa, um texto escrito no Dia de Natal

Helio Fernandes

Paulo Sólon, há mais de dez anos, num dia como o de hoje, entre o Natal e o Ano Novo, comecei a receber artigos teus, vindos de Miami. Quatro ou cinco de cada vez, pelo correio, o nome que eu não conhecia, e um extenso e admirável currículo, que não podia desconhecer ou ignorar.

Comecei a publicar, não pela sedução das credenciais, mas pela obrigação das afirmações do texto. Lógico, era o Paulo Sólon que me encanta até hoje, embora você já dissesse, “não quero que ninguém ligue para o que escrevo, minhas convicções são minhas e pronto”.

Como a vida não é estática e sim dinâmica, todos mudam, o Paulo Sólon daquela época, já provocando entusiasmo, se transformou no nihilista e anarquista (duas filosofias amaldiçoadas) de hoje, que provoca e assusta tanta gente. É difícil conhecer, ler e discordar de um homem que apresenta e representa apenas sua vontade e sua verdade.

Em matéria de religião, tua cultura, profunda e estabanada, é admirável. Assusta muita gente,que fica entre a curiosidade de entender como é que se aprende tanto, e a coragem (mais do que coragem, ultrapassando o limite da audácia) de afirmar tão vigorosamente, tão claramente, tão entusiasmadamente, avançando e obstruindo o caminho das mais diversas crenças e religiões.

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PS – Paulo, gostaria de ter conhecido pessoalmente tanta gente, começando logicamente por Jesus Cristo, que acabou de nascer, terminando em Marx. Depois dele, com quem gostaria de ter aprendido verbalmente? (Antes dele, Nossa Senhora, tanta gente).

PS2 – Uma das lembranças que mais gosto em Marx (nem ele nem eu somos marxistas), é o fato de ter aprendido, saboreado, citado e repetido, todas as ideias sociais de JC.

PS3 – No Século V, um único personagem me atrai, me fascina, integraria a lista daqueles com quem gostaria de ter aprendido. É o sábio e inacreditável, em matéria de cultura, Santo Agostinho. Como é que pode ser esquecido? Embora nenhuma recriminação pelo fato de discordarem dele.

Determinados Ministros de Dilma deveriam ser obrigados a apresentar atestados de bons antecedentes. Foram escolhidos por ela ou por Lula? De toda forma, a nova presidente precisa se livrar desses maus elementos.

Carlos Newton

Começa mal a presidente eleita Dilma Rousseff. Prometeu que não nomearia para o Ministério nenhuma figura de ficha suja ou envolvida com irregularidades. Era melhor ter ficado calada. Na condição de presidente (embora apenas eleita), é sua primeira promessa não cumprida.

Para começar, Antonio Palocci no principal ministério, a Casa Civil. É um político de passado altamente condenável, desde os tempos de prefeito de Ribeiro Preto (SP), quando se envolveu com propinas da empresa Leão & Leão, de coleta de lixo. Porém, como parte dos recursos ilícitos ia para o próprio PT, o partido nunca considerou como irregularidades essas relações perigosas do prefeito.

Quando era ministro da Fazenda, Palocci mentiu em entrevista coletiva, ao afirmar que não fez contratos com a Leão & Leão. No dia seguinte, ficou provado que havia assinado na Prefeitura vários contratos com a empresa. Depois veio foi o episódio do caseiro Francenildo e das orgias na mansão do lago, alugada por amigos de Ribeirão. Mesmo com esses antecedentes, agravados pela espinha eternamente curvada aos banqueiros (ou será por causa disso mesmo?), lá está Palocci de volta ao Planalto.

A presidente vai nomear também o deputado Luiz Sérgio, do PT-RJ, para o Ministério das Relações Institucionais. Luiz Sergio é aquele que em 2006 se apresentou à Justiça Eleitoral como não possuidor de bens, tinha patrimônio zero. Quatro anos depois, já aparecia como detentor de bens avaliados em 1,6 milhão de reais, segundo “O Globo” (22/12/10).

No dia seguinte, a assessoria do deputado tentou responder ao jornal. Ardilosamente, afirmou que os bens constaram como “zero”, porque “o PT-RJ, à época, perdeu o prazo de envio dessa documentação ao TRE-RJ”. É mentira. Sem declaração de bens, a candidatura é rejeitada pelo Tribunal.

Além disso, a “assessoria” alegou que o patrimônio atual de Luiz Sergio seria de “apenas” R$ 1,1 milhão, ressalvando que o parlamentar teria comprado um apartamento na Lagoa, Zona Sul do Rio, que não consta de seus bens porque ainda não foi quitado, “não constituindo, portanto, patrimônio até sua quitação”. Outra mentira, porque a parte já quitada do apartamento (na Lagoa, caríssimo) constitui patrimônio e tem de constar de qualquer declaração de bens. Mas quem liga para isso? O patrimônio dos políticos sempre cresce muito, não é verdade?

Também acusado de irregularidades, o deputado federal baiano Afonso Florence será nomeado para o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Está sendo investigado pelo Ministério Público da Bahia e o Tribunal de Contas do Estado, por falcatruas no repasse de verba da Secretaria de Desenvolvimento Urbano a uma entidade privada.

Em 2008, quando comandava a Secretaria, o petista Florence autorizou convênio com o Instituto Brasil de R$ 17,9 milhões, para construção de 1.120 casas populares, sem licitação. O instituto é uma Oscip da área de direitos sociais e cultura. As irregularidades resultaram na suspensão dos repasses, determinadas pelo TCE por orientação do MP, e em duas representações da bancada da oposição na Assembleia da Bahia por improbidade administrativa.

O tal Instituto Brasil, que conseguiu receber cerca de R$ 8 milhões da Secretaria então comandada por Florence e passou notas frias, não por coincidência é presidido por Dalva Selle Paiva, do PT baiano. Está tudo em casa.

O mais curioso é o escândalo envolvendo o futuro ministro do Turismo, deputado Pedro Novais, indicado por Sarney e que gastou R$ 2.156,00 no Motel Caribe, em São Luís, e anexou a nota fiscal à prestação de contas de sua “atividade parlamentar”. Ele jura que nada teve a ver com isso, mas foi reconhecido pelos funcionários do motel, porque é muito raro ter um senhor de 80 anos dando uma festa no local. Novais, que sempre foi uma figura apagadíssima na Câmara, seria ótimo fazendo propaganda do Viagra. Todo mundo, inclusive Sarney, iria rejuvenescer imediatamente.

A presidente eleita precisa se livrar dessa corja, onde se inclui, entre outros, o futuro ministro Edison Lobão, pai do conhecido Edinho “Trinta” (por cento), seu amado filho que o substituirá novamente no Senado. Se ela não escorraçar estes e outros ministeriáveis de currículo mal cheiroso, impostos a ela por Lula ou não, podemos dizer que estará começando mal seu mandato como a primeira mulher a presidir a República.

É pena. Dilma Rousseff tem personalidade forte e gabarito para fazer um governo muito melhor do que o de Lula, cujo aparente sucesso deve-se muito a ela, na Casa Civil. Digo “aparente sucesso” porque Lula ajudou os pobres, mas se esqueceu de ajudar o País. A infraestrutura, que é absolutamente necessária para o desenvolvimento nacional, continua uma porcaria. Fernando Henrique, que também ajudou os pobres com a criação da Bolsa Família (ou Bolsa Escola, você escolhe), ficou oito anos e não fez nada para o País crescer. Lula idem. Os portos são uma vergonha, os aeroportos também; as rodovias seguem esburacadas, as ferrovias funcionam precariamente. Somente houve avanços na geração de energia.

Dilma Rousseff sabe disso. É muito mais importante fortalecer a infraestrutura e melhorar a logística do desenvolvimento, do que tocar determinadas obras do tal PAC. Precisamos ver como ela se portará, quando enfim cortar os grilhões que ainda a prendem ao espectro de Lula, que, em seu delírio de grandeza, insiste em achar que o cargo de presidente é vitalício. Dilma, que é mineira, precisa exigir liberdade, ainda que tardia.

Do jeito que está não vai dar

Carlos Chagas
                                           
Há uma questão que não foi considerada pelo governo Lula, muito  menos por seus antecessores mais recentes, agora transformada num nó que Dilma Rousseff precisará desatar, espera-se que jamais como Alexandre. Usar a espada poderia ter conseqüências ainda mais desastrosas, mas é preciso enfrentar a questão do crescimento desmedido da indústria automobilística. Quantos milhões de veículos são  produzidos todos os anos, indo pequena parte para a exportação e incorporando-se a grande massa à frota nacional?

As estatísticas variam, mas não erra quem supuser quatro   milhões de carros postos em nossas estradas a cada doze meses. E vem mais por aí, com fábricas antigas duplicando a produção e novas instalando-se por todo o território nacional.   Maravilha em termos de criação de empregos, ainda que nem tanto assim, mas pesadelo para o poder público. 

O rodoviarismo implantado por Juscelino Kubitschek e superdimensionado nos governos militares e seguintes tornou-se o maior sumidouro de recursos oficiais dos últimos cinqüenta anos. E não adianta nada. Quanto mais se gasta nas cidades e no interior com a  ampliação e implantação de estradas, túneis, viadutos e anéis rodoviários, mais cresce a evidência de serem insuficientes.

Por mais irônico que pareça, o caos foi criado nos anos recentes de desenvolvimento econômico, aliados a  uma publicidade exagerada por parte das montadoras. Reunidos   credito fácil e  estímulo ao cidadão comum para adquirir ou trocar de carro, o resultado está sendo a impossibilidade de continuarem as coisas como vão.

Em cidades como São Paulo, Rio, Belo Horizonte e muitas outras,  já não se anda. Muito menos se estaciona.  Quantas horas perde o motorista para deslocar-se de um bairro a outro? Que danos podem ser calculados,  menos em força   de trabalho, até, mais nas estruturas psicológicas de quem fica parte do dia preso em engarrafamentos monumentais?
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Sem esquecer, vale repetir, as obras que fazem a alegria das empreiteiras e  a desgraça do tesouro nacional, consumindo recursos imprescindíveis à educação, à saúde pública e à segurança.
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Algo precisa ser feito. Uma política de médio e longo prazo capaz de afastar a sombra do imponderável. Dirão os simplistas estar a solução em investimentos maciços nos transportes públicos, da recuperação da ainda destroçada malha ferroviária aos  metrôs e corredores exclusivos para ônibus.  Essa alternativa até preservaria boa parte dos empregos, além do que, parte da  indústria automobilística poderia reciclar-se, adaptando-se para produzir  ônibus,  vagões e similares.�
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Simples mas complicado, se for possível  a contradição. Porque   tão difícil quanto implantar essa mudança radical será alterar  os costumes.  Afinal, por que penalizar   logo agora o esforçado  cidadão que conseguiu economizar ou está disposto a enfrentar prestações a perder de vista para adquirir  o seu carrinho?
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Uma evidência, no entanto, prevalece: do  jeito que está não vai dar. Dona Dilma que dê tratos à bola. Sem esquecer de uma  ironia da História. O pai dessa febre rodoviarista foi nada mais nada menos do que Adolf Hitler. No auge do sucesso da invasão da União Soviética, o tresloucado líder  previu que cada cidadão alemão teria a chance de visitar os territórios ocupados com o seu volkswagen, porque no futuro as estradas seriam mais importantes para o transporte de passageiros do que as ferrovias.

“Somente viajando por rodovias seria possível conhecer os países” – disse num devaneio hoje tornado catastrófico.  Quem conta o episódio é o autor da mais nova biografia de Hitler, Ian Kershaw, um livro imperdível.

Pedro Novais, uma confissão por ação tácita

Pedro do Coutto

O Globo, a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo publicaram com destaque devido o gesto do deputado Pedro Novais, convidado para ministro do Turismo pela presidente Dilma Rousseff, de devolver à Câmara Federal a quantia de 2 mil e 156 reais, relativa a pagamento que fez ao Motel Caribe, originalmente incluído na lista de gastos pessoais pelos quais os parlamentares são – ou deveriam ser – reembolsados.

Em declarações publicadas pelos três jornais, o deputado pelo Maranhão afirmou jamais ter participado da festa que reuniu mais de dez casais na principal suíte do Caribe e que a acusação atinge a sua dignidade pessoal de cidadão e marido fiel à esposa. Atribuiu a inclusão da despesa na escala de reembolso a um erro de sua assessoria.

Como ele não esteve na festa, de acordo com o evangelho que adotou como princípio, teria que apresentar o culpado pela fraude e pela farsa. Não fez nem uma coisa nem outra. Não sabe de quem é a  culpa.

Deixou no ar que um servidor infiel praticou a irregularidade em seu nome e à sua conta e risco. O risco, aliás, é muito maior que a conta, pois implica na perda do ministério antes mesmo de assumir. Torna-se assim personagem de Dias Gomes em “Roque Santeiro”, podendo tornar-se ministro sem nunca ter sido.

Outra peça em que poderia estar era o “Volpone”, do inglês Ben Johnson, contemporâneo de Shakespeare. Alguém que recorre à farsa para, enfim, viver melhor, e ter acesso ao calor de mulheres que desejava na solidão e no silêncio. “Tartufo”, de Molière, podia igualmente caber-lhe bem. Alguém que aparenta uma personalidade e, de fato, possui outra oculta por sombras. Isso no campo da arte.

No campo da Ciência do Direito, Pedro Novais praticou o que Santiago Dantas e outros mestres qualificavam como confissão por ação tácita. Ou seja: alguém acusado de algo que não cometeu, uma subtração, por exemplo, afirma-se inocente, porém repõe o que havia sido retirado. Ora, se a pessoa não cometeu o deslize ou o crime, evidentemente não poderá assumir os seus efeitos. Não tem cabimento recolocar na sala ou no bolso de alguém o que foi retirado por um outro verdadeiro autor. Se alguém age nesse sentido, portanto, está tacitamente assumindo a culpa.

Caso típico do parlamentar do PMDB. Não foi ele o promotor de uma festa num motel com tantos casais convidados. Uma coincidência – vê-se assim – a paridade de homens e mulheres. Se era uma festa, não haveria necessidade de o número de homens ser igual ao de mulheres.

O dinheiro do sutil reembolso foi reposto, mas Pedro Novais deve perder pontos por uma atitude absolutamente juvenil, para dizer o mínimo. Uma falta de senso de responsabilidade, pois como homem público assume uma atitude como essa que lhe foi atribuída? Custou-lhe caro, basta ver o espaço que lhe foi reservado nos principais jornais do país. O processo em torno de sua figura, acredito, está longe de se esgotar. Talvez não se esgote nunca.

Ainda que consiga superar o episódio junto à presidente Dilma Rousseff, no que não acredito, ficará sempre marcado como o deputado do Motel Caribe. Não praticou propriamente um crime grave. Mas errou e transferiu o próprio nome das páginas políticas para páginas da vida como ele é. Saudade de Nelson Rodrigues.

Agora, por que não acredito que se reabilite ju8nto a Dilma Rousseff? Simplesmente porque não confirmar o convite feito a ele, para ela será um ato muito mais positivo para seu governo, do que mantê-lo nele como um personagem de Renato Aragão. Aragão há pouco comemorou seus 35 anos seguidos na Rede Globo. Caso raro em que um trapalhão deu certo.

Quércia enriqueceu ilicitamente, desviando recursos públicos, mas sua morte é saudada como se ele fosse uma grande figura. Será milagre de Natal?

Carlos Newton

Os necrológios de Orestes Quércia são patéticos e representam, na verdade, o que se passa neste País. Os textos dos obituários deram mais destaque à atividade política, deixando para segundo plano o que era principal – Quércia foi um dos maiores ladrões de recursos públicos dos últimos tempos.

Recordo uma foto na primeira página do jornal “Estado de S. Paulo”, exibindo a cerca de uma das muitas fazendas do ex-governador paulista, cujos pastos foram inteiramente cercados com mourões de cimento surripiados do Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo. Dava para ler nos mourões, nitidamente, em baixo relevo, a inscrição DER-SP.

Quércia ficou riquíssimo, virou empresário imobiliário, comprou emissoras de televisão, jornais, rádios, hotéis, montou um império. Com o dinheiro que amealhou ilicitamente, divertia-se sustentando as estripulias do pessoal de esquerda radical do MR-8, patrocinava o jornal deles, “A Hora do Povo”, e tudo o mais, como se fosse um benfeitor do socialismo.

Quércia morreu impune, como acontece com todos os políticos que enriquecem às custas desta Nação, seja com “sobras de campanha” ou se apropriando diretamente de recursos públicos, como Sarney, Newton Cardoso, Fernando Collor, Antonio Carlos Magalhães, Renan Calheiros, Romero Jucá  e milhares de outros.

E agora, sua morte é lamentada. O próprio (ainda) presidente Lula manda uma mensagem de pêsames, enaltecendo a figura de Quércia (e que figura!). Que Deus nos perdoe por essa péssima lição de Natal que estamos passando às novas gerações. Se é que merecemos perdão.

A primeira derrota da representatividade ocorrerá logo em janeiro de 2011, até agora marcada para o dia 20. A já presidente Dilma viajará aos EUA, para um encontro com o também presidente Obama.

Helio Fernandes            

Assumirá o vice Michel Temer. Dona Dilma, milionária de votos, teve 55 milhões, será substituída por um pobretão, não teve nenhum. Temer na certa irá dormir no Alvorada, gravará fotos e filmes para eternizar sua passagem pela Presidência. Felizmente não praticará nenhum ato oficial. Nem civil.

O SUPREMO E OS CAPIBERIBES

Já tratei do assunto aqui, mas volto por obrigação, convicção e dever jornalístico. Eleitos para o Senado e a Câmara, foram CASSADOS, perderam os mandatos ganhos em 2002 (o dele, iria até 2010). Assumiu no Senado o derrotado Gilvan Borges, protegido de Sarney e Renan.

Em 2010, repetiram e ganharam, João senador, Janete deputada federal. Gilvan Borges, outra vez derrotado. O TSE de Brasília cassou os dois. Novamente DOARAM o mandato para o mesmo Gilvan. O Supremo precisa inovar, em nome da dignidade, da democracia e da representatividade.

QUEM SABE, KASSAB NO PMDB?

É o panfletário da indignidade eleitoral. Sendo do DEM, foi vice-prefeito de São Paulo com Serra prefeito. Apesar das promessas e compromissos, Serra só ficou 15 meses, deixou 33 para o espertíssimo vice.

Acabou o mandato, se reelegeu pelo DEM, derrotando o candidato do PSDB, Alckmin, hostilizado por Serra. Agora, aproveitando a morte de Quércia, pretende ser governador de São Paulo pelo PMDB, Com tanta falta de caráter e de legenda, acaba presidente. Que República.

Conversa com leitora-comentarista sobre apoio a Dilma: ninguém acerta por “torcida contra” de ninguém.

Ofélia Alvarenga: “Helio, desejo muito que Dilma acerte a mão, como se faz numa receita caseira. Que dê certo, que ela invente e reinvente o que considera uma boa receita. Fico entristecida quando leio que o governo deve ser dois anos para Dilma e dois anos para Michel Temer”.

Comentário de Helio Fernandes:

Ofélia, ninguém acerta por “torcida contra” a ninguém. Um governo é mais que uma partida de futebol. Uma das diferenças é o tempo previsto, cumprido e jogado dentro do campo. O que muitas vezes não acontece na permanência dos presidentes. A História do Brasil está cheia de vices que assumiram.

Mas não acredite de modo algum, nisso que está colocado aqui, “2 anos para Dilma, 2 anos para Temer”. Se devassarmos o presente e até o futuro, com a claridade do passado, chegaremos a toda e qualquer conclusão, menos à escuridão de Temer presidente.

***

PS – Ele pode até assumir numa interinidade sem admiração, mas não passará disso. Já começará em janeiro, Dona Dilma vai aos EUA, mas ele carregará pelos subterrâneos de Brasília apenas a mediocridade de alguns instantes.

PS2 – E mais nada. Nem o melhor roteirista do mundo escreveria coisa mais emocionante para um vice sem charme, sem presença, sem liderança.

O PSDB não se encontra nem se encanta

Helio Fernandes

Aécio Neves não tem mais constrangimento. É candidato ostensivo à sucessão em 2014. Nem liga para Serra, este também não se incomoda com o ex-governador de Minas.

Quando amigos lhe perguntam o que fará, política e eleitoralmente a partir de agora, Serra garante: “O recado e o meu destino estão no discurso que fiz no dia em que fui derrotado no segundo turno”. Muito não se lembram, é fácil: “Não é um adeus e sim até logo”.

Alguns começam a fazer contas, concluem: em 2014 Serra estará com 72 anos. Leram nas lembranças que publiquei, Ernesto Geisel foi “presidente” com 71 anos, Tancredo com 75 (embora não assumisse), Lula estará completando 69 nas vésperas da eleição de 2014.

Não esqueçam; Dona Dilma estará com 67 anos, no Poder. E quem escreverá seu DESTINO será ela mesma. Quem teve 55 milhões de votos não precisará mais de “host-writer” eleitoral.

 ***

PS – Mas tem que fazer. Sabem que não votei nela, apesar de anunciar com insistência que não perderia. Nada disso me fará torcer para ela errar ou admitir que não tem condições de acertar.

PS2 – Todos sabiam que FHC não faria, não fez mesmo.

Conversa com leitor-comentarista, sobre Hitler e Stalin, dois falsos socialistas na Segunda Guerra Mundial

Mauro Julio Vieira: “Não me interessa quem ganhou e quem perdeu. A guerra na Europa começou com os dois socialistas, Hitler e Stalin, invadindo a Polônia”.

Comentário de Helio Fernandes:

Você tem que se interessar pelos resultados, afinal qual a razão de você lutar, existir, sofrer, padecer, até mesmo se satisfazer. Isso como reflexão para você chegar a uma conclusão.

Agora, fatos, fatos, fatos.

Nem Hitler nem Stalin eram socialistas. O cabo alemão da Primeira Guerra Mundial teve uma visão ou intuição, fundou o partido com o qual dominou a Alemanha, colocou como identificação, Nacional Socialista. É possível que tenha ouvido falar em Marx, que achava que a Revolução Socialista que revolucionaria o mundo, aconteceria na sua amada Alemanha. Deixou rastros intelectuais que puderam ser detectados por um homem primário, como Hitler, mas tão ambicioso, que conseguiu substituir a cultura pela ambição arrebatada, a ponto de dominar a aristocrática e arrogante elite militar alemã, que se arrojou subservientemente a seus pés.

Stalin sabia menos do que Hitler, mas nasceu no país que consagrou e entronizou as idéias de Marx. Se dissessem a este, “a Revolução Socialista ou Soviética acontecerá na Rússia”, não sei qual a sua reação. Pois o mínimo que ele exigia, era um proletariado organizado, industrializado, lúcido, por isso considerava que só podia acontecer na Inglaterra.

Sem muita visão, mas um trabalhador incansável e oportunista, Stalin foi subindo dentro do partido, embora ainda estivesse na Geórgia (interior da Rússia) quando Lenine e Trotski chegaram ao poder.

Em 1º de março de 1939, seis meses antes de começar a Segunda Guerra Mundial, Hitler e Stalin chegaram à mesma conclusão. Hitler: “Para consumar o Reich dos Mil Anos, tenho que derrotar a União Soviética. Mas agora não dá”. Stalin: “Para dominar o mundo, preciso destruir Hitler e seu Poder militar cada vez maior. Mas agora não dá”.

Seguindo então os melhores estrategistas de milhares de anos antes, se você não puder destruir um inimigo, junte-se a ele. Foi o que fizeram Hitler e Stalin. Em 1º de março de 1939, assinaram o “Tratado de Não-Agressão”, e em 1º de setembro, massacraram a Polônia. Para começar.

 ***

PS – Portanto, Mauro Julio, corrija, por favor, suas lembranças. Não eram dois socialistas e sim aventureiros, acreditando que podiam adiar o futuro que não conheciam.

PS2 – Nem Hitler nem Stalin poderiam dominar o mundo. Tinham que se destruir, era o que lhes restou. O mundo não aceitaria nem o nazismo nem o estalinismo, fosse isto o que fosse.

O NÃO ministro Eduardo Braga

Helio Fernandes

Quando se lançou candidato ao Senado, em março desde 2010, (deixando o governo do Amazonas depois de 8 anos), colocando a mulher como suplente, revelei, é só verificar: “Quer ser Ministro do Meio-Ambiente. Será candidato a prefeito de Manaus por causa da Copa e da Olimpíada”.

Foi convidado para uma pasta que não interessava ao Amazonas, não aceitou nada. Mas não fará oposição, não é o seu estilo. Em março de 2012, se licencia do Senado, a mulher assume. Se for eleito prefeito, a mulher recebe como herança antecipada, quase 7 anos no Senado. Que legislação, e que República.

Em condições irregulares, Mercadante vai receber o título de “doutor em Economia” da Unicamp, que a presidente Dilma tanto sonhou conquistar (e até pensou que havia “conquistado”)

Carlos Newton

Nos chamados meios acadêmicos, pegou mal, muito mal mesmo, a decisão da Universidade de Campinas (Unicamp), que vai outorgar irregularmente ao ainda senador Aloizio Mercadante o título de Doutor em Economia.

Estranhamente, Mercadante não foi obrigado a cumprir as mesmas regras dos demais doutorandos do Curso de Pós-Graduação do Instituto de Economia.

Pelo regulamento do programa, ele só poderia adiar a apresentação da tese uma só vez, e apenas pelo prazo de seis meses. Pois o ilustre parlamentar postergou a apresentação pelo desprezível prazo de 20 anos. Assim, ainda de acordo com o regulamento, Mercadante só poderia receber o título de especialização latu sensu, jamais o título de “Doutor”.

Além de todas essas regras quebradas, Mercadante também desrespeitou a tradição de o doutorando apresentar uma tese que discuta a teoria econômica. Ao invés disso, ele exibiu uma calhamaço de 519 páginas sobre o governo Lula, anunciando o nascimento do “novo desenvolvimentismo” – um modelo baseado em crescimento e distribuição de renda.

Com frases quase sempre na primeira pessoa do plural, como se tivesse liderado ou integrado a equipe econômica de Lula, lá se foi Mercadante: “Superamos a visão do Estado mínimo”; “Não nos rendemos à tradição populista”; “Retiramos 28 milhões da pobreza”; “Melhoramos muito o atendimento na saúde”. E dedicou boa parte de sua preleção a críticas ao governo de Fernando Henrique Cardoso, com ataques ao neoliberalismo e ao Fundo Monetário Internacional.

Nesse ponto, o ex-ministro Delfim Netto, professor titular da USP e que participava da análise da defesa da tese, não se conteve: “Esse negócio de que o Fernando Henrique usou o Consenso de Washington… não usou coisa nenhuma!”, disse, arrancando gargalhadas. “Ele sabia era que 30% dos problemas são insolúveis, e 70% o tempo resolve.”

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, que acompanhou a defesa de tese, Delfim então lembrou que o cenário internacional foi favorável ao governo Lula e destacou que o bolo não cresceu apenas por vontade do presidente petista. “Com o Lula você exagera um pouco, mas é a sua função”, disse Delfim a Mercadante, ironizando. “O nível do mar subiu e o navio subiu junto. De vez em quando, o governo pensa que foi ele quem elevou o nível do mar…”

“O Lula teve uma sorte danada. Ele sabe, e isso não tira os seus méritos”, concordou o professor João Manuel Cardoso de Mello (Unicamp), que reclamou de “barbeiragens no câmbio” e definiu o Fome Zero como “um desastre”. Mas no final, a comissão decidiu outorgar o título de “doutor” a Mercadante, que o receberá no próximo dia 17.

Esse título de doutorado geralmente é o maior orgulho do acadêmico. Mas no PT, parece ser um fetiche. Por isso, Mercadante usou do desrespeito às regras para merecê-lo. Mas não chegou ao baixo nível da agora presidente Dilma Rousseff. Alguém lembra das alegações dela, quando ministra, dizendo que era doutorada em economia na mesma Unicamp, apesar de nem mesmo ter conseguido o título de mestrado?

Agora, esses erros de conduta não interessam mais. Como presidente do Brasil, Dilma Rousseff vai se encher de títulos de “doutor honoris causa”, que as universidades dão a qualquer um. Desde que o “laureado” (ou “laureada”) esteja no Poder, é claro.

O que importa é administrar bem o País, e isso Dilma Rousseff sabe fazer. Como chefe da Casa Civil, era plenipotenciária e cuidava do governo todo. Lula não passava de uma figura decorativa, sempre folclórico e cheio de fanfarronice. O trabalho administrativo ficava mesmo por conta de Dilma Rousseff. Os outros ministros tinham pavor dela. Vamos ver como ela se comporta agora, que tem realmente as rédeas na mão.

À espera de definições

Carlos Chagas
                                            
Não há porque criticar o presidente Lula  pelo seu ufanismo na fala de fim de ano. Teve direito, apesar dos exageros. E completou dizendo que,  se fez muito, muito mais é preciso fazer.
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Voltam-se para Dilma Rousseff as atenções gerais. Ela continua devendo um programa de governo, além da promessa de erradicar a pobreza. Há razões para a   presidente eleita  haver mantido  silêncio  até agora: evitar definições  capazes de desagradar o seu mentor ou pelo  menos distintas e  diversas das  realizações dos últimos oito anos.  A lealdade e o bom-senso indicam que deva aguardar  o dia da posse ou os seguintes  para então começar a expor suas prioridades e  objetivos. 

Por tudo isso o país continua cheio de dúvidas. A política externa continuará plena de desafios verbais aos Estados Unidos e de elogios a regimes no mínimo estranhos à ortodoxia democrática? Irá insistir na desgastante fantasia de ver o Brasil tomar assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas? Ampliará o reequipamento das Forças Armadas com vistas à garantia do pré-sal situado em águas não territoriais brasileiras? Permanecerá imaginando nossa  influência demasiada na crise do Oriente Médio? Que tipo de relacionamento  manterá com Hugo Chavez, Evo Morales e penduricalhos? Visitará Cuba, ao longo de seu  mandato?
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Em termos de política interna, ousará liderar a reforma política? Terá abandonado a esdrúxula proposta de uma Constituinte exclusiva para votar o financiamento público das campanhas eleitorais, o voto em listas partidárias, a diminuição do número de partidos e outras sugestões sempre referidas mas jamais concretizadas?

Delegará a Michel Temer o relacionamento detalhado com o Congresso e os partidos? Dará participação ao vice-presidente nas definições maiores de governo?  Manterá que tipo de diálogo com os presidentes da Câmara e do Senado? Privilegiará o PT como  interlocutor maior nas questões políticas?

Diante dos governadores, conseguirá administrar a necessidade de isenção para com os pertencentes a partidos de oposição?
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Na economia nem se fala. Qual o limite entre a óbvia intenção de conter os gastos públicos e a importância de continuar as obras do PAC e outras? Como reduzir os  juros a 2% e evitar o retorno da inflação? Permaneceremos importando mais do que exportamos? E na pauta das exportações, será conveniente sustentar  o ritmo cada vez maior de  matérias primas?
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Mil outras questões prendem a curiosidade nacional, da estratégia para contar o crescimento da violência e do crime organizado até a postura a ser adotada diante dos criminosos de colarinho  branco. A política energética precisa de maior atenção à produção e utilização do etanol? Teremos mais  usinas nucleares ?
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No campo das relações sociais, aceitará botar na cabeça o boné do MST?  Dará um passo a diante nas conquistas trabalhistas dilapidadas pelo passado governo Fernando Henrique, admitindo a participação dos  empregados no lucro das empresas? Conseguirá desafogar as folhas de pagamento nas despesas do empresariado sem causar dano aos assalariados? Permanecerá imaginando que a Previdência Social dá prejuízo, sem fazer conta de que o governo deve funcionar como um sistema de vasos comunicantes? �
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Educação, saúde pública, apoio à  pesquisa científica, preparação para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, limitação das quase 300 mil ONGs, boa parte delas fajutas, defesa da Amazônia, recuperação do Mercosul e quanta coisa a mais estão exigindo definições? 

É bom lembrar que em fevereiro, quando  da reabertura dos trabalhos parlamentares, inaugura-se uma nova Legislatura, devendo ser esperada a primeira mensagem do governo Dilma ao Congresso. Já estará a sua assessoria  tratando do texto?

No INSS, roubam até a conta pessoal do presidente Lula

Pedro do Coutto

Absolutamente incrível. Quase inacreditável, mas elucidativo quanto ao grau de desorganização e de vulnerabilidade do sistema financeiro do INSS. Reportagem de Sílvia Freire, Folha de São Paulo de 22, revela que ladrões, em 2007, conseguiram forjar um empréstimo consignado em favor do presidente Lula – vejam só – no montante de 4 mil e 600 reais, conseguiram recebê-lo e, ainda por cima, as prestações mensais começaram a ser descontadas na folha previdenciária do presidente da República. Não é preciso dizer mais nada, em matéria de roubalheira e conivência de servidores do próprio Instituto.

Mas o execrável episódio, mais um na nebulosa história do Ministério da Previdência, foi retratado em uma das páginas do jornal. Em outra, na mesma edição, matéria de Breno Costa e Gabriela Guerreiro, focaliza a confusão que estava envolvendo a votação do orçamento federal para o exercício de 2011. Um dos pontos controversos situava-se em torno do corte da parcela de 3 bilhões no orçamento de investimentos do PAC, projetado para a escala reduzida de 43 bilhões de reais. Parece muito dinheiro? Nada disso. Basta dizer que a lei de meios que se encerra a 31 de Dezembro alcança o montante de 1 trilhão e 766 bilhões. Está no balanço da Secretaria do Tesouro, assinado por Huro Arno Augustin, publicada no Diário Oficial de 30 de setembro.

R$ 43 bilhões, na realidade, é muito pouco no que se refere a um programa de aplicação de capital. Tudo é relativo. É preciso dimensionar os valores. O presidente Lula afirmou que vetaria a  redução. Enganou-se. O veto é sempre para suprimir uma parte da lei, ou um artigo. Nem sempre pode evitar o corte praticado.

O presidente não tem o poder de cortar o que já foi cortado. Pode, isso sim, restabelecer, no caso do orçamento, que é uma lei autorizativa, (não determinativa) através de decreto compensando uma destinação de verba por outra. Mas este é outro caso. Melhor assessorado, o presidente, nesta altura, já deve ter assumido uma nova posição quanto ao tema. Mas falei em pontos de confusão. São vários.

Um o propalado redutor nos recursos do PAC. Outro em torno do salário mínimo. Discute-se se deve ser de 540 reais, elevação de 6%, ou de 560, havendo outra corrente que luta para que o piso alcance 580 reais. Alegar-se que a Previdência Social não possui recursos suficientes é um sofisma. Em primeiro lugar porque todas as contribuições, tanto dos empregados quanto dos empregadores, estão vinculados ao salário mínimo. As empresas recolhem mensalmente 22% sobre a folha de salários. Os trabalhadores que recebem o piso pagam 9%. Por isso, se o mínimo acarreta aumento de despesas por um lado, representa a elevação de receita de outro.

Este movimento pendular foi clara e definitivamente esclarecido por Rafael de Almeida Magalhães, quando ocupou o Ministério da Previdência na primeira fase do governo José Sarney. Mas há tecnocratas sempre dispostos a toldar as informações e os raciocínios lógicos à volta do tema. Que fazer?

Em segundo lugar, o INSS, braço direito da Previdência, é credor de 149 bilhões de reais de empresas que simplesmente não recolhem continuamente, devem e não pagam, ainda que possam fazê-lo. Os dados estão com o Tribunal de Contas da União. Em terceiro lugar vêm as fraudes. Sucedem-se em sequência impressionante, desde a indenização de 80 milhões de reais para ao motorista Alaide Ximenes, em 91, até agora quando os ladrões resolveram receber proventos em nome do presidente da república, em pleno mandato. Como se comprova, e os fatos acentuam, o INSS é o campeão mundial da incompetência. Nada igual no planeta. Uma defesa que não marca ninguém. Leva um gol atrás do outro.

De um amigo para o outro neste Natal

Jorge Folena 

Existem momentos em que o coração do homem é tomado por uma tristeza que o conduz ao desânimo para o trabalho, renunciando à maravilha de sonhar. Neste período, talvez o melhor seja ficar recolhido na solidão, e, assim, refletir e ganhar forças para enxergar a luz da vida, que faz renascer um novo homem. 

Num mundo onde o mal tenta triunfar, nós, como seres humanos, não podemos nos exigir perfeição e bravura constantes, devendo aceitar que há dias de dor, medo e insegurança. Mas sem perder de vista a esperança de que sempre haverá um dia seguinte, representando a renovação da luz e da vida, que é o simbolismo do Natal. 

Assim, valendo-me das palavras de Máximo Gorki, quero crer que: “tempo virá em que os homens se admirarão uns aos outros, em que cada qual brilhará como uma estrela, em que escutará a voz do seu semelhante como se fosse uma música. Haverá na terra homens grandes pela sua liberdade, tendo todos o coração aberto, purificado de qualquer ambição ou interesse. A vida será então um culto prestado ao homem; a sua imagem será exaltada, porque para os homens livres todas as culturas são acessíveis. Viver-se-á então na liberdade e na igualdade, pela beleza; os melhores serão os que mais souberem abarcar o mundo no seu coração, os que mais o amarem! E por uma vida assim, estou pronto a tudo.” (A Mãe). 

Por fim, manifesto meu imenso carinho, gratidão e respeito a todos os amigos, companheiros e leitores da Tribuna da Imprensa, e desejo-lhes um Feliz Natal.

Faltam 7 dias para assumir, o tempo não passa, não se incomoda. Mais audaciosa, altiva e altaneira do que muitos esperavam, chegou ao número 37 do ministério-mistério. Sem ceder ou conceder.

Helio Fernandes

Ultrapassou todos os obstáculos (ou armadilhas?), não deu o menor sinal de aborrecimento. Quase sem exceção, até amestrados garantem: “Quase todo o ministério foi indicado pelo ainda presidente Lula, a futura presidente apenas assiste”.

Quanta besteira, Manuel Bandeira, Dona Dilma está presente em tudo. Só que sem a menor hostilidade, sabe que mesmo que não nomeasse um só dos 37 ministros, isso não teria nenhuma importância. Todos esses que se julgam “Ministros poderosos” estarão sujeitos a ela. Que poderá mantê-los ou demiti-los, obedecendo apenas ao seu critério, avaliação e determinação.

A grande jogada da transição  foi a comunicação da escolha dos Ministros, por grupos não identificados antes, não explicados depois. Realmente não sei de quem foi a ideia, mas seja de quem for, todos os louvores. Enquanto Lula de divertia, se promovia, bajulava a ele mesmo e criava fantasmas para um futuro que era desvendado, Dona Dilma trabalhava.

Incansavelmente, não ligava para os que se pronunciavam insensatamente. Durante a campanha, retirada por Lula dos subterrâneos da política e da administração, tudo poderia acontecer ou ter acontecido. Agora? O máximo que podem fazer, irritados ou revoltados, é não ir à sua posse.

Todos irão, não querem correr o risco da “interpretação” falsa ou não verdadeira da ausência. Sobre alguns faltosos, dirão, “não foram convidados”. Outras faltas sem comentários, nem serão notados, o grande susto.

A cada grupo de políticos que iam sendo escolhidos ou esquecidos e preteridos, comentários diversos. Era natural. Os lembrados, em festa. Os outros, e são tantos, tentavam desesperadamente nova oportunidade. Só que no Planalto (ainda não Alvorada) o tempo não passava. Os esquecidos não ressurgiam nem na lembrança nem na nomeação, não tinha direito sequer a velório.

Alguns que protestariam ou acreditavam que tinham condições para exigir alguma coisa pela intimidação, não sabem o que fazer, foram soberanamente deixados para o fim. Já estava perdendo o sono e as oportunidades. Quando chegou a vez deles, politicamente “se esvaíam em sangue”, era aceitar ou aceitar. (Parodiando Francisco Horta, quando assumiu a presidência do Fluminense e lançou o grito de guerra, “é VENCER OU VENCER”.

Se ela assumir com o espírito que acentuou na formação do Ministério, muita gente ficará contrariada.

 ***

PS – Nesta véspera de Natal, (que todos recebam o que esperam, que continuem atentos e participantes, é o melhor que posso desejar), a atuação de Dona Dilma em relação a quatro governadores. Dois do PT, um do PSB e outro do PMDB.

PS2 – Cada um teve o que ela acha que merecia, mas agiu discretamente, sem alarde, vitoriosa, não comemorando;

PS3 – Amanhã, faltando 6 dias para assumir, analisemos o comportamento dela em relação aos quatro governadores, fiquem imaginando quais são.

Beto Richa, governador do Paraná, fará carreira longa (ele e a família)

Helio Fernandes

Eleito governador do Paraná, festejou em casa mesmo. Convidou a mulher para Secretária do Desenvolvimento, o irmão para a Infraestrutura, o filho, Secretário de Esportes. Todos aceitaram, surpreendidos e comovidos.

Entendeu logo: vão escrever, condenar, criticar, logo passa, mas os salários da família garantidos.