Pagot, o homem que sabia demais, agora paga para ver até onde vai a conivência do Planalto com a corrupção no Ministério dos Transportes.

Carlos Newton

Era só o que faltava. O diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antonio Pagot se recusou a ser demitido, entrou de férias e ainda deu entrevista dizendo que tudo o que fez no comando do órgão foi realizado conforme as “instruções recebidas”.

Suas declarações explodiram como uma poderosa bomba de efeito moral, exatamente quando o governo fazia um esforço desesperado para atribuir exclusivamente ao PR as múltiplas irregularidades cometidas no Ministério dos Transportes.

“Sou da velha escola: manda quem pode e obedece quem tem juízo. Tudo o que foi feito no Dnit foi dentro da legalidade e de acordo com as instruções recebidas” – avisou Pagot, em rápida entrevista, por telefone, ao repórter Gerson Camarotti, indicando o tom que poderá imprimir a seu depoimento na Comissão de Infraestrutura do Senado, marcado para terça-feira, caso não cheguem a bom termo as negociações que manterá neste fim de semana com representantes do Planalto.

Além do depoimento no Senado, na quarta-feira Pagot repete a dose na Câmara e pode fazer um estrago no governo. Seu tom é ao mesmo tempo de diplomacia e chantagem, ao lembrar que manteria “a palavra dada ao Palácio do Planalto de não conceder entrevistas antes do depoimento”.

Segundo senadores do PR que estiveram com Pagot, numa das reuniões dos últimos dias ele teria desabafado que aditivos contratuais em obras rodoviárias foram solicitados pelo então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Porém, ao jornalista de O Globo, Pagot negou que tenha feito essa afirmação e disse ter achado “um absurdo” que senadores do partido divulgassem esta versão.

No governo, há muita preocupação com a posição que Pagot vai tomar na terça-feira. Ele tem reclamado que sua família está humilhada com as denúncias de irregularidades no órgão, envolvendo seu nome. Se ele dizer o que sabe sobre o Ministério dos Transportes, o mínimo que acontecerá é a oposição conseguir número para instalação da CPI do Dnit no Senado.

Em mais uma demonstração de que não está fora do cargo – ao contrário do que já foi dito claramente no Planalto -, Pagot disse a O Globo que está de férias, e que até aproveitou para vistoriar na quinta-feira, informalmente, uma estrada cujas obras foram concluídas há seis meses, nos arredores do DF.

A situação é de muito suspense,  porque o Planalto encara o gesto de Pagot de se oferecer espontaneamente para depor em comissões da Câmara e do Senado como uma forma de tentar intimidar o governo.

Na quinta-feira, ao aprovar o requerimento convidando Pagot para depor na Comissão de Infraestrutura do Senado, a senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) leu cartas enviadas por Pagot a ela e ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), manifestando seu interesse em falar sobre suas atividades no Dnit, “cargo que ocupo com toda dedicação e compromisso”.

Ele também já tinha enviado carta semelhante para deputados, que decidiram fazer uma sessão conjunta de quatro comissões para ouvir Pagot. No Senado, a sessão será conjunta com a Comissão de Fiscalização e Controle).

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REVELAÇÕES CONTINUAM VAZANDO

Caso o ainda diretor Pagot e os representantes do Planalto se acertem nesse fim de semana e ele se mantenha discreto, sem fazer maiores revelações nos depoimentos à Câmara e ao Senado, mesmo assim as informações sobre o Ministério sempre acabarão vazando, como aconteceu semana passada com o impressionante vídeo da IstoÉ demonstrando que o ministro Alfredo Nascimento, há mais de 8 anos no cargo, não sabia nada sobre estradas e era feito de marionete pelo deputado Waldemar Costa Neto, que funcionava como se fosse o verdadeiro ministro e tinha até sala privativa no gabinete.

O pior são as comparações entre os custos da construção civil no Brasil do governo Lula Rousseff e nos outros países. Como se sabe, a China acaba de inaugurar a ponte da Baía de Jiaodhou, que liga o porto de Qingdao à ilha de Huangdao. Tem 42 km de extensão, bem mais do que o dobro da Rio-Niterói, que tem 16 km. Construída em apenas quatro anos, a gigantesca obra custou o equivalente a R$ 2,4 bilhões.

Na internet, circula um estudo comparativo realizado pelo matemático gaúcho Gilberto Flach, com base no projeto da nova ponte do Rio Guaíba, em Porto Alegre, recentemente aprovado pelo Dnit de Pagot.

Com 2,9 quilômetros de extensão, a obra brasileira vai custar R$ 1,16 bilhão e também deverá ficar pronta em quatro anos. Espantado, o matemático começou a fazer as contas, que foram publicadas pelo jornal Zero Hora, o mais importante do Rio Grande do Sul.

Os números indicam que, se o Guaíba ficasse na China, a obra seria concluída apenas em 102 dias, ao preço de R$ 170 milhões, vejam só que absurdo. E se a Baía de Jiadhou ficasse no Brasil, a ponte chinesa não teria prazo para terminar e seria calculada em trilhões.

Além disso, se a construção da ponte sobre o Rio Guaíba fosse na China, como a corrupção seria logo descoberta, tal a disparidade dos números, os criminosos teriam execução rápida e suas famílias ainda seriam obrigadas a pagar pela munição gasta no fuzilamento.

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