País rico é assim mesmo

Carlos Chagas

Assentada a poeira das festas de Natal e Ano Novo, não se dirá estarmos retomando hoje o ritmo da normalidade funcional. Pelo menos a sociedade das instituições formais mantém-se na inércia. A presidente da República permanece de férias, na Bahia, com o Congresso e o Judiciário em recesso. Ainda que Dilma Rousseff possa estar de volta a qualquer momento, deputados e senadores, bem como juízes, desembargadores e ministros dos tribunais superiores, só em fevereiro. País rico é assim mesmo, já que a paralisia dos poderes da União e dos Estados contamina as estruturas civis.

A imprensa circula por obrigação, sem grandes notícias. Os advogados viajam ou ficam em casa, por falta de mecanismos para exercer suas funções. A indústria carece de diretores e de altos executivos, também contaminados pela ausência de energia nas estruturas oficiais. O comércio conta o lucro aumentado no período natalino, mas lamenta a falta de movimento em seus estabelecimentos. Os serviços seguem a corrente, com o trânsito até facilitado pela diáspora de veículos e as redes sociais limitadas a balanços redundantes e a votos de feliz Ano Novo.

O sol contribui para a lotação das praias e a classe média carrega suas baterias na areia ou à sombra, fora do litoral. As massas estão presentes na rotina do dia-a-dia, ainda que aproveitando a oportunidade para também relaxar. Com as escolas e universidades fechadas, alunos e professores entregam-se ao não fazer nada com empenho redobrado.

Não se trata apenas de duas semanas meio perdidas, nem da projeção de que o mês de janeiro seguirá no mesmo diapasão. Revela-se, mais uma vez, uma sociedade que, tendo reduzido ao mínimo seu potencial de ação, sofrerá por algum tempo os efeitos da inércia. Com boa parte esperando o Carnaval. Enfim, país rico é assim mesmo.

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QUEM QUISER QUE ACREDITE

No último dia de 2012, José Sarney não perdeu a mania de moldar o futuro de acordo com suas conveniências do presente, esquecendo o passado sempre que necessário. Declarou, em entrevista à Folha de S. Paulo, que os ex-presidentes da República, uma vez cumpridos seus mandatos, deveriam ser proibidos de candidatar-se a quaisquer outros cargos eletivos. Ficariam, no máximo, à disposição do país para missões extra-rotineiras, sempre que acionados. Claro que com o poder público garantindo-lhes condições para exercer a singular profissão de ex-presidentes, com pensão, escritório, viagens e segurança permanente.

Nos Estados Unidos é assim, mas no Brasil de José Sarney não foi. Por temer incerta perseguição do sucessor ou por incapacidade de permanecer ao sol e ao sereno, desde que deixou o poder vem se elegendo senador. Como ficou difícil no Maranhão, manobrou para tornar-se representante do Amapá, onde nunca havia estado e não está, exceção do mês anterior às campanhas eleitorais. Tivesse aplicado na prática sua atual teoria e o Senado não aproveitaria sua experiência por tantos anos, desde 1990.

O ex-presidente também se disse adversário das medidas provisórias, primeiro a utilizá-las a partir da Constituição de 1988: “Sem elas seria impossível governar, mas com elas a democracia jamais se aprofundará e as instituições jamais se consolidarão”. Foi graças à sua inflexibilidade que o parlamentarismo deixou de ser implantado pelos constituintes, mas agora atribui a maioria dos males nacionais ao presidencialismo do qual não abriu mão .

Por essas e outras vamos deixar na geladeira a decisão por ele anunciada, de não se candidatar outra vez em 2014. Quem quiser que acredite…

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