Papai Noel é um bom velhinho (especialmente para o mundo dos negócios)

Paulo Peres

A classe média brasileira, geralmente, gasta 50% do valor que receberá do 13º salário com o pagamento de dívidas, mas vai às compras atendendo ao apelo do Papai Noel, um velhinho bonachão apenas para o comércio.

A chegada de Papai Noel na noite de Natal é esperada com ansiedade por inúmeras crianças em todo o mundo, embora o mito do “bom velhinho” carregue outras versões em nada carismáticas ou bondosas, como revela Roland Barthers em seu livro “Mitologias”, que se ocupa com uma análise semiológica das mensagens veiculadas pelos meios de comunicação de massa.

Segundo o livro, Papai Noel funciona como imagem reparadora da sociedade. É um momento em que a sociedade se livra de sua culpa através do presente e da imagem idealizadora do “bom velhinho” , do pai e do mundo adulto, pois a sociedade não aceita que se possa ter um lado bom e outro mau. Papai Noel surge, neste aspecto, como um personagem apenas bom e com ele a sociedade se redime. Isso passa para a criança que é impedida de expressar o seu lado agressivo (mau).

“A imagem da infância é feita de formulações ideais de bondade e inocência”, afirmam os psicólogos, que veem assim, “um comportamento repressor do Papai Noel, na medida em que o presente, na verdade, é uma troca. Só recebe presente que se comporta bem, uma maneira do pai esconder a repressão que ele exerce sobre o filho”.

SÃO NICOLAU

A ideia de que Papai Noel teve origem como sucessor de São Nicolau ou São Klaus pode ter sido o início do hábito de dar presentes na Alemanha, não é muito aceita pelos psicólogos. ” Na versão de Walt Disney para Papai Noel, nota-se que ele confecciona brinquedos numa fábrica em que os anões são artesãos e há, naturalmente, um artesão-chefe. Logo, Papai Noel procura ocultar o caráter de produção coletiva da indústria”.

Para os psicólogos, Papai Noel, como se apresenta hoje, é uma construção moldada sobre fragmentos de mitos europeus. “Nessa construção encontramos, entre outros, o componente de humanização que é semelhante aos dos desenhos animados. Quer dizer, a figura do Papai Noel é acentuada pelos traços curvos, é engordada como acontece com os bichos”.

Na verdade, Papai Noel só existe como escamoteamento, porque o consumo continua sendo culpado, enquanto ele é o móvel inocentador desse consumo, pois absolve sua culpa. Por outro lado, ele é um dos muitos mitos do poder em sua imagem dadivosa. Por isso, “ele é Papai Noel, um substituto do pai, porque é o pai quem realmente faz. Pai, em escala social, é a instituição. Logo, Papai Noel é uma imagem institucional”, do ponto de vista psicológico.

Na análise psicanalítica, Papai Noel opera como elemento de frustração do superego e de resistência ao consumo. ” Ele frustra o superego do consumidor naquilo que este tem de crítica à gratificação. Quer dizer, o anseio de gratificação pelo presente de Papai Noel e, este presente é uma autogratificação, sobretudo, quando se dá alguma coisa a um filho”.

No Brasil, o incremento da propaganda do mito Papai Noel, a partir de 1930, associa-se à industrialização e ao acréscimo de dependência externa. Vale ressaltar que, na década de 30, em todo o mundo, Papai Noel assumiu a feição que tem hoje, esse caráter bonachão, no quadro de uma crise econômica duradoura, quando foi necessária a intervenção do Estado em todos os setores da economia (política do New Deal reproduzida nos países europeus de diferentes formas).

FOLIA DE REIS

O Brasil, pelo processo de colonização, vinha desenvolvendo várias representações natalinas próprias, que se centravam nas Festas de Reis. Estas festas, apesar dos folguedos de representações religiosas de origem ibérica, eram de realização brasileira, um ritual que variava de região para região. Não havia no país unidade nacional para manter uma só representação. Mas essas festas foram sendo esmagadas em função da sociedade de consumo, surgindo, então, a imagem definitiva e alienígena de Papai Noel, puxando seu trenó em pleno verão tropical.

O Natal (data do nascimento de Jesus Cristo) foi deturpado pelo mito Papai Noel, pois sua importância como instituição comercial na sociedade brasileira, sobretudo no processo de industrialização de bens de consumo, é notável, uma vez que se reflete nos próprios ciclos de emissão de papel-moeda, explicam os economistas. Nesses ciclos há piques:

“O primeiro ocorre entre os meses de maio e julho, e é destinado à indústria de bens; o segundo ocorre entre agosto e setembro, destinando-se ao comércio atacadista de bens; e o último começa em outubro e emenda dezembro, que é o pique do varejo e do financiamento ao consumidor. Mesmo porque uma boa parte dos brasileiros que vive ao nível de subsistência tem como único recurso de compra a gratificação do Natal”.

14 thoughts on “Papai Noel é um bom velhinho (especialmente para o mundo dos negócios)

  1. Ótimo artigo. Muitos devem conhecer o Buda Gordo e Sorridente, era um monge da antiguidade chamado Hotei, vivia nas ruas com um saco ao ombro, recolhia no comercio comidas e brindes, distribuía com as populações de rua. Era professor e ensinava as crianças, após o compartilhado almoço. Algumas imagens mostram Hotei com crianças alegres à sua volta. Penso que essa história qdo foi para a Europa virou mito e se espalhou pelo mundo.

  2. Renas, neve, trenó, chaminé, lareira. Papai Noel faz parte da cultura nórdica. Mas é bacana. A inocência infantil de botar o sapatinho na janela, e, de manhã , lá está o presente. Não é de hoje que a cultura popular foi surrupiada pela ganância comercial. Aí, acabou a graça.

  3. Em janeiro de 2011 eu estava em Sevilha, Espanha (torcendo pelo Bétis, que é verde e branco, claro !). No dia dos Reis Magos, 6 de janeiro, as pessoas colocam, meias nas janelas e varandas. Bonecos imitando os 3 Reis Magos decoram os prédios por fora e dentro. Festas e confraternizações. Nas padarias existem bolos e pães tipo trança com presentes-brindes, dentro da massa e quem encontra é o Felizardo do Ano. A meu ver é uma atitude mais Cristã, pois foram os 3 Reis Magos que trouxeram os presentes do Oriente para Jesus. No Natal, Papai Noel é um solene desconhecido.

  4. Não entendo esta preocupação de alguns em exterminar com as tradições da sociedade.
    O Papai Noel é uma delas.
    Ao longo da minha vida li milhares de artigos criticando a imagem do velho gordo bonachão vestido de vermelho como se fosse uma figura do mal, do consumismo desenfreado, que precisa ser aniquilada.
    E, seus autores, recorrem às mais variadas alegações meramente retóricas e também opiniões de meia dúzia de psicólogos, que imaginam ser autoridades no tema “troca de presentes”!
    Por outro lado, certos textos apelam quanto à questão das crianças que não vão ganhar presentes porque pobres, que não vão ter a ceia de Natal, que não terão seus lares alegres diante da miséria que os cercam.
    Repudio essas tratativas idiotas!
    O mundo anda tão sem valores, sem consideração, sem princípios que, pelo menos um dia, as pessoas pensem nas outras, nos seus parentes, amigos e, principalmente nos filhos e pais.
    O Papai Noel não é somente o presente, mas pode ser um dia de paz, de calma e tranquilidade, de troca de abraços, de carinho, de ternura.
    E, depois, faz-se necessário dar um basta a esta maldita mania de culparem a sociedade pela miséria alheia, pela criança abandonada, que não terá o que comemorar nesta data.
    Pergunto:
    Aonde andam seus pais?
    Por que não pensaram nas consequências de terem um filho sem condições?
    Por que o pai não está preso, responsabilizado pelo desleixo de seu filho?
    Ou por que a mãe insiste em ter filhos a granel, sabendo que não poderá sustentá-los?
    Não aceito que, nesses casos, a ignorância seja culpada. Não mesmo. Na hora do aconchego, do “rala e rola”, maravilha. Depois, querem que os outros sustentem o “fruto” desse amor louco, estúpido, irresponsável!
    O ser humano tem sido aliviado da sua carga de responsabilidade e compromisso paternal e maternal por políticos mal intencionados e por movimentos demagógicos. Este pessoal que tem filhos sem condições ou em precárias, aprendeu a exigir do governo e da sociedade que sejam compensados pelos seus infortúnios, pelas relações frustradas, pelo macho que deu no pé, pela mulher que não para de trocar de homem, sabendo que existem meios para evitar ter filhos, pois não são tão imbecis e ingênuos neste ponto.
    Então, a cada véspera de Natal, surgem os caras que se apresentam como política e socialmente corretos, reclamando do Papai Noel, que não visitará todas as casas e as crianças, portanto, na verdade, trata-se de uma imagem maligna, injusta, exigente, aterradora!
    Não aceito esta intenção de quebrar a magia do Papai Noel.
    O mundo da criança é diferente dos nossos, pois é da imaginação, da brincadeira, do faz de conta.
    Por que atribuir a este personagem a cruel realidade que o ser humano quando adulto constrói para si mesmo?
    Não foram os pais desumanos os culpados, é o Papai Noel, acusam;
    Não foi a irresponsabilidade de ter filhos sem condições, mas o Papai Noel, que não vai trazer presentes para seus rebentos, publicam;
    Não foi o dinheiro, mesmo uns trocados, que poderia ter sido economizado da cachaça e do crack para comprar uma lembrança neste dia, mas o Papai Noel, que é mau, psicologicamente prejudicial à humanidade, dão a entender,
    Eu apenas gostaria de saber desses autores de textos contrários a esta imagem do Papai Noel se, no Natal, eles visitam os filhos de seus casamentos separados ou se lembram dos seus pais, abandonados em asilos e sem qualquer atenção!
    Se, por acaso, eles dão o ar de suas graças nas casas dos pobres levando algum presente às crianças que, em seus artigos, elas são mencionadas.
    Se, nesta data, eles se lembram de seus irmãos, e os convidam para o jantar da véspera de Natal.
    Se, nesta noite, eles contemplam seus sobrinhos com qualquer presente por mais simples que seja.
    E, se neste dia, eles agradecem a Deus por terem o que comer e beber, vestir e comemorar ou, então, se jactam da sua condição econômica por terem se realizado como pessoas e profissionais e, neste egoísmo, de certo para justificar a si mesmos a sua superioridade perante a maioria das pessoas, o alvo é o Papai Noel, pois essas pessoas vivem de suas próprias ilusões e devaneios, não admitindo que os demais possuam sonhos e esperanças mesmo que sejam através de figuras mitológicas, da tradição do mundo Ocidental, de suas próprias famílias no passado, que as rejeitaram quando adultos!
    Acredito que este pessoal confunde o Papai Noel com outra figura de nossas imaginações, mas com o qual tanto se identificam:
    O velho e maldito demônio!

      • Obrigado, Mauro.
        Esse pessoal que é contra a imagem do Papai Noel se, sério agisse, apresentaria os prejuízos psicológicos do bom velhinho às crianças.
        Então, a maioria absoluta dos adultos do mundo Ocidental, teria graves problemas desta ordem.
        Muito mais trágico e desumano são os pais que abandonam seus filhos, que os tratam mal, que não lhes dão amor, que lhes negam atenção, que sequer olham seus cadernos de escola, que lhes desprezam, que os tomam por inimigos!
        Não reside em uma figura mitológica os males da humanidade, mas no próprio ser humano quando se vale de preconceitos, quando segrega, quando divide, quando isola, quando o mal supera a bondade.
        Um Papai Noel do meu tamanho prá ti e família, Mauro.

  5. O uso do material fica a cargo de seu proprietário.
    Se dele faz bom uso ou não é problema do seu dono.

    O Homem inventa coisas divertidas como Papai Noel. Quando criança me diverti muito com ele.

    Por outro lado existem aqueles com a falácia de mundo perfeito inventado por ideologias que tentam estabelecer o que é bom ou mal ditado por elas.

    Por essas e outras acho que bom mesmo é a liberdade de ser o que se é sem medo de ser feliz.

  6. Estou emocionado com o espírito caridoso da Srª Marisa Rocco Lula da Silva ! O Instituto Lula soltou uma nota dizendo que aquela cobertura triplex não é do Lulla. A nota diz que a Dona Marisa é dona de cotas da Bancoop. Quanta bondade! Ela mandou trocar o piso por porcelanato, colocar um elevador privativo interno e fazer um espaço gourmet numa cota coletiva ! Até quando vão nos chamar de palhaços hem japonês ?

  7. O autor, Paulo Peres, mostrou o seu esforço em abordar a figura do bom velhinho natalino em outros ângulos existenciais, os objetos de prazer, e até culpar o consumo na época do Natal.
    Valeu pelo esforço. Feliz Natal, senhor Paulo Peres.

    Mas, na minha opinião, o senhor Bendl deu no cravo e na ferradura. Um ótimo comentário. Realista, atual e emocionante, em se considerando o alvo preferido do Papai Noel, as crianças; a quem o senhor Bendl, com propriedade, e sinceridade, analisou e ponderou as muitas formas de viver o Natal…

    Uma frase de seu comentário é simplesmente maravilhosa: ” O mundo da criança é diferente dos nossos, pois é da imaginação, da brincadeira, do faz de conta. ”

    Digo eu: tanto faz uma boneca de pano. ou um carrinho simples de madeira, uma bola, um livro, como presente de Papai Noel a uma criança, tanto rica como pobre, ganha uma dimensão que transcende o Natal para os adultos…

    Ainda aproveitando o momento, desejo um Feliz Natal para todos os companheiros do blog, com abraços para cada um, e em separado, pois não pode ser esquecido, um outro para o nosso Moderador, grande jornalista, Carlos Newton, o heroico Papai Noel do blog Tribuna da Internet.

    • Andrade,
      A tua frase sobre o nosso Moderador foi antológica!
      Newton nos concede um presente de natal maravilhoso a cada dia que passa.
      Eis, de forma incontestável, que Papai Noel existe.
      Parabéns, Andrade, pois foste muito feliz nesta afirmação.
      Um abraço.

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