Para encerrar o capítulo do voto impresso basta ser marcada a posse do general Hamilton Mourão

Presença de Bolsonaro desde o alvorecer de ontem é decorativa

Pedro do Coutto

O inusitado desfile militar no dia da votação que afastou o voto impresso do roteiro das urnas de 2022, causou constrangimento, sobretudo no Exército, conforme revelou Jussara Soares em reportagem na edição de O Globo desta quarta-feira.

Nem poderia ser de forma diferente, tal o grotesco do qual se revestiu o evento cujo alegado objetivo era apenas o de entregar um convite ao presidente da República, convite que a meu ver tem o significado de despedida no alto da rampa do Palácio do Planalto, cenário e testemunha de tantos impasses e contradições.

MAL-ESTAR – Por falar em contradições, é muito bom o artigo de Eliane Catanhêde, edição de terça-feira do Estado de S. Paulo, focalizando o clima de mal-estar precedido de uma decisão tomada no final da tarde de sexta-feira pelo próprio Jair Boslonaro. Aliás, a repórter e analista é uma referência imprescindível sobre qualquer movimentação política ocorrida nas Forças Armadas. Os fatos comprovam que ela possui informações precisas do que acontece nas áreas militares. Acompanho sempre os seus artigos, como também os de Jussara Soares.

Conforme era previsível, a posição do presidente Bolsonaro no Planalto foi totalmente enfraquecida com o desfecho da noite de terça-feira na Câmara de Deputados que, pelo tempo de apuração dos votos, lembrou-me as noites que chamávamos de “vigílias cívicas” na redação do Correio da Manhã quando a temperatura se aproximava do grau de fervura institucional.

FIGURANTE – Jair Bolsonaro perdeu todas as condições de governar. Sua presença desde o alvorecer de ontem é simplesmente decorativa, imagem agravada pelo depoimento do coronel Hélcio Bruno de Almeida na CPI da Pandemia, sessão de terça-feira.

Para que o capítulo do voto impresso se encerre, basta, como eu disse, a posse do general Hamilton Mourão na Presidência da República. O episódio do desfile na Esplanada foi também muito bem analisado por Bernardo Mello Franco, edição do O Globo de ontem.

BOLSONARO IGNORA LEGISLAÇÃO –  Ao refutar o resultado concreto da votação da emenda constitucional do voto impresso pela Câmara, Jair Bolsonaro revela (não desconhecer, mas ignorar) a própria legislação constitucional do Brasil. A aprovação de qualquer emenda constitucional necessita de duas votações favoráveis pela Câmara de Deputados e outras tantas pelo Senado Federal.

Se numa das investidas o projeto for rejeitado, acaba a história. Como disseram o deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco, a PEC do retrocesso foi enviada ao arquivo. Isso de um lado. De outro, nenhuma emenda constitucional rejeitada numa sessão legislativa pode ser reapresentada no decorrer deste período.

Assim, o voto em 2022, seja para presidente da República, governador, senador, deputado federal ou estadual, permanecerá sendo praticado através das urnas eletrônicas. Mas o assunto está superado não apenas por esses dois aspectos já  essenciais. Existe um terceiro; qualquer mudança na legislação eleitoral tem que ser aprovada até um ano antes do pleito a que ela se referia. Portanto, o voto impresso só pode entrar em discussão para as eleições de 2026. Esta é a sua única hipótese de reapreciação. Mas, na minha opinião, toda vez que for reapresentada, tal matéria será rejeitada.

ABSTENÇÕES – Quanto ao resultado da votação de terça-feira, como escrevi no artigo de ontem, os votos contrários à emenda têm que ser acrescidos dos parlamentares que se abstiveram. Isso porque as emendas constitucionais exigem quórum de dois terços dos parlamentares a favor.

Assim, o resultado foi o seguinte: a PEC de Bolsonaro exigia 308 votos a favor. Obteve apenas 238. Somadas as abstenções com os votos contrários, a derrota do governo foi ainda muito maior: perdeu por 283 a 229. Esses dados foram objeto de comentário dos repórteres Nilson Klava e Gerson Camarotti na GloboNews.

COMPULSÓRIOS – No espaço que ocupa semanalmente na Folha de S.Paulo, Delfim Netto escreveu ontem sobre a confusão que a área econômica do governo Bolsonaro está fazendo em matéria de pagamento dos compulsórios.

O tema, também na Folha, já foi abordado por Arminio Fraga: o ex-presidente do Banco Central e o ex-ministro da Fazenda chamam a atenção para mais esse descrédito do governo Bolsonaro em matéria de compromissos financeiros.  

Afinal, acrescento, os precatórios, hoje na ordem do dia, resultam de sentenças da Justiça Federal exatamente transitadas em julgados há 31 anos. Portanto, são de 1990. Três décadas de espera para que alguém receba apenas os seus direitos.

16 thoughts on “Para encerrar o capítulo do voto impresso basta ser marcada a posse do general Hamilton Mourão

    • Pois é, seu Antônio. O fato é que não sabemos o que é guerra, não temos amor á nossa terra, somos uns fracos! Esse traste que nos perturba todo dia como um vício, devia estar amordaçado num hospício.

      • Somos escravos da nossa própria preguiça.

        O povo não tá nem aí!

        É uma pena, era pra estarmos nas ruas aos berros todos os dias.

        O brasileiro está acostumado a tomar na tarraqueta!!

        JL

  1. Basta a omissão das FFAA e o golpe estará dado, restam as possíveis reações dos governos dos Estados federados.

    Quanto ao voto impresso, tchau Bia!

  2. Chega a ser cômico: pagamos um servidor fardado, damos-lhe estrelas, e como retorno somos desrespeitados. Seja verde ou branco ou azul, é preciso ter em mente que o povo é o único soberano.

    • Seu Armando, também não precisa exagerar na torcida. Kkkk

      Evidentemente o mourão é melhor que o Asmodeus, mas também não é essa coca cola toda não!

      Passaríamos a ouvir outras boçalidades do sócio do club militar que também nunca devia ter saido de lá.

      Mas reconheço que sofreríamos bem menos com esse aí.

      Um forte abraço.
      JL

      • Tô ligado , sr. Espectro.
        Mourão faz parte do Clubinho do Lombo de Bacalhau
        Não tem muito coisa para oferecer.
        Mas é mil vezes melhor que o Bolsofrango….

        abraços da Terra Devastada pelas Quadrilhas no Poder…..

  3. Desde o começo do mundo é assim: governa quem tá com a caneta, quem bota e tira dos cargos. O resto é conversa fiada! Quem se lembra do Guaidó? O Maduro se admirou e disse: eu assino os dscretos e eles contknuam a valer! Continua a caneta a ser do Bolsonaro e só essa vale. E ele a põe onde quiser!

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