Para matar as saudades, o comentarista Genilson Albuquerque Percinotto nos envia a entrevista que Helio Fernandes concedeu a Marcone Formiga, da revista “Brasília em Dia”, no último dia 3.

Marcone Formiga

O jornalista Helio Fernandes, aos 90 anos, continua sendo um repórter em tempo integral, sem perder a curiosidade e vibrando com as informações que colhe a partir do amanhecer e até quando vai dormir, atendendo a políticos e jornalistas que querer lhe dar informações ou beber na mesma fonte. A idade não altera nada, continua lúcido, ativo e de prontidão.

Quando uma crise surge, mesmo longe de Brasília, consegue até detalhes dos diálogos que ocorrem nos gabinetes da capital da República. Ele acompanhou diuturnamente a crise que envolveu o ministro Antonio Palocci, o poderoso chefe da Casa Civil. Sem dúvida, analisa, dia após dia, os fatos que acontecem no país com a presteza de um enxadrista profissional, que observa cada peça no tabuleiro. Com uma memória privilegiada, ele é capaz de discorrer sobre quase todos os ocupantes do Palácio do Catete e do Palácio do Planalto. Alguns foram amigos íntimos seus, como, por exemplo, Juscelino Kubitschek, de quem foi assessor de imprensa durante sua campanha para se eleger presidente da República.

Ele começou no jornalismo aos 14 anos, quando foi aceito na revista “O Cruzeiro”, que, na época era o periódico com maior tiragem no país. Juntamente com seu irmão, Millôr Fernandes, Helio ficou 16 anos no primeiro emprego, para editar as páginas de esporte. Depois, assumiu como diretor a revista “Manchete”, concorrente de “O Cruzeiro”.

Com o país, em efervescência, depois do fim do Estado Novo, em 1945, Helio Fernandes optou por cobrir para o Diário de Notícias a Assembléia Constituinte de 1946, durante a qual se tornou amigo de Carlos Lacerda, que fundara a Tribuna da Imprensa, jornal recém-lançado. Em 1962, Helio passou a ser dono do jornal, que circulou até o ano passado.

Perseguido pelo golpe militar de 1964, Helio Fernandes registrou o manifesto pela Frente Ampla, lançado por Juscelino, Lacerda e João Goulart. Ia ser eleito deputado federal, os militares cassaram sua candidatura. No final da ditadura, seu jornal foi alvo de um atentado a bomba, praticado por elementos do antigo SNI.

A crise atual é analisada por ele, com muitas informações, como os leitores podem conferir.

– O que está acontecendo na vida pública brasileira?

– Nós estamos vivendo a maior crise desde 1964 – crise de saúde, crise de indecisão, de ambição, de corrupção, de tudo!…

– Tudo isso por causa da crise fomentada pelo ministro da Casa Civil, Antonio Palocci?

– É evidente, chega a ser muito óbvio, a partir de um precedente, a quebra do sigilo do caseiro por causa de R$ 24.500 que ficou apurado do depósito do jardineiro, que recebera o dinheiro do seu pai. Mas a turma do então ministro da Fazenda decidiu que ele recebera de um suborno para denunciá-lo, para descaracterizar o seu depoimento, afirmando que Antonio Palocci participava de tertúlias em uma mansão do Lago Sul, no primeiro governo do Lula…

– Mas, afinal, quem denunciou o então ministro da Fazenda?

– Quem denunciou o ministro da Fazenda, na época, foi um jardineiro, mas, na verdade, quem denunciou o Palocci foi o então senador petista, que agora é governador do Acre, Tião Viana. Ele queria ser presidente do Senado Federal, mas foi preterido pelo José Sarney e ficou furioso…

– Qual a leitura que o senhor faz de Palocci nesse caso de agora?

– Meu raciocínio é o seguinte: se você ganha R$ 8 milhões e coloca em um fundo, passa a viver bem, com R$ 50 mil ou 60 mil por mês, rendendo… Aí, você completa que ganhou R$ 8 milhões, compra dois imóveis pelo mesmo valor? Isso não existe!… Ele deve ter ganhado R$ 30, R$ 40, R$ 50 milhões, não há limite. Além do mais, o Lula deveria ter sido chamado à Câmara ou ao Senado para explicar por que demitiu o ministro da Fazenda quando era presidente. Afinal, antes ele afirmava que esperava um sinal verde para abaixar os juros – confiava totalmente nele e, de repente, o demite? Ou seja, o Lula tem que explicar por que o demitiu. Agora, ele não sabe…

– Como o senhor vê o papel de vice no Brasil?

– Em países como os Estados Unidos, há vice-presidente e bipartidarismo também, só que lá existe um presidencialismo bipartidário, aqui, há um presidencialismo pluripartidário e toda a corrupção vem daí. A grande reforma que tem que ser feita no país é a reforma política. Elenco 13 itens sustentáveis, enquanto isso, não acontece nada. Agora, a presidente Dilma está perdendo espaço. Por exemplo, aquele bilhete que ela mandou para o Candido Vaccarezza, líder do PT na Câmara dos Deputados, para ler no dia da votação do Código Florestal, afirmando que aquilo era uma vergonha e ela ia vetar tudo. Até pode, porque é constitucional, e pode também ameaçar o Congresso. Mas, o Congresso não faz nada. A situação é muito difícil.

– O que o senhor estranha na conjuntura política?

– Por exemplo, o Lula estava despachando na casa oficial do senador José Sarney porque ele não pode ir ao Palácio do Planalto, evidente, mas estava despachando de lá! Quando eu fui pela primeira vez à casa do presidente do Senado, que não era o Sarney, fiquei impressionado, é enorme. Dezenas de deputados e senadores tomam café da manhã e almoçam na mansão.

– Essa mordomia política só acontece por aqui?

– Não, em Washington, a Casa Branca é um exemplo. Eu a visitei com o presidente Juscelino Kubistchek – tem 135 salas e, depois, o gabinete presidencial. Todo mundo fica lá, deputados, senadores, amigos do presidente, ficam por lá, fazem refeições… Esse sistema é inteiramente falho, mas eu tenho que reconhecer: qualquer que seja o presidente, a culpa é do sistema.

– O que muda, então?

– Na Itália, por exemplo, nem o presidente nem o primeiro-ministro são eleitos. Lá, existem 15, 16 partidos, são 412 deputados. O presidente, um senhor de 80, 90 anos, chama você, o líder do partido que fez mais deputados, e pergunta se você quer organizar o gabinete. E aí você pergunta quantos dias tem e começa a contatar os partidos. A metade desses deputados é 206, mas por causa do voto de confiança, você precisa de uma base de 230 deputados, daí fica com 182 contra. Ou seja, fica com uma vantagem de 42, que vêm a ser 21. Se 21 mudarem de lado, fica igual. Os acordos são feitos abertamente, oferece-se ao partido que tem 200 deputados, se tem 150 oferece três quartos, era como no Império. No Império funcionava assim, liberais e conservadores.

– O que lhe parecia muito estranho?

– Chamavam alguém para formar o gabinete, de 1846 a 1889, por 43 anos houve 47 gabinetes, não afirmo que tinham 47 primeiros-ministros porque muitos repetiam, a média era de 11 meses para cada gabinete. Aqui, o presidente é eleito junto com os deputados e senadores, precisa de maioria para governar. Isso é fora de dúvida, aí fica tudo na base da corrupção…

– Qual é o cenário futuro diante de toda essa situação?

– Diante dessa situação, se não houver uma alteração maior, o Lula vai ser o presidente em 2014. Aquilo que a gente admitia, e muitos já admitiam, porque, na verdade, nos primeiros quatro meses da Dilma, ela não cometeu maiores erros, e também, quatro meses é pouco tempo. Mas, também, não fez nada, as grandes reformas brasileiras que ela prometeu na campanha, “o nosso maior investimento vai ser saneamento”, e vem o censo revelando que 70% das residências brasileiras não têm saneamento. Então, onde fizeram esses maiores investimentos do PAC?

– O senhor tem uma resposta?

– Em nada, infraestrutura, nada. Não se pode deixar de falar sobre a Copa de 2014, vou dar só o exemplo do Maracanã. O primeiro orçamento foi de R$ 600 milhões, depois passou para R$ 700, e agora já passa de R$ 1 bilhão. O Garotinho fez uma reforma, gastou R$ 416 milhões, o secretário de Esportes era Chiquinho da Mangueira, ligadíssimo ao Garotinho. Ele saiu, foi candidato a presidente, a Benedita tomou seu lugar por nove meses e aí fizeram outra reforma do Maracanã, de R$ 430 milhões. Quem fez? Chiquinho da Mangueira, secretário de Esportes, novamente. Agora, sai essa reforma de R$ 1 bilhão? Em São Paulo, a Fifa está vetando os estádios e acaba que São Paulo, por enquanto, não vai ter jogo nenhum. Estão gastando fortunas e não vai dar em nada, deviam fazer como estão fazendo em Londres, tudo descartável…

– Como assim?

– Faz-se um estádio para 70 mil pessoas, mas ali, normalmente, tem média de 30 mil, 35 mil pessoas. Então, aquela outra parte, eles tiram e fica tudo perfeito. O que estão gastando em tudo isso é uma loucura completa! No Rio, por exemplo, o Sérgio Cabral (governador) já declarou que vai privatizar o estádio. Quer dizer, gasta R$ 1 bilhão do dinheiro público para privatizar, assim como esses aeroportos todos que estão sendo reformados. Nada está sendo feito para a coletividade. O pior de tudo é a crise política, sem dúvida nenhuma. A política é a arte de governar os pobres, evidentemente, Quem disse isso foi o Sócrates, em primeiro lugar, acertou inteiramente.

– A votação do Código Florestal na Câmara dos Deputados foi outro componente para uma crise política?

– Com certeza!… Eles dominam tudo? A primeira parte eles ganharam muito fácil, mas, a segunda, que foi a PEC 164, ganharam por 63 votos, 37 do PT e 26 do PMDB, se esses deputados tivessem votado com a base. Deveriam votar, porque o sistema é assim, eles receberam, têm todas as compensações, as recompensas, então, deveriam ter votado. Agora, os ruralistas são muito poderosos, evidentemente. O Ruy Barbosa, no discurso de posse no ministério da Fazenda, atirou direto nos paulistas: “Depois de 100 anos da Revolução de 1780, na Inglaterra, o Brasil ainda é um país essencialmente agrícola”…

– Como era?

– Naquela época, em 1889, quando ele tomou posse, o Brasil exportava, vendia 96% de todo o café consumido pelo mundo, 92% plantado e colhido por São Paulo, 2% pelo Rio e 2% pelo Espírito Santo. Quando surgiu a crise de 1929, a primeira mundial daquele tempo, todo mundo deixou de comprar. O Brasil hoje exporta 31% de todo o café, porque inventaram aquele negócio de jogar café no mar para manter o mercado, depois queimar o café, aí a Colômbia começou a plantar café, a Costa do Marfim… Até o Vietnã hoje vende mais café do que o Brasil. Ou seja, o Ruy Barbosa acertou em cheio, há pouco mais de 100 anos, que o Brasil não podia ser um país essencialmente agrícola, também ser industrializado.

– E quanto aos ambientalistas?

– Os ambientalistas apanharam, apesar de a presidente Dilma conseguir levar ao Palácio do Planalto 10 ex-ministros do Meio Ambiente, oportunidade em que afirmaram que aquele Código Florestal simplesmente era um absurdo completo, e é mesmo! Cada vez se desmata mais, essa que é a verdade, e os que se opõem são mortos, porque o negócio da madeira é tão rico que não dá nem para avaliar.

– É irreversível uma crise entre o PT e o PMDB?

– Não é irreversível, porque todos os dois sabem, eles são carreiristas, ambiciosos e interesseiros, mas, não são idiotas, de jeito nenhum. Depois de o Antonio Palocci ter mantido aquela conversa com Michel Temer, eu não tenho a menor admiração por ele. Mas, ele era ministro e o outro, vice-presidente, tenho que admitir. O Palocci, insensatamente, disse ao vice-presidente da República que ia demitir um ministro nomeado por ele. Isso é espantoso. Aí, o Temer respondeu-lhe que podia demitir “esse ministério de merda”, assim mesmo!…

– Foi desse jeito mesmo?

– O ministro Moreira Franco contou isso para muita gente. O PMDB nunca quis ser presidente, na reforma política deveriam colocar um item que é fundamental: todos os partidos são obrigados a ter candidatos a presidente da República. O partido se organiza para quê? Para chegar ao poder e realizar seu programa, suas ideias, seus compromissos. O PMDB nunca quer a Presidência, ele quer as vantagens dela sem a responsabilidade. Isso devia ter na reforma política. Agora, eles querem colocar o voto de lista que irá consolidar as cúpulas. Vão se eleger 513 deputados da cúpula de todos os Estados. Esse chamado baixo clero, e eu venho apelando para eles para vetarem esse negócio, não será eleito, porque o PMDB vai botar na lista de deputados de Brasília, uns seis ou sete, vão colocá-los na frente, sem nem fazer campanha.

– O que acontecerá a partir daí?

– É lógico, a reforma vai violentar a Constituição, que garante o voto direto, para toda a representatividade. O voto vai passar sem ser direto, porque não se disputará a eleição, nem eu, nem ninguém, porque os primeiros da lista serão os eleitos. E, daí, irão para compensar os outros, distribuir ministérios… Nos Estados Unidos, a Constituição tem um item que é fantástico: “o cidadão só pode ocupar o cargo para o qual ele foi eleito”.

– Por exemplo.

– Vou dar o exemplo da Hillary Clinton. Ela foi convidada pelo Barack Obama para ser secretária de Estado, era senadora, com três anos de mandato, mas o presidente pode demiti-la…

– Ela poderá se candidatar a outro cargo?

– Aí, já é outra história… Você pega quantos suplentes em exercício tem? 18! O João Pedro é uma boa figura, gosto dele, está há cinco anos no mandato do Alfredo Nascimento. O José Serra ficou quase os oito anos de senador como ministro da Saúde, do Planejamento. Só foi assumir na época da descompatibilização, nove meses antes do fim do mandato. Quem ocupou o mandato dele foi o senador, pai da Fiesp. Nos Estados Unidos, você se candidata para um cargo e só pode assumir. Se quiser mudar, tem que renunciar àquele, está acabado. Aqui, toma posse dia 31 como senador, no dia 1º já é ministro e assume o seu suplente.

– Como o senhor viu a desenvoltura de Lula em Brasília?

– Ele estava esperando qualquer coisa, por que ele admitiu o chefe da Casa Civil, o homem que ele demitiu? Ele deveria explicar por que demitiu e depois aceitou. O Lula fala com Dilma duas, três, quatro vezes por dia e o ex-presidente,  pode-se dizer dele tudo o que quiser, menos que não é um sujeito hábil e inteligente. Escapar do Mensalão, como escapou, todos os 40 foram para o Supremo Tribunal Federal. Tem que ser um homem inteligente, hábil…

– Crise no PT, no PMDB e também no PSDB…

– Mas isso está acabando, eles querem lançar candidato no Rio e não tem ninguém, apenas dois deputados, e deputado estadual não vale nada, nada! Quem manda aqui no Rio é o Sérgio Cabral, realmente, ele domina tudo, esperto… O PSDB acabou, você vê que na reunião do Serra, Aécio e FHC, o Alckmin não foi, porque ele se considera a maior força eleitoral do partido, e na verdade é, governador de São Paulo pela quinta vez…

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