Para que convocar Marconi, Agnelo, Cabral e Cavendish? Já está tudo claro

Pedro do Coutto

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga a extensão e sobretudo a profundidade das articulações sombrias de Carlos Ramos Cachoeira, sob o protesto do deputado Miro Teixeira, decidiu não convocar os governadores Marconi Perilo, Agnelo Queiroz e Sérgio Cabral, e também não o empresário Fernando Cavendish, segundo se apresenta, ex-proprietário da Delta Construções. Alguns justamente revoltados com tal absurdo levantaram a hipótese de que tudo vai acabar em pizza. Não acredito.

Claro que, eticamente, seria importante ouvir os depoimentos dos governadores de Goiás, Brasília e do Rio de Janeiro sobre o desenrolar dos escândalos que ocupam as primeiras páginas dos grandes jornais. Como também a versão do veloz empresário Fernando Cavendish, cuja ex-empresa saltou, em poucos anos recentes, do meio do segundo plano para o topo do primeiro onde dominam as empreiteiras de maior porte do país.

Entretanto, francamente, não creio na necessidade urgente do comparecimento de todos estes personagens, por dois motivos. Primeiro porque as evidências já são suficientes contra todos eles. Como Nelson Rodrigues dizia do videotape, que pode ser burro mas não é mentiroso, o mesmo raciocínio cabe plenamente no caso das gravações telefônicas e nas fotografias publicadas. Inclusive as imagens de Paris e Monte Carlo.

A sociedade já formou sua opinião a respeito da tragicomédia protagonizada pelos atores do poder administrativo, do universo político e do mundo financeiro. O comprometimento entre a esfera pública e os interesses particulares é mais do que evidente.

Tanto assim que, por exemplo, o governador Sérgio Cabral sustentou a versão de que não tinha conhecimento das ligações entre seu companheiro de viagem, Fernando Cavendish e Carlos Cachoeira, por seu turno parceiro principalmente do senador Demóstenes Torres. Na CPMI do Congresso, claro, todos negariam tudo. Não iriam confessar verdadeiras razões e participações.

Marconi, Agnelo e Cabral, não vão ser condenados, não terão seus bens bloqueados, tampouco irão para a prisão. Mas isso não significa que tudo vá acabar na quarta-feira. Existe o tribunal da opinião pública, único que, no Brasil, leva os processos às decisões definitivas. Chico de Góis e Paulo Celso Pereira, no Globo, José Ernesto Credêncio e Andreza Matais, Folha de São Paulo, assinaram reportagens candentes nas respectivas edições de sexta-feira. No Globo, foto de André Coelho.

Revoltados, os repórteres, refletindo a sentimento popular, acentuaram estarmos, todos nós, próximos ao forno da pizza. Não é bem assim.
Em primeiro lugar, as cartas já estão na mesa, a evidência quanto aos comprometimentos é nítida. Porém não é só isso. CPIs, examinando-as bem, a partir de seus desfechos, nunca acabam em massas italianas repartidas.

A de Fernando Collor terminou com o impeachment e a queda do presidente da República. A do Mensalão culminou com a derrubada do ministro José Dirceu da Casa Civil e a cassação de seu mandato parlamentar. A CPI das Ambulâncias causou a demissão sumária de vários auxiliares diretos do presidente Lula e com a proibição de deputados buscarem a reeleição nas urnas.

O inquérito sobre a atuação da ex-ministra Erenice Guerra levou à sua exoneração. Era pessoa de confiança da presidente Dilma. Com a vitória nas urnas permaneceria à frente da Casa Civil. Perdeu o posto e a continuidade nele. O mesmo aconteceu com Antonio Palocci, demitido do Ministério da Fazenda no governo Lula. Demitido da Casa Civil do governo Dilma. O caso do ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi, outro exemplo. Há muitos na estrada. Não vale a pena citá-los um por um.

Todas as investigações começam com negativas e dispensa de depoimentos. Porém não terminam assim. Aprofundam-se. Um depoimento leva a outro. Marconi, Agnelo, Sérgio Cabral e Fernando Cavendish não se livram. Os desdobramentos da CPI vão acabar levando-os inevitavelmente ao Congresso. É sempre assim.

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