Para reduzir a desigualdade social, este mundo ainda tem muito que aprender…

Ao fazer a releitura de Marx, Piketty exibe o capitalismo selvagem

Rennan Setti
O Globo

Lançado recentemente na França, o novo livro do economista Thomas Piketty ganhará versões em português e inglês em 2020. O momento é oportuno, já que a discussão sobre a guinada da desigualdade deve protagonizar as eleições americanas deste ano e tomar ainda mais corpo em um Brasil cujo governo parece não estar muito preocupado com isso.

Mais amplo que o best-seller que o antecede, “Capital e ideologia” oferece uma espécie de anatomia histórica da desigualdade tanto em países avançados como emergentes, tanto em termos de riqueza como em poder político. Mas o livro funciona também como um anedotário do injustificável, um almanaque da selvageria através dos séculos.

INDENIZAÇÃO – Piketty conta que, em 1833, quando os britânicos aboliram a escravidão, acharam por bem, é claro, indenizar os escravocratas, em vez dos escravizados.

Versaram 20 milhões de libras esterlinas a 4 mil donos de escravos, ou 5% da renda nacional. Isso em um país que investia apenas 0,5% da renda em educação. Em valores atuais, o montante pagaria o Bolsa Família por mais de 20 anos.

O precedente de indenizar “proprietários” foi seguido por outros, mas a França inovou. No fim do século XVIII, o país que decapitava seu monarca prometendo liberdade, igualdade e fraternidade explorava aquele que é provavelmente o território mais desigual que já houve na História. No Haiti de 1780, 90% da população eram escravos, proporção recorde em qualquer outro país escravagista. No Brasil, à mesma época, a fatia era de já elevados 50%.

A FRANÇA COBROU – Quando as vítimas haitianas se insurgiram, em 1804, a França resistiu com violência. Só concordou com a independência em 1825, mas com uma condição: para que a transição fosse “justa”, o novo país deveria indenizar a França em 150 milhões de francos-ouro, ou mais de 300% da renda nacional do Haiti naquele ano. Sem alternativas, os haitianos pagaram as parcelas dessa “dívida” ao longo de inacreditáveis 125 anos.

Piketty demole, aliás, o mito igualitário da Revolução Francesa e qualquer nostalgia da Belle Epoque que seduza incautos. O fim do Ancien Régime, em vez de tornar a sociedade mais justa em termos de repartição de riquezas, sacralizou a propriedade privada e permitiu uma acumulação sem precedente nas mãos de poucos. Paris encapsulou essa dinâmica.

OS MISERÁVEIS – Enquanto a Bastilha caía, o 1% mais rico da capital detinha 55% da riqueza da cidade; às vésperas da Primeira Guerra, esse percentual era de 65%. Paris tornou-se tão desigual após a Revolução que, no século XIX, houve momentos em que 74% dos que morriam não tinham qualquer patrimônio.

O Código Tributário em vigor, aliás, sequer previa a cobrança de impostos de apartamentos, já que desconsiderava a hipótese de o contribuinte não ser dono de todo o prédio. O regime “proprietarista” era tão zeloso dos seus que, como se sabe, calculava impostos a partir do número de portas e janelas dos edifícios, de modo a não violar a privacidade do andar de cima. Não à toa, há tantas “janelas falsas” na arquitetura parisiense: os proprietários preferiam fechar o buraco a pagar mais.

SUÉCIA DESIGUAL – Outra curiosidade do livro é a desigualdade extrema que vigorava até o começo do século XX na Suécia. Um dos lugares mais igualitários do mundo há décadas, no reino nórdico daquele tempo o sufrágio era censitário, proporcionando maior poder de voto aos mais ricos. Os mais abastados chegavam a ter 54 vezes mais peso.

Piketty escreve menos do que gostaríamos sobre o Brasil, mas trata em detalhes de lugares como a Rússia. A ex-União Soviética, em sua traumática transição do comunismo rumo ao hipercapitalismo, transformou-se em paraíso para bilionários de fortuna duvidosa, ele conta. Lá, isentam-se os ricaços de qualquer imposto sobre herança e tributa-se a renda da forma mais regressiva possível. A alíquota é de 13% para todos, dos miseráveis aos amigos de Putin. O regime tolera que algo entre 70% e 110% da renda nacional estejam em paraísos fiscais.

Tamanha opacidade se aproxima daquela de monarquias do Oriente Médio, paroxismo da desigualdade contemporânea. No Qatar e nos Emirados Árabes do século XXI, os 10% mais ricos capturam até 90% da renda, como ocorria nas sociedades escravagistas mais injustas que já houve.

No Brasil, “Capital e ideologia” chega às livrarias em abril pela Intrínseca.

19 thoughts on “Para reduzir a desigualdade social, este mundo ainda tem muito que aprender…

  1. Thomas Piketty e seus dados improváveis

    O principal livro de Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, está repleto de teoria econômica. Há apenas duas páginas contendo dados, e Keynes ainda desqualifica esses dados dizendo que são “improváveis”.
    Em contraste, o novo livro do francês Thomas Piketty, O Capital do Século XXI, que é a sensação mundial do momento, é recheado de dados. Ironicamente, Piketty se considera um sucessor daquele mesmo economista cujos dados Keynes descartou como improváveis: Simon Kuznets. Quase todas as pessoas que realmente leram o livro admitem que o argumento teórico de Piketty é fraco. No entanto, seus defensores prontamente contra-argumentam: “Mas veja todos esses dados! Não dá para argumentar contra todo esse volume de evidências históricas!”
    Continua:
    https://www.mises.org.br/article/1855/thomas-piketty-e-seus-dados-improvaveis

  2. Instituto Mises? É a bíblia para alguns. Quanta bobagem produz esse site. As contradições existentes entre o que o site diz e o que acontece na realidade são a tônica reinante.
    Por exemplo, quando confrontado com o sucesso dos países nórdicos, a Alemanha, o Japão, mesmo esses países praticando um capitalismo mais voltado ao socialismo, a opinião do site é que isso é devido ao livre mercado praticado por esses países, esquecendo-se que o Estado é muito forte nesses países citados.

    O site confunde e seus seguidores idem, livre mercado com ausência de burocracia na economia. Na opinião do site, para um para crescer, o Estado seria mínimo, com todo mundo se virando do jeito que der. As importações deveriam ser taxadas minimamente ou nem isto, os trabalhadores só deveriam ter o direito de trabalhar, sem nenhuma garantia. O SM não deveria existir. A Previdência seria a cargo das pessoas tão somente. A saúde deveria ser privada e assim por diante.

    E tem gente que cai nessa esparrela. As análises do site são simplórias, de uma profundidade muita rasa. Por exemplo, um dia um integrante do MBL foi perguntado sobre como seria possível a construção de uma ponte em SC, se a interferência do Estado. Esse alguém respondeu que isso seria realizado pela iniciativa privada, sem qualquer ingerência do governo (depois disto, o repórter encerrou a entrevista.

    O site ignora como os países hoje desenvolvidos chegaram a esse estágio. Enfim, um site que não presta para nada, a não ser para mero divertimento.

    Outra coisa, alguns endeusam os EUA, que cresceu e se desenvolveu com métodos semelhantes ao que a China usou. Hoje, com sua economia de serviços (depois da emigração de suas indústrias para outros países, principalmente à China), amarga um deficit comercial monstruoso e só se mantém assim, porque o dólar é a moeda do mundo e outros países financiam tal deficit.
    O mesmo acontece com a Inglaterra.

    Mas o povo não admite perdas e mais perdas todo o tempo. Assim, o Brexit, a eleição de Trump, as revoltas no Chile e em outros países. A eleição de Bolsonaro e de outros populistas se justificam. A desigualdade de renda conduz muitas vezes a essas tentativas de mudanças que na grande maioria não dão resultado.

    • O pessoal do Instituto Mises é sério e muitas vezes critica o capitalismo. Claro, quando o capitalismo é distorcido e o é muitas vezes nos EUA.
      Nesses estudos aí em cima , prova-se com dados concretos os equívocos de Picketty.
      Enfim, a cada tempo aparece um profeta da nossa salvação com aquilo que imagina. Mas existe muito mais entre o céu e a terra do que imaginamos. Com isso o contraditório é inevitável, ficando com a razão aqueles mais conectados com a realidade dos fatos.

      Um dos problemas das religiões é o preconceito de seus crentes contra aqueles que não compartilham de seus credos.
      Mas, contra fatos não tem argumentos. Assim, devemos nos curvar a eles, mesmo que favoreçam o outro lado. Isso não nos derrota, pelo contrário, nos faz crescer.

      • Devias diversificar tuas leituras, Mario Jr., sério. Há outros sites com mais embasamento, por exemplo a Epoch Times BR.
        Por exemplo, já recomendei que estudes mais a historia dos EUA e como eles se desenvolveram. Depois alteraram sua economia para pós industrial, baseada em serviços e conhecimento. Mas não previram os efeitos colaterais e, hoje, Trump tenta reverter esses efeitos com tarifas de importações, para diminuir o imenso déficit. Aproveita e vê a situação de Porto Rico, território dos EUA e atualmente um paraíso fiscal dos americanos.
        Mas não procura no site do MIses que isso eles não publicam. Aliás, essas críticas ao estudo de Piketty são hilárias, desprovidas de qualquer análise séria. Ele nunca disse, por exemplo, que recomendaria a taxação de super ricos em 90% de sua renda. Então, acho que o pessoal do MIses não leu o livro “O Capital no século XXI”. Falando em fatos, quando o site fala em imposto sobre lucro das empresas, em comparação com outros países, esconde que no Brasil não há taxação sobre lucros e dividendos. Também esconde o fato que os tributos sobre heranças são maiores nos outros países, se comparados ao Brasil.

        Enfim, Mario Jr., procures te aprofundar nos assuntos para que tuas críticas e comentários tenham mais consistência e credibilidade.

  3. Uma observação que acho útil, é não confundir humanismo com a ideologia socialista, que de humanismo não mostrou nada, ao contrário. A História está ai para não nos deixar mentir.

    A maioria das sociedades é humanista, ou seja, quando elas são ricas,como a Alemanha e os países nórdicos, procuram repartir o excedente de suas riquezas, conseguidas com o bom e velho capitalismo, para os mais desfavorecidos.

    • Só para ficar bem gravado: o Instituto Mises sempre critica a política econômica americana, mostrando seus equívocos.
      O interesse do IM não é fazer política partidária e sim mostrar erros e acertos da política econômica de qualquer país.

    • Ele agora é que que descobriu que todos nós humanos somos egoístas?
      E eu não sabia disso.

      Puxa, Picketty é um gênio!!!

      Groucho Marx: “vão acreditar em mim ou no que seus olhos vêem?”

      • Quem não sabe que a direita não é corrupta, mas não como a esquerda. A primeira rouba dinheiro apenas, a esquerda rouba o país inteiro.

        Acorda rapaz. Deixe de acreditar em bobagens sentimentalizadoras, porque isto nos tira do sério. Acaba com os nossos nervos. Desvia nossos pensamentos do real.

  4. No berço do capitalismo estão fora do atendimento de saúde 40 milhões temos mais 45milhoes sem moradia muitas pessoas morando dentro de carros ,os trabalhadores estão tendo que trabalhar mais para manter o mínimo,esse e o berço do neoliberalismo.

    • Que se sabe o desemprego nos EUA está em 3,5%, o menor em 50 anos. Isto na prática, para quem não sabe, que hoje , vc sai de um emprego por não gostar e arranja outros no dia seguinte.

      Nos EUA tem milhares de moradores de rua. Muito com problemas mentais , outros chapados de drogas, outros que gostam de morar nas ruas, etc. Lá a democracia garante a liberdade do indivíduo de viver como quiser , mas as cidades têm cinturões de segurança que oferece abrigos, muita comida e muita roupa para quem quiser.

      Essas coisas da guerra contra o ocidente, criadas pela KGB, dos tempos da URSS, para provocar vitimismo, ressentimento e ódio não colam mais. Até esses mendigos que citei não gostam de socialismo. Eles gostam , como falei ai em cima , é de liberdade.

      • Ps. Falar em dormir em carros, milhares de americanos moram em trailers. Verdadeiras cidades desses veículos. Em lugares quentes, ficam o dia inteiro tomando cerveja e sem camisa numa boa.

        • Tenho um amigo que mora lá nesse inferno na terra, morava aqui em um barraco no fundo do lote da família, hoje trabalha como caminhoneiro lá, tem uma casa de 300m² lote de 1000m² e o churrasco come solto nos fins de semana, até eu quero esse lugar

          • Essa gente socialista vive de teorias. Não conhece a vida real e nem quer. Para ela o ocidente é o mal e ponto final.

            Fatos como o desejo de todo trabalhador do mundo desejar emigrar para os EUA, para ela é ficção.

            Para a esquerda negar o objeto, mesmo diante dele, é obrigatório.

  5. Credo, mas nem o dr, Pangloss, personagem de Voltaire em um dos seus contos filosóficos em tom de sátira, tinha tanto otimismo quanto Mario Jr com relação ao capitalismo!

    Na concepção do comentarista, sequer Lewis Carrol, autor de Alice no País das Maravilhas, teria imaginado um mundo tão perfeito, ideal e belo.

    Aliás, até mesmo Cristo deve ser contestado por Mário Jr, porque se dedicou a trazer a esperança para pobres e oprimidos, deixando de lado “o vil metal”, que pertencia ao Império Romano, a César.

    Certamente o Deus do comentarista em tela é bem representado em Mateus 6:24:
    Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mâmon.

    • Ingênuos como vc FB, são presas fáceis dos espertalhões, de demagogos que usam a boa fé das pessoas para enganá-las com suas promessas de paraíso aqui na terra.

  6. O capitalismo não é selvagem.

    Selvagem é o Marxismo, que despreza a personalidade e a propriedade.

    Morte ao Marxismo.

    Pela execração do comunismo.

  7. É!
    Todos os países que adotaram o marxismo estão podres de ricos, lá não tem miséria.
    Tô com vontade de ir pra Coreia do Norte me esbaldar naquele paraíso terreno.
    O Paraíso Perdido, de Milton, era uma favela miserável perto do Paraíso de Kin Jon.
    O capitalismo falhou, não demora vamos comer gafanhoto, rato, cachorro, morcego…

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