Para reduzir salrios, basta reajust-los abaixo da inflao

Pedro do Coutto

O ex-ministro Antonio Delfim Neto publicou excelente artigo na edio de quarta-feira da Folha de So Paulo sobre a atuao dos que chamou de rentistas que, atravs dos tempos, associam-se e, via governo, extraem rendas imerecidas que geram ineficincia produtiva e tm seus custos diludos por toda a sociedade. Delfim est nitidamente se referindo ao panorama atual do Brasil, j que usa o plural atravs dos tempos, como fatalidade histrica, mas recorre ao singular quando focaliza a ao dos rentistas, hoje, ao lado do poder.

 

O ex-titular da Fazenda dos perodos Costa e Silva e Mdici, sem dvida um intelectual com sensibilidade analtica,l possui experincia prpria, j que, no comando da economia, colocou em prtica uma poltica que proporcionou os eternos ganhos imerecidos. Os salrios, invariavelmente, eram reajustados abaixo da inflao. E, portanto, fortemente reduzidos no plano concreto. Os trabalhadores particulares, os empregados das empresas estatais, os funcionrios pblicos, foram as maiores vtimas desse processo que alis continuou no tempo. Atravessou as eras Ernesto Geisel, Joo Figueiredo, Fernando Henrique Cardoso. No vale a pena citar o governo Jos4 Sarney, uma vez que neste os ndices inflacionrios, com Mailson da Nbrega na Fazenda, atingiram escalas estratosfricas.

 

Tiveram sequncia nomeio governo Fernando Collor, o ciclo foi quebrado pelo mandato complementar de Itamar Franco. Mas os caadores de renda, os rentistas no dicionrio delfiniano, praticam (est no artigo da FSP) de forma quase invisvel um processo de extrao de recursos que deveriam ir para o desenvolvimento do pas, mas vo para seus bolsos. No se trata, como alguns ingnuos acreditam, de grande batalha ideolgica, mas do comezinho interesse material de se apropriarem de recursos que a sociedade desavisada lhes transferiu sem perceber. Uma das formas dessa transferncia, digo eu, foram os expurgos inflacionrios durante o perodo Mdici refeitos nas costas do IBGE. Em 1973, por exemplo, quando o preo do petrleo, em consequncia da guerra do Yon Kipur entre Egito e Israel, subiu de 2 dlares para 20 o barril (hoje est em 100 dlares), para efeito de custo de vida o reflexo causado foi debitado conta que Delfim chamou de acidentalidade.

 

A transferncia de renda e, conseque4ntemente do poder aquisitivo, atravs da diversa incidncia dos ndices inflacionrios, atingiu em cheio a sociedade brasileira. Funes importantes, como as dos professores, sofreram desvalorizao, entre outras dos servidores pblicos federais, estaduais e municipais. Basta comparar os nveis de vida entre o ontem e o hoje para se constatar o rebaixamento. E no s isso. A forte ao dos caadores de renda penetraram profundamente no universo poltico partidrio e, como resultado mais visvel a olho nu, fizeram disparar o processo de favelizao nas capitais.

 

Em 1960, por exemplo, o Rio tinha 3 milhes de habitantes e 300 mil moradores em favelas e cortios: 10%. Atualmente a populao da cidade de 6,7 milhes de habitantes, dos quais um tero (33%) habitam em favelas e cortios. H mais de 900 favelas no Rio nas quais residem em torno de 2 milhes de pessoas.

 

Tal fenmeno comeou com o esvaziamento salarial. Os ganhos do trabalho perderam a corrida contra os preos e o IBGE. S passaram a empatar ou vencer de pouco a partir do governo Lula. A est a razo principal das pesquisas do Datafolha e do IBOPE apontarem a posio de Dilma Rousseff liderando as intenes de voto para as urnas de 2014.

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6 thoughts on “Para reduzir salrios, basta reajust-los abaixo da inflao

  1. Pelo visto ns,os que vivemos de salrios,estamos e estaremos definitivamente subjugados pelos “rentistas” (leia-se empregadores pois que o candidato que falar em melhores salrios para os brasileiros (uma grande mentira vez que tambm so rentistas os candidatos)ser sumariamente descartado. Derrotado, bvio.

  2. Pedro,
    Muito bem colocado o teu artigo, dando ao Delfim Neto a qualificao que merece.
    Preparado, qualificado, lcido, experiente, inteligente, porm mal intencionado.
    Foi o artfice de um processo de favelizao que ai est de modo inconteste.
    Atualmente os partidos polticos no existem mais e os polticos nem querem saber deste tipo de discusso.
    Vivemos, como sempre ocorreu nesse Pas, melhorias espasmdicas. Estamos numa fase dessas agora!
    J j vo cair na realidade e comear pagar as contas do endividamento impagvel!
    A SELIC, como gostam de se referir os empulhadores, j se aproxima da casa dos dois dgitos. Mas, s se discute neste Brasilzo automvel, futebol e, no momento, os black-blocs da moda.
    Realmente, e a Presidenta tem razo, houve uma melhora de vida na classe mais baixa. Mas temporria at ao novo processo de compresso salarial delfiniano! Vamos ver levas de economistas a defender este processo!
    Agora, falar em processo de desenvolvimento nacional, assunto que passa distante da ineficiente ministra da pasta. No congresso nacional ento, acho que assunto que, como antigamente se dizia, ” no ser de bom tom”!
    SDS
    Vitor.

  3. exatamente isto que esto fazendo com os aposentados que pagaram, contriburam para ganhar mais de UM SALRIO MNIMO.

    Abaixo segue o resultado parcial do esquema do PMDB, PSDB, PT, DEM, etc. Todos os partidos polticos do pas.

    No satisfeitos esto destruindo o FGTS e o FAT.

    “Perdas salariais dos aposentados alcanaro 81%

    Por Maurcio Oliveira Assessor econmico da COBAP
    Depois de anunciar na Lei de Diretrizes Oramentria (LDO) de que no haver aumento real para as aposentadorias e penses acima do salrio mnimo em 2013, o Governo Federal piora a situao salarial de mais de 9 (nove) milhes de pessoas e suas famlias. Alm disso, a medida tambm aumentar o endividamento de todos.

    Em termos percentuais, no perodo de janeiro de 1994 a janeiro de 2013 (previso), as perdas salariais dos aposentados e pensionistas somaro 81%. Separando os governos, as perdas salariais:
    1- no governo FHC foram de 26,6%;
    2- no governo Lula foi de 42,61%;
    3- e no governo Dilma j alcana, em apenas dois anos 11,34% (previso).

    A COBAP conclama todas as federaes da base, as centrais sindicais e a populao brasileira em geral a se mobilizar para conseguir reverter essa situao de grande injustia”.

    Esta a acontecendo exatamente o que pensador e filosofo Mikhail Bakunin previu:

    “Quem duvida disso no conhece a natureza humana”.

    “Assim, sob qualquer ngulo que se esteja situado para considerar esta questo, chega-se ao mesmo resultado execrvel: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada.
    Esta minoria, porm, dizem os marxistas, compor-se- de operrios. Sim, com certeza, de antigos operrios, mas que, to logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessaro de ser operrios e pr-se-o a observar o mundo proletrio de cima do Estado; no mais representaro o povo, mas a si mesmos e suas pretenses de govern-lo. Quem duvida disso no conhece a natureza humana”.
    (Mikhail Bakunin)

    Bakunin lembrado como uma das maiores figuras da histria do anarquismo e um oponente do Marxismo em seu carter autoritrio, especialmente das ideias de Marx de Ditadura do Proletariado. Ele segue sendo uma referncia presente entre os anarquistas da contemporaneidade,

  4. Perfeito o artigo s no concordo com o desfecho afirmado pois penso que o rentismo ainda continua , pois foi e e na administrao atual que implantaram a tal nova lei de falncia que permitiu que milhares de trabalhadores nada recebessem quando do fechamento das empresas , mesmo tendo patrimnio que agora esto sendo cortados para o ferro velho nos aeroportos do mundo, deixaram apodrecer ao invs de vender e pagar a quem tanto labutou, foi na administrao atual que milhares de aposentados lutam para o fim do fator previdencirio ,em vo, e no administrao atual que aposentados lutam para receber o que tem de direito pois acreditaram na previdncia complementar e esto com o pires na mo.
    Portanto nada mudou nessa politica, acreditamos tanto , esperana que virou profunda decepo.

    Acredito que se os antecessores estivessem no poder estaramos bem pior , mas o administrao, atual esta muito longe de ser a nossa esperana ,poderiam fazer tudo mas preferiram continuar com a mesma politica.

  5. O experiente e arguto Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO, neste bom artigo, como sempre elegante e compreensivo, chama ateno que: Para Reduzir Salrios basta reajust-los abaixo da Inflao. E para isso, basta o IBGE mudar o critrio do Clculo, por exemplo expurgando o que passou a considerar “anormalidades”, Teoria do Core Inflation, e o IPC, ndice de preos ao Consumidor resultar menor. Cai a Massa Salarial em relao ao PIB (Produto Interno Bruto), e para manter/aumentar o Consumo, facilita-se o Crdito at o ponto de saturao. Ento o Deficit do Governo, gerador da Dvida Pblica, que nunca reduzida, mas GIRADA e sempre crescente, e o Endividamento dos Assalariados/Aposentados, etc, permite muito ganho aos RENTISTAS.
    O Ministro DELFIM NETTO, Economista Pr-Desenvolvimento, Keynesiano, em cuja poca, aplicado os Deflatores o Salrio Mnimo equivalia a atuais +- R$ 1.000 , que criou os Programas PIS-PASEP que do a todo Trabalhador de at 2 SM, um 14(Dcimo Quarto) Salrio, perodo em que foi criado o FGTS, o FAT, e que fez Leis incentivando a distribuio de Lucros para os Trabalhadores, etc, se refere aos Rentistas (Banqueiros, Financistas, grandes Capitalistas), que “alavancam” seu Capital, que fazem arbitrage, pegando Dinheiro baratssimo l fora e aplicando aqui, ganhando no diferencial de Juro e no Cmbio, etc. Quanto a ns, Poupadores, que temos nossas economias na Poupana/Fundos de Investimentos Bancrios, etc, somos quase to vtimas como o Tomador de Emprstimo.
    Mas o brilhante Articulista no pode esquecer que a Favelizao, fruto de reajustes Salariais abaixo da Inflao, tem uma componente ainda maior que foi o grande crescimento da Populao Brasileira entre 1950, +- 50 Milhes, em 1970 +- 90 Milhes e 2013 +- 205 Milhes, junto com uma urbanizao violenta, eis que em em 1970 +- 65% viviam em Cidades e em 2010 +- 85%. E isso que aconteceu nas Cidades, foi potencializado nas Capitais. E isso, a Urbanizao bom, pois os que estavam no campo na poca, estavam em bem pior situao econmica. Daqui para frente com Tx. de Crescimento Populacional de +- 1,5aa e os Campos esvaziados, poderemos combater a Favelizao via “Minha Casa minha Vida”, muito mais eficientemente. Daqui para a frente as coisas vo melhorar.
    No podemos esquecer que o Valor do Salrio funo da Oferta e Demanda de Mo de Obra no Mercado, e at recentemente a oferta era brutal. A partir de agora comea a mudar para melhor.

  6. A meu ver, a favelizao no Rio de Janeiro, teve dois fatores, primeiro: a falta da
    reforma agrria, que iria dar condies ao homem do campo de ter um padro de vida melhor,
    o que provocou o aumento considervel do xodo rural. Todos os brasileiros tm o direito
    de procurar um lugar melhor para sobreviver, s que o Rio de Janeiro, no estava preparado
    para receber esse grande nmero de imigrantes, a cidade inchou, os que chegavam, por falta de
    condies financeiras, procuravam local para fazer suas casas nos morros do Alemo, na Rocinha, no Rio das Pedras etc. O segundo fator e o mais importante, so os salrios que
    mal da para alimentao de uma famlia muito menos para pagar aluguel, gua, luz, gaz de
    cozinha, IPTU etc, empurrando o trabalhadores para as favelas.
    Um pas s fica rico, se o trabalhador tiver um salrio que lhe d condies de consumo pleno

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