Paranóicos são eles

Carlos Chagas

Das mais de 200 mil mensagens de embaixadores e altos funcionários dos Estados Unidos transmitidas  ao Departamento de Estado, agora reveladas pela ONG Wikileaks, perto de 2 mil foram oriundas de representantes americanos no Brasil. Muitas óbvias, mais ainda  de tolas, algumas  de valor e outras de  considerável teor maléfico.

Tome-se uma das mais perigosas, na medida em que, em Washington,  tenham sido consideradas essenciais para o relacionamento entre os dois países. Referiu-se o então  embaixador Clifford Sobel, dos tempos do governo George W. Bush, à “tradicional paranóia brasileira” diante das ameaças de conquista e  internacionalização da Amazônia.

Não se trata apenas de uma distorção da realidade, já que paranóia não há, entre nós, senão cuidados mais do que necessários para a preservação da região.  O que o embaixador quis alimentar foi a estratégia  de camuflar a ameaça sempre presente contra nossa soberania. Difundir  a impressão de que, no Brasil, apenas “uns paranóicos” preocupam-se com a defesa da floresta, patamar capaz de estimular ainda mais a  evidente cobiça internacional. Sobel mandou um recado, um estímulo a que o governo americano não esmoreça na tentativa de apoderar-se da Amazônia. Para ele coisa fácil, apenas enfrentada por uns  poucos.  Falso diplomata que era, empresário de goela aberta que continua sendo, certamente  empenhava-se  em obter vantagens pessoais.

Ficamos sabendo, por aquele aparentemente singelo comentário, que o perigo permanece. Desnecessário se torna repetir as sucessivas declarações de líderes americanos a respeito da internacionalização. George W. Bush, quando em campanha para a Casa Branca, revelou-se por inteiro ao sugerir que os países com amplas dívidas externas viessem a trocá-las por territórios,  “em especial florestas tropicais”.  Bill Clinton falou da soberania relativa que Brasil, Peru, Bolívia e outras nações teriam sobre a Amazônia, enquanto Al Gore foi mais adiante, sustentando  que  a região   pertencia à Humanidade, só ela em condições de evitar o desmatamento e a poluição mundial.

Se é verdade que Barack Obama até agora não abriu a boca para enfrentar a questão, também é certo que o olho de Washington continua voltado aqui para baixo. A lei de aquisição de terras na floresta continua aberta a estrangeiros, as ONGs do Hemisfério Norte dominam vastas reservas indígenas e a Quarta Frota da Marinha de Guerra dos EUA permanece navegando no Atlântico Sul.

A HERANÇA DO LULA

Fosse feita uma pesquisa junto ao brasileiro médio a respeito do que mais caracterizou os oito anos do governo Lula e o resultado não iria diferir muito de quatro ítens principais:   o bolsa-família, a criação de  novos  empregos, a estabilidade na economia e agora, por último, o ingresso das forças armadas na defesa da segurança pública.

São quatro pilares que só o futuro mostrará se sólidos ou capazes de ser corroídos,  mas, de qualquer forma, evidências que  marcam os dois mandatos do primeiro-companheiro.

CORAGEM, DIGNIDADE E PRESSÃO

Ernest Hemingway escreveu certa vez que “a coragem é  a dignidade sob pressão”. Dignidade a presidente Dilma Rousseff  possui em altas doses,  bastando atentar para sua biografia. Pressão, ela está sofrendo aos montes,  de partidos e grupos empenhados em obter vantagens e benesses  de toda ordem.  Está na hora da coragem para espantar os  urubus que tentam voar em torno de seu governo.

PAX ARMADA

Previsto para acontecer esta semana, o encontro entre o governador Geraldo Alckmin e o senador Aécio Neves poderá selar uma espécie de armistício no  ninho tucano.  Mesmo sem  querer, os dois ocupam o comando  dos bicos e plumagens em choque. O paulista,  assentado nas estruturas que, mesmo derrotadas, ainda exprimem a força maior do PSDB. O mineiro,  como representante dos demais contingentes tucanos ávidos de renovação  e empenhados em livrar-se da tutela do grupo fundador da legenda. Como nem Alckmin nem Aécio desejam a guerra, ainda que comandando  as respectivas legiões, é possível que venham a estabelecer uma pax armada.

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