Parecenças

Carlos Chagas

A quem José Serra pretendeu atingir ao declarar  que o Lula e Fernando Henrique “são mais parecidos do que parece”? Não que a comparação surja absurda ou despropositada. Pelo contrário, o ex-governador de São Paulo  tem toda razão. As diferenças entre eles  são apenas  periféricas, como a de que um é sociólogo, outro torneiro-mecânico. Este oriundo do movimento sindical, aquele com carreira universitária. O primeiro falando inglês, francês e espanhol, o segundo mal arranhando o português.

Tudo isso desfaz-se como fumaça quando se atenta que ambos, na presidência da República, privilegiaram as elites e multiplicaram o assistencialismo para as massas. Aceitaram a cartilha neoliberal e convocaram equipes econômicas subordinadas ao “Consenso de Washington”.  Aumentaram a carga tributária do cidadão comum  e não  interromperam a farra da especulação financeira. Prometeram mas não realizaram a reforma política. Trataram comercialmente o Congresso e humilharam os respectivos partidos, minimizando suas lideranças.   Reelegeram-se às custas da máquina pública.

Que José Serra tenha tentado atingir o Lula, comparando o atual governo ao de Fernando Henrique, ainda se explica, mas o raciocínio inverso espanta e choca. Pelo jeito,  o candidato procurou muito mais livrar-se da sombra do emplumado companheiro  tucano, prevenindo-se contra a hipótese de vencer as eleições e ter Fernando Henrique  nos calcanhares, do que propriamente enfraquecer o atual presidente.

O fracasso dos palanques

Muitas  razões podem ser apresentadas para justificar o fracasso  dos dois primeiros comícios da campanha de Dilma Rousseff. No caso da inauguração de seu comitê central, em Brasília, terça-feira, o local péssimamente escolhido, uma engarrafada rua do centro da capital,  e a súbita ausência do presidente Lula.  No Rio, a chuva que não deu tréguas, da Candelária  à Cinelândia, mais o fato de que a organização  a cargo  do governador Sérgio Cabral não propriamente empolgou os cariocas.

No fundo de tudo, porém,  estão os novos tempos da mídia  eletrônica, claro que reunida ao desgaste cada vez maior da classe política.  Nas décadas de cinqüenta e sessenta, quando não havia televisão, ou quando ela engatinhava, o eleitor precisava comparecer à  praça pública, se queria ver e ouvir seus candidatos. É verdade que nos anos oitenta,  milhões se reuniam nas principais capitais, mas era para protestar e demonstrar indignação diante da ditadura militar já nos estertores.

Mesmo assim, há que registrar: continuando as coisas como vão, encerra-se a milenar temporada dos comícios. A comodidade e  o desencanto do eleitor servem de coveiros daquelas monumentais manifestações populares. Acrescente-se, porém, a titulo de compensação: em 1945 os comícios do brigadeiro Eduardo Gomes empolgavam o país. Grandes oradores, dezenas de milhares de lenços brancos abanando ao final de cada noite, ao tempo em que os comícios  do  general Eurico Dutra eram os mais lamentáveis. Pouquíssima gente e uma oratória abominável por parte do candidato. Abertas as urnas, um banho.  De quem? De Dutra…

Excessos

Mais uma vez, excessos de parte a parte. Não tinha o presidente Lula o direito de ridicularizar a vice-procuradora eleitoral que o advertiu sobre propaganda eleitoral ilegítima e abuso de poder político,  à sombra das facilidades de governo. Ao referir-se  a ela como a “uma procuradora qualquer”, o primeiro-companheiro perdeu excelente oportunidade de ficar calado. Ofendeu uma categoria inteira.

No reverso da  medalha, porém, a procuradora Sandra Cureau exagerou ao ameaçar governantes em geral, do presidente Lula  ao  governador Alberto  Goldman, de São Paulo, porque manifestam suas opções eleitorais.  Ora, são cidadãos na posse de seus direitos políticos, dispõem da prerrogativa constitucional da liberdade de expressão. Situá-los entre a castração  e a cassação, só porque  o  Lula declarou que vai votar em Dilma, e Goldman elogiou o governo do antecessor, será que também não representa  abuso de poder?

Dois pesos e duas medidas

Cai a grande imprensa de pau em cima do presidente Hugo Chavez por ter ele decidido exumar os restos mortais de Simon Bolívar, transferindo-os para um panteão, ao tempo em que mandará examinar se o patriarca pode  ter sido  envenenado.

A gente lembra que os jornalões abriram  manchetes sucessivas,  espaços grandiosos e elogios sem fim  nas primeiras páginas quando o então general-presidente Garrastazu Médici mandou buscar os ossos de D. Pedro I  em Portugal, com toda pompa e até  decretação de feriado nacional.  Algo também meio macabro, mas a favor, pode. Contra é que não…

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