Parem de relativizar o escândalo da Petrobras

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/files/2014/04/a-charge-01.jpgGuy Franco
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Estou decepcionado com amigos e conhecidos que tentam justificar a roubalheira na Petrobras. Dizem que essa é a tal cultura brasileira, que a culpa é do sistema, ou que o roubo vem da época da Ditadura Militar; sempre tentando tirar a responsabilidade do governo atual, no poder há 12 anos. Digam o que quiserem, mas digam bem longe de mim. O crescente roubo, que dirão sistêmico, não pode ser relativizado.

O pior é que afirmações como “nunca se roubou tão pouco” ou “mas todo mundo rouba” estão pegando. O melhor, vi na Globonews, é dizer, ao vivo e em plena luz do dia, que a culpa é do sistema. É o truque safado usado para amenizar o roubo – banaliza-se o crime até que os indignados se tornem o motivo de piada.

A indignação, o desejo de punição, de justiça, é o que se espera diante de um escândalo em que foi desviado um valor maior do que o PIB de 100 países. E daí que a roubalheira não é nova? Em que isso muda a roubalheira e a má gestão atual?

Outro truque sujo que mobilizou o público incauto: “Mas nesse governo pelo menos se investiga”. Não, não investiga. Negaram até o fim o envolvimento no escândalo. Foram os bandidos, usando o recurso da delação premiada, que trouxeram os nomes de agentes do PT e seus capangas.

“APENAS MAIS UM”

Ao chamar o escândalo de “apenas mais um” abre-se o caminho para novos crimes. Relativizar um roubo como esse, ou qualquer outro tipo de roubo, é muito perigoso. E aquele que relativiza um roubo deliberadamente deixa evidente a falha de caráter que tem. Reflexo, talvez, da inversão moral desses tempos que, em nome do partido, vale tudo, até vender a irmã no eBay.

Exagero? Não acho. Olha este argumento: “Cada um de nós tem um dedão na lama. Afinal, quem de nós não aceitou um pagamento sem recibo para médico, deu uma cervejinha para um guarda ou passou escritura de casa por um valor menor?”

Pela filosofia de Ricardo Semler, nascer brasileiro é condição suficiente para ser pilantra neste país. Não senhor. Fale por você e pelos seus. Eu não faço o jogo sujo.

Qualquer explicação que responsabiliza todos, não responsabiliza mais ninguém; é, portanto, uma explicação falsa ou pilantra. Principalmente se a explicação não considera a existência de um indivíduo. Para corromper um sistema, primeiro se corrompe o indivíduo. Se não consegue responsabilizar ninguém, ou se responsabiliza algo vago como o sistema, é porque não sabe do que está falando.

PROGRAMADOS POR DNA

Para essa gente o indivíduo não passa de um ser imaginário; afinal, somos todos programados pelo DNA, ou por algoritmos, ou pelo meio social, ou pelas novelas, mas nunca por nós mesmos. A eles não interessa saber o que é um indivíduo, ou seja, o que estaria para além dos jargões de Zorra Total que saem da boca dos brasileiros.

No país onde mais se mata no mundo, com os maiores escândalos de corrupção e com um bandido à espreita em cada esquina, onde todos já tiveram um celular roubado, é difícil não desanimar. De governos e de partidos políticos eu nunca esperei nada, mas quando até pessoas próximas começam a relativizar os crimes, a sensação parece algo pior do que a costumeira.

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