Partido único no Brasil é impossível

Pedro do Coutto

Repercutiu intensamente, mais em razão do estilo primoroso ao autor do que de seu conteúdo, o artigo de Élio Gáspari (O Globo e Folha de São Paulo de quarta-feira) colocando a hipótese de prevalecer no país um sistema político quase de partido único, a partir da vitória de Dilma Rousseff nas urnas de outubro. Lula, sem dúvida com mais este êxito, nesta altura dos acontecimentos, deixará consagrado o Palácio do Planalto em janeiro. Mas daí a tese de um quadro partidário como o que vigorou no México durante décadas e só interrompido com a eleição de Vicente Fox, na passagem do século, vai uma distância muito grande.

Luis Inácio venceu em 2002, foi reeleito em 2006, e agora vence com Rousseff neste ano de 2010. A oposição atual de PSDB, DEM e PPS desaparece na névoa do tempo. Das urnas surgirá outra.

Sobreviverá Aécio Neves, provável candidato dos que se opõem ao PT, a enfrentar Dilma ou o próprio Lula daqui a quatro anos. Além disso, vão se evidenciar divergências entre o Partido dos Trabalhadores e o PMDB. Não se pode prever quais, mas surgirão. Surgem sempre na história política universal. Não existe sistema de poder – nunca existiu – capaz de contentar integralmente todos os seus integrantes durante muito tempo. As dissidências aparecem. São inevitáveis e eternas. Veja-se o exemplo da Segunda Guerra Mundial. Inglaterra e Estados Unidos, duas potências supercapitalistas, uniram-se com a União Soviética de Stálin para enfrentar o inimigo comum, o nazismo de Hitler. Com a rendição alemã assinada na madrugada de 8 de maio na cidade francesa de Reims, confirmada à tarde em Paris. Já no dia seguinte começaram os desacertos. A  aliança foi para o espaço. Winston Churchill atritou-se fortemente com o ditador comunista, a URSS fechou o caminho terrestre para Berlim. A Alemaha passou a ter duas capitais. A outra, a ocidental, na cidade de Bonn. Mas esta é outra questão.

Serve de exemplo, entretanto. Não é isolado. Aqui, entre nós, em 1945, o apoio de Vargas levou o general Eurico Dutra à vitória nas eleições de 2 de dezembro. Mas o mandato começou em janeiro de 46, Dutra rompeu com o trabalhismo e formou seu governo na base da coligação PSD-UDN. A União Democrática Nacional havia apoiado o brigadeiro Eduardo Gomes contra o presidente eleito. Em 1960, Lacerda foi fundamental para a vitória de Jânio Quadros na convenção udenista, Palácio Tiradentes, no Rio, quando derrotou Juraci Magalhães. Logo no início do mandato, Jânio rompeu com Lacerda. Em São Paulo, pleito de 50, Ademar de Barros elegeu o professor Lucas Nogueira Garcez, sem militância partidária, governador do Estado. Produziu com isso um de seus dois maiores inimigos políticos. Na sucessão de 54, Garcez empenhou-se a fundo pela vitória de Jânio Quadros sobre o mesmo Ademar.

Para não estender demais os episódios que acentuam as contradições do poder, lembro que, em dezembro de 68, o ex-governador Carlos Lacerda foi preso e cassado pelo movimento político militar que liderou e que quatro anos antes, derrubou o presidente João Goulart. Leonel Brizola, em 61 foi o principal líder do movimento democrático que garantiu a posse de Jango. Em 63, tornou-se  o principal fator de sua queda no ano seguinte. O futuro a Deus pertence, acentua a cultura popular.

Partido único só com o terror do estado e no Brasil, felizmente, não há campo para tal viagem antidemocrática. Nem campo, nem clima. A tese do partido único é somente um lance intelectual. Não tem reflexo na realidade. O tempo vai dizer.

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