“Passa dia, passa tempo, passa o mundo devagar”, na visão poética do violeiro Elomar

Imagem relacionada

Elomar é um mito da música nordestina

Paulo Peres
Poemas & Canções

O arquiteto, cantor, compositor e violeiro baiano Elomar Figueira Mello, na letra “Retirada”, retrata o sonho de tantos que partem do interior do país à procura de oportunidades melhores de vida. A música foi gravada, em 1972, no LP “Das barrancas do Rio Gavião”, produção independente, gravada no estúdio J.S. Gravações Bahia. O disco vinha com apresentação de Vinícius de Moraes, na qual o poeta declarava fazer Elomar “uma sábia mistura do romanceiro medieval e do cancioneiro do Nordeste”, definindo-o como “um príncipe da caatinga”, tendo em vista que seu trabalho é fiel às suas raízes, guardando os jeitos, falares e sonoridades do povo do semi-árido e também as influências medievais europeias tão presentes no interior do Nordeste.

RETIRADA
Elomar

Vai pela estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Levando só necessidade
Saudades do seu lugar

Esse povo muito longe
Sem trabalho, vem prá cá
Vai na estrada enluarada
Tanta gente a retirar

Um ano para a cidade
Sem vontade de chegar
Passa dia, passa tempo
Passa o mundo devagar
Lembrança passa com o vento
Pedindo não retirar

Tudo passa nesse mundo
Só não passa o sofrimento
Na estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Sem saber que mais adiante
Um retirante vai ficar
Se eu tivesse algum querer

Nesse mundo de ilusão
Não deixava que a saudade associada com penar
Vivesse pelas estradas do sofrer a mendigar
Vai pela estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Levando nos ombros a cruz
Que Jesus deixou ficar

Eu não canto por saber
Nem tanto por reclamar
Tenho minha vida de labuta
Canto o prazer, canto a dor

Que às vezes até labuto
O que Deus do céu não mandou
Vai pela estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Passando com traça e vento
Bebendo fel e luar 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *