Paulo Guedes e Campos Neto são dois desastres eleitorais para Bolsonaro em 2022

Paulo Guedes e presidente do BC, Roberto Campos Neto, são donos de offshore

Pedro do Coutto

O Fantástico da noite de domingo e uma excelente reportagem de Washington Luís, Larissa Garcia e José Marques, Folha de S. Paulo desta segunda-feira, destacaram a existência de aplicações financeiras feitas pelo ministro Paulo Guedes e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em offshores nas Ilhas Virgens Britânicas e no Panamá, pontos considerados paraísos fiscais pela não incidência de tributos sobre os investimentos.

O Globo publicou também matéria relativa ao assunto na edição de ontem. O reflexo negativo do episódio para o governo Bolsonaro é evidente, já que Paulo Guedes e Roberto Campos Neto defendem a realização de investimentos  no Brasil para ampliar a oferta de empregos. Em seus casos particulares, contribuíram para aumentar a oferta de empregos em outros países que não o nosso.

COMUNICAÇÃO À RECEITA – Tanto Paulo Guedes quanto Roberto Campos Neto afirmam que comunicaram as aplicações nas offshores à Receita Federal brasileira e por isso foram tributados aqui. Mas o fato despertou forte reação nos setores oposicionistas, tendo inclusive o deputado Alessandro Molon anunciado que vai requerer o comparecimento do ministro da Economia e do presidente do Bacen à Câmara Federal para que possam dar explicações a respeito do assunto.

Roberto Campos Neto disse que encerrou suas aplicações nas offshores. Relativamente a Paulo Guedes, elas aparentemente continuam porque de acordo com as matérias publicadas pelo revista Piauí e pelo jornal El País, vinculados à imprensa investigativa que integram o sistema internacional na “Pandora Papers”, as aplicações do ministro da Economia incluem a sua esposa e a sua filha como acionistas de uma empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas.

O episódio acarreta mais um impacto que deixa mal o presidente Jair Bolsonaro que se vê numa situação difícil entre manter ou exonerar Paulo Guedes e Roberto Campos Neto. Por sinal, Campos Neto foi nomeado presidente do Bacen  por indicação de Paulo Guedes. Ele ainda, pela lei de autonomia do Banco Central, possui um mandato de dois anos. O que surpreende também no acontecimento revelado pela revista Piauí e pelo jornal El País é o fato do Coaf não ter até a tarde de ontem se pronunciado a respeito, uma vez que é encarregado do controle de atividades financeiras, dentro e fora do país, quando tais investimentos são feitos por brasileiros ou por residentes do Brasil.

PONTO NEVRÁLGICO – O Coaf é um ponto nevrálgico do sistema financeiro nacional, inclusive porque Paulo Guedes e Roberto Campos Neto são dois investidores em moeda estrangeira, mas existem, segundo a Piauí e o El País, cerca de 300 empresários, executivos e políticos que também investem fora de nossas fronteiras para escapar da incidência da tributação.

Washington Luís, Clarissa Garcia e José Marques acentuam uma informação comentada por Mauro Menezes, ex-presidente da Comissão de Ética Pública, que chama atenção para o fato de Paulo Guedes defender o fim dos benefícios fiscais aplicados na Zona Franca de Manaus e defender benefícios fiscais em outro país para si próprio. A reportagem da Folha de S. Paulo foi publicada com destaque, ocupando dois terços de uma página do jornal. O fato, na minha opinião, ao que se refere aos reflexos políticos, é de que a sua ocorrência só pode ter sido negativa para a candidatura de Bolsonaro à reeleição, pois de positivo não acrescentou nada a favor do governo.

FILME DO ITAÚ – Também na noite de domingo, a TV Globo exibiu um filme publicitário do Banco Itaú motivando as comunidades de menor renda para a Taça de Futebol das favelas da Cidade. Não tenho dúvida de que a iniciativa vai alcançar pleno sucesso e contribuir para revelar o surgimento de novos valores nas disputas de uma favela ou de uma região contra outra. Mas não é esse o seu único aspecto.

Sob uma lente social, verifica-se que as filmagens percorrem áreas de grande carência social e sanitária, atravessando passagens em que uma habitação fica no máximo a um metro da outra em frente. Os trajetos não são limpos como a saúde humana exige. Águas poluídas escorrendo, poças e falta de saneamento. As câmeras sobem também as encostas de morros produzindo imagens cinematográficas de qualidade que devem ficar na mente dos governos estadual e federal e também da Prefeitura do Rio.

DÍVIDA SOCIAL – Os registros constituem uma expressiva síntese da dívida social brasileira para com a sua população a partir do número de habitantes das encostas e dos becos do Rio onde vivem duas milhões de pessoas, quase um terço da população da Cidade. A favelização é uma consequência da política de concentração de renda que somente pode ser solucionada quando os valores do trabalho, no caso os salários, deixarem de perder para a inflação do IBGE. Enquanto isso não ocorrer, o problema da redução da desigualdade jamais será resolvido.

A compressão salarial começou a partir de Jânio Quadros em 1961 e não foi interrompida até os dias de hoje. A moradia em favelas é uma consequência das perdas salariais acumuladas. Além disso, metade do país não conta com tratamento de esgotos e água de qualidade para o consumo. Incrível, o subdesenvolvimento continua.

CIRO PEDE TRÉGUA – Numa entrevista às repórteres Cássia Miranda, o Estado de S. Paulo, Carolina Linhares, Folha de S. Paulo, e Elisa Martins, O Globo, o ex-governador Ciro Gomes, pré-candidato à Presidência da República pelo PDT, propôs publicamente o que classificou como uma trégua ao Partido dos Trabalhadores, responsabilizando-o pela vaia que recebeu ao discursar sábado na Avenida Paulista e pelos ataques a pauladas contra o carro quando antecipava a sua saída do local.

Ciro Gomes disse que o objetivo maior é derrotar Jair Bolsonaro e lutar pelo seu impeachment. Para mim, Ciro Gomes reconheceu  talvez tarde demais o equívoco que cometeu ao dirigir ataques ao ex-presidente Lula da Silva, em vez de concentrá-los contra o atual presidente da  República. Ciro Gomes teria só esse caminho para tentar crescer nas pesquisas. Se mesmo assim a iniciativa já era difícil, ao estender os seus ataques a Lula, a sua meta se torna impossível.

10 thoughts on “Paulo Guedes e Campos Neto são dois desastres eleitorais para Bolsonaro em 2022

  1. Asinha de frango nunca mais…
    Enquanto isso o Ministro dos Banqueiros dá golpes e mais golpes enviando seus “dinheiros” para paraisos fiscais.
    Ah, e o Luladrão e sua Quadrilha continuam soltos…..

    Consumo de pé de galinha em alta e outros 5 dados que revelam retrato da fome no Brasil

    https://www.terra.com.br/noticias/brasil/consumo-de-pe-de-galinha-em-alta-e-outros-5-dados-que-revelam-retrato-da-fome-no-brasil,5acbde5cfe113b35ab90bbf7be2b6df2671wjajc.html

  2. Os jornais O Globo e Estadão, não publicaram nas primeiras páginas hoje, sobre o escândalo das contas numeradas de Guedes e Campos Neto, nas Ilhas Britânicas Virgens e no Panamá.
    A Folha comentou nas duas páginas internas. Batem muito no Bolsonaro e aliviam para o Paulo Guedes. É compreensível.
    Isso demonstra, que nossas elites não acreditam no Brasil, não são patriotas. Lucram, enriquecem no Brasil e investem nós paraísos fiscais. Depois ficam mendigando investimentos dos milionários da Europa, da China e dos EUA.
    Pedro do Couto está acertando de maneira excepcional nas suas análises. Dá gosto e uma alegria imensa ler seus textos, logo pela manhã.
    Incrível

    • Já pensou publicarem alguma coisa contra o Ministro dos Banqueiros e depois suas “contas em paraísos fiscais” aparecerem do nada..??
      Eis a questão, dar a notícia que pode ser “fatal” para nós…(Globells, estadinho, Foice & Cia);;;

    • O COAF vem perdendo a sua autonomia em favor de interesses políticos e empresariais. O resultado é a queda na arrecadação de impostos. A credibilidade dos órgãos de controle do Estado caiu bastante. A sociedade precisa ficar atenta a este caso

      Quanto a favelização, está diretamente ligada ao desemprego, a inflação e a redução salarial imposta a classe trabalhadora. Isso é um tiro no pé do capitalismo, pois, sem dinheiro ninguém compra, logo os produtos oriundos do capital, ficam estocados na prateleira. A cadeia produtiva sofre com a recessão. Essa relação de causa e efeito não falha.
      Sem vender o suficiente nos supermercados o patrão manda embora os empregados ficando com efetivo mínimo, para não amargar prejuízo.

      Quanto ao comentário sobre o candidato Ciro Gomes, felizmente caiu a ficha do cearense. O ataque a Lula e ao PT, tira do cearense a possibilidade da terceira via. E abre caminho para um outsider do Centro. Ciro deve buscar o eleitor do PT, o que não vinha fazendo ao focar no ataque a Lula. Devemos buscar o afeto e o carinho com o eleitor que queremos conquistar. Ciro tem muito que aprender.

  3. Muito bom mesmo e diria mais : cada dia melhor, o mestre, Sr. Pedro do Coutto…
    Sabedoria, lucidez. e uma pena impecável !
    Babem medíocres escritores de guardanapo, em “butecos de copos sujos”…
    Credo !

    • Eliel, nem tudo que é legal e ético. Só para lembrar: O Holocausto foi legal, o Apartheid foi legal, os Gulags foram legais, as Cruzadas foram legais, os regimes fundamentalistas muçulmanos são legais. Como dizia Montesquieu, mais importante do que a letra das leis é o seu espírito. Para isso existem juízes.

  4. Subindo a Rocinha nos idos de 1974, estanquei e minha amiga falou:”vamos pode vir” eu fiquei na dúvida pois teria que passar por dentro da moradia de uma família; o chefe da família vendo minha indecisão incentivou-me: “podes passar irmão” pedi licença e avancei para o aniversário da sobrinha da amiga.
    Nunca mais esqueci o episódio.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *