Pazuello e Elcio Franco decretaram a fase final do governo Jair Bolsonaro

Pazuello se reuniu com “intermediários” que ofereceram Coronavac

Pedro do Coutto

As reportagens da GloboNews e da TV Globo na noite de sexta-feira, e da Folha de S.Paulo, do O Globo e do Estado de S.Paulo deste sábado, revelam um episódio totalmente escandaloso ocorrido na gestão do ex-ministro Eduardo Pazuello, no gabinete do seu diretor imediato Elcio Franco, quando receberam pessoas que se apresentaram como intermediários da Sinovac, empresa chinesa produtora da vacina Coronavac, com a oferta 30 milhões de doses ao preço de US$ 28 a unidade, preço praticamente três vezes superior ao dos demais laboratórios produtores do imunizante.

Um empresário chamado apenas de John, de aparência asiática e falando com sotaque chinês, apresentou-se como parceiro da World Brands. Ao receber uma ligação de Constança Rezende e Mateus Vargas, autores de reportagem publicada ontem pela Folha de S.Paulo, desligou o telefone, cortando a ligação. Os repórteres perguntaram então ao Ministério da Saúde quem participou da reunião e através de quem foi agendada. Não obtiveram resposta, mas conseguiram a reprodução da reunião em vídeo, o que permitiu constatar que o encontro foi no gabinete de Elcio Franco.

CURTO PRONUNCIAMENTO – Pazuello só chegou nos 10 minutos finais, quando fez curto pronunciamento agradecendo a John e aos que acompanharam o personagem. O tema obteve também grande destaque no O Globo e no Estado de S.Paulo. No O Globo a reportagem é de Natália Portinari e Jussara Soares. No Estado de S. Paulo, de André Shalders e Lauriberto Pompeu. Todos os três jornais, os mais importantes do país, destacaram o triplo do preço proposto por aqueles que se apresentaram como representantes comerciais.

A Folha de S.Paulo sustenta que a reunião foi marcada pelo ex-diretor Elcio Franco, que recebeu o grupo em seu gabinete no Ministério. Um dos aspectos focalizados refere-se a uma afirmação anterior do presidente Jair Bolsonaro quando disse que não compraria a vacina chinesa mesmo quando a Anvisa desse aval para o uso. “Da China não compremos”, frisou.

Depois, o presidente da República aceitou a vacina chinesa. Entretanto, a reunião dos personagens liderados por John foi realizada, conferindo-se as datas, após a afirmativa de Bolsonaro em relação à China, acompanhado na ocasião pelo então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Portanto, o Ministério da Saúde estava negociando a vacina chinesa num espaço de tempo em que a sua aceitação colidia com a posição do Planalto.

SEM AUTORIZAÇÃO – Mas essa é outra questão. Natália Portinari e Jussara Soares no O Globo, além de ressaltarem o preço absurdo da unidade, recordam que a World Brands, sediada em Santa Catarina, e que atua no comércio exterior, na realidade não possuía autorização da produtora chinesa Sinovac para representá-la em qualquer transação. Agravando o panorama, o diretor-presidente do Butantan, Dimas Covas, afirmou à GloboNews que as negociações com a China são exclusivas do instituto, como ficou patente  no recebimento das unidades que já foram aplicadas em diversas regiões do país, a exemplo do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Finalizando o encontro, Eduardo Pazuello afirmou: “Saímos daqui hoje já com memorando de entendimento assinado e com o compromisso do ministério de celebrar, no mais curto prazo, o contrato, para podermos receber essas 30 milhões de doses no mais curto prazo possível para atender a população”.

O ex-ministro da Saúde sustentou também na CPI da Pandemia que a compra da Coronavac seria feita diretamente com o governo chinês. Após a gravação, parte da equipe de Pazuello pediu que os empresários não compartilhassem o vídeo feito por meio do aparelho celular de John.

ALERTA – Um dos assessores do general teria alertado o então ministro de que a proposta era incomum, acima do preço, e a World Brands poderia não ser representante oficial da empresa chinesa que fabrica a vacina. O preço anunciado por John ultrapassava até o preço de US$ 15 da Covaxin, já considerado um absurdo, cujo contrato foi suspenso por suspeita de irregularidades. O fato de o contrato ser suspenso significa que ele existia.

O Globo procurou a direção da empresa em Santa Catarina e o seu sócio José Tomaselli, mas não obteve resposta. O Estado de S. Paulo informa que o presidente da CPI, senador Omar Aziz, analisará os documentos e convocará Eduardo Pazuello a comparecer à Comissão para esclarecer os fatos.

PACHECO –  Numa entrevista a Bruno Boghossian e Renato Machado, Folha de S. Paulo de ontem, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, rebate a ameaça de Bolsonaro às eleições, afirmando que o risco à democracia deve ser eternamente vigiado, afastando-se pensamentos concretos que possam representar uma ruptura.

Como é público, Bolsonaro ameaçou a realização das eleições de 2022 caso o Congresso não aprovasse uma emenda constitucional, substituindo a votação eletrônica pelo voto impresso. Pacheco ressaltou que a declaração de Bolsonaro deve estar sujeita a uma retificação, o que significa que, em sua opinião, ele deve rever o erro para que não seja incluído como um propulsor de retrocessos ao silenciar-se quanto às manifestações de adeptos seus que defendem a intervenção militar e a volta do Ato Institucional nº 5.

Para Pacheco, ainda, as tensões que abalam o governo, principalmente no Ministério da Saúde, estão sendo superadas. O presidente do Senado, entretanto, acrescentou que a ameaça de ruptura é inaceitável  e quanto a questão do Ministério da Saúde, os envolvidos na teia de suspeitos devem esclarecer seus atos à CPI presidida pelo senador Omar Aziz.

TV GLOBO –  Reportagem de Julio Wiziack, Folha de S. Paulo, revela que o governo perdeu terreno no Cade na ofensiva que havia iniciado contra a TV Globo com a troca de Alexandre Barreto na Presidência, substituído  por Alexandre Cordeiro de Macedo, que assumiu a Presidência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica na segunda-feira.

Macedo assumiu também a Secretaria Geral que recebe e analisa todos os processos que chegam ao Cade. O mandato de Alexandre Barreto chegou ao fim por ter completado o tempo exigido de permanência. Em dezembro, a TV Globo foi impedida de exigir exclusividade em contratos de publicidade aos quais oferecera descontos, como é praxe no mercado dependendo do volume das mensagens. Essa exigência do Cade teria partido da inspiração do senador Ciro Nogueira, bolsonarista, apontado como o autor da indicação de Alexandre Barreto.

Barreto havia sido chefe de Gabinete do ministro do TCU Bruno Dantas, que o governo considera aliado de Renan Calheiros, relator da CPI da Pandemia. Barreto ganhou a simpatia do Planalto ao apresentar soluções para a crise dos combustíveis, ao fechar um acordo com a Petrobras para a venda de refinarias. Tinha bom relacionamento com o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, em razão do arranjo definido pelo Cade que levou à abertura do mercado de gás natural.

MEDIAÇÃO – Além disso, Barreto se tornou próximo do ex-ministro da Justiça André Mendonça e do presidente  do Banco Central, Roberto Campos Neto, depois de apaziguar um conflito histórico entre Cade e autoridade monetária na análise de casos do setor financeiro.

Sua recondução era dada como certa até a entrada em campo da conselheira Paula Farani Azevêdo para disputar a Secretaria Geral. Filha do ex-presidente da OMC Roberto Azevedo, Farani realizou trabalhos junto ao ministro-chefe da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, e com a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda.

NOVA POLÍTICA – Um dos fatos que entrou em debate no Cade, mas que acho não ter cabimento, é a nova política da TV Globo de não renovar contratos de exclusividade de artistas. A emissora mantinha artistas à disposição no Projac pagando mensalmente pela exclusividade, mas de 2019 para cá a Globo resolveu remunerar somente os atores e atrizes por trabalhos realizados na emissora.

Paulo Farani Azevêdo manifestou-se a favor da TV Globo no caso desses contratos de trabalho, cuja modificação é perfeitamente legítima. Mas na política as nuvens mudam de direção e forma incessantemente, frase do senador Magalhães Pinto. Bolsonaro chegou a pensar em enviar um projeto ao Congresso proibindo a TV Globo de conceder bônus às peças publicitárias, o que contraria a prática normal  da publicidade.

DICIONÁRIO HOUAISS – O dicionário que leva o nome do grande intelectual Antônio Houaiss, tradutor de Ulysses, de James Joyce, membro da Academia Brasileira de Letras e muito saudoso amigo, deixou a sua marca eterna na cultura e na sociedade brasileira. Antes do dicionário, Antônio Houaiss dirigiu a elaboração da Enciclopédia Delta Larousse, de cujo trabalho participei como autor dos verbetes políticos da história do país, no período de 1930 a 1969, quando a Delta-Larousse chegou às livrarias e à memória nacional.

Antônio Houaiss  era um diplomata de carreira, chegou ao posto de embaixador, teve os direitos cassados pela estupidez do Itamaraty em março de 1964, e então foi editorialista do Correio da Manhã, onde o conheci e nos tornamos amigos, almoçando pelo menos duas vezes a cada mês.

HONRA – Hoje, ao relembrar a sua imagem e a sua obra eternamente assegurada por Mauro Villar, que aos 82 anos ainda tem um amplo período de existência pela frente, sinto a honra de ele e eu termos assinado em conjunto a autoria do livro “Brasil: o fracasso do conservadorismo”.

A obra de Houaiss é imensa, marcada por pontos altos da inteligência e da cultura. Lembro que um dia almoçamos no Rio Minho, restaurante próximo à Praça XV com Gerardo Mello Mourão, único brasileiro condenado à morte a partir da República, pelo Tribunal de Segurança do governo Vargas que funcionava na Avenida Oswaldo Cruz, exatamente onde hoje está a Escola Darth.

ANISTIA – Mello Mourão era também um intelectual, mas cujo passado foi manchado por sua participação no Integralismo de Plínio Salgado, sigla que professava o nazismo e o fascismo.  Mello Mourão não foi incluído na Lei de Anistia assinada em abril de 1945 por Vargas, que convocava também as eleições de 2 de dezembro, vencidas pelo general Eurico Dutra, com apoio de Vargas.

Leio na entrevista de Mauro Villar, em forma de depoimento a Mariana Rosário, que ele é a única pessoa que tem responsabilidade de incluir novas palavras no banco de dados do grande dicionário Houaiss. O problema de atualização de dicionários e enciclopédias somente ser feita por computador, não existe outro meio. O próprio Houaiss me disse uma vez que tinham sido tentadas algumas formas de atualização, mas nenhuma se tornou viável.

RESPONSABILIDADE – A responsabilidade de Villar, sobrinho de Houaiss e também intelectual, é imensa, sobretudo para si próprio. Um home aplicado intensamente nos trabalhos que executa. Participou inclusive da elaboração da Delta-Larousse.

O dicionário Houaiss é considerado o mais completo editado no Brasil, inclusive porque focaliza o peso das palavras em contexto diversos, o que assinala a pluralidade de interpretações e adaptações de vontade dos textos em que estão presentes. Num dos últimos almoços em que estive com ele, sugeri que dirigisse dois trabalhos: o de identificar na realidade significados mais profundos do que os aparentes na literatura e nas letras da música, e nas imagens de pinturas famosas.

Além disso, que comandasse uma análise  focada em lentes de cristal sobre os textos bíblicos, abrangendo o Velho Testamento e o Novo Testamento, o primeiro judaico e o segundo cristão, e comparasse as redações com a categoria de autores conhecidos pelos seus nomes. Ele gostou da ideia que fascina pela aparente contradição entre o nível cultural atribuído aos autores e a sofisticação dos textos.

6 thoughts on “Pazuello e Elcio Franco decretaram a fase final do governo Jair Bolsonaro

  1. “FALTA UM NOME e um conjunto de ideias, valores e princípios que sejam um sim que diga não à polarização atual.” Falta nada, está tudo ai, na pista há cerca de 20 anos, o Leão e o megaprojeto novo e alternativo de política e de nação, porque o resto é tudo mais dos me$mo$. O que está faltando é pelo menos um partido que se preste a servir à causa nobre, ao país e ao povo brasileiro, e o desapego da comilança das ditaduras: partidária, midiática, militar e econômica. O bolsonarismo e o militarismo têm que sair, o lulismo, o demotucanismo e seus puxadinho$ não podem voltar. ENFIM UM ARTIGO, apartidário, isento, desprendido, que traça um diagnóstico perfeito e instiga o debate ideal, positivo, salutar, propositivo, fora das bolhas, sobre o que fazer com o Brasil, doravante, de modo a torná-lo melhor para todos e todas, além das cercanias do continuísmo da mesmice das ditaduras partidária, midiática, militar e econômica. Pergunta que, aliás, está no ar e não quer calar desde Junho de 2013, com o Brasil quase inteiro nas ruas do país aos gritos de “sem partidos, sem golpes, sem violência, sem corrupção, vocês não nos representam”. DIZ O ARTICULISTA no desfecho do seu trabalho intelectual: “Se Lula tem alto índice de intenção de votos, é por ausência de opção. Os seus potenciais eleitores não são petistas e lulistas, mas tão somente antibolsonaristas, da mesma forma que nas últimas eleições foram antipetistas, e não pró-Bolsonaro. Falta um nome e um conjunto de ideias, valores e princípios que sejam um sim que diga não à polarização atual”. AI ESTÃO O DIAGNÓSTICO E A QUESTÃO DA ORA, sendo esse, pois, o debate, isento, desprendido, assentado na verdade, que vale a pena fazermos porque expressa a realidade atual do Brasil, nua e crua, como ela realmente é, pugna pela Solução, e que, por coincidência, vem ao encontro da máxima segundo a qual LULA E BOLSONARO SÃO DOSE PRA LEÃO, porque o resto é puxadinho dos me$mo$, ou seja, continuístas da mesmice da ditadura partidária do sistema apodrecido que, ao longo dos últimos 131 anos, conduziu o país ao estado de coisa$ e coiso$ que ai estão, com prazo de validade vencido há muito tempo, à velha moda FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assolam o País ), tipo nó górdio, perfazendo uma seara praguejada na qual quanto mais se reza e se ora mais assombrações aparecem tipo “Fundão Eleitoral”, etc.e tal, macumbaria essa que precisa ser desfeita, exorcizada, e que só pode ser exorcizada, e mandada para a tonga da mironga do kabuletê, pelo megaprojeto novo e alternativo de política e de nação, com Deus na Causa, como propõe a Revolução Pacífica do Leão, a Nova Política de Verdade, com Democracia Direta e Meritocracia, a Terceira Via de Verdade, o novo caminho para o novo Brasil de verdade, porque evoluir é preciso. E se eu assino isso como o meu próprio nome, é porque acredito piamente no que estou dizendo, fruto de 30 anos de estudos sobre o assunto, porque há mais de 30 anos estou enxergando o possível Novo Brasil de Verdade, estou vendo ele funcionando a mil por hora, para o bem de todos e todas, porque amo ver seres humanos felizes, de bem com a vida. http://www.tribunadainternet.com.br/nao-deixa-de-ser-algo-indesejado-que-o-nao-a-bolsonaro-volte-a-ser-um-sim-a-lula/?fbclid=IwAR2RGIg5ejYn0Bb1AbnFPpRbeSY5vVfKK4R4THPuBKRt0mUpygU1GY22tCE

  2. 1) Bom artigo Pedro do Coutto.

    2) Conheci o professor Antonio Houaiss na antiga Faculdade de Letras da UFRJ, que ficava na Avenida Chile, bem perto da Rua do Lavradio, sede da Tribuna da Imprensa.

    3) Antonio Houaiss, meu xará, era um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, cujo símbolo é a pomba branca da Paz, desenhada pelo grande Pablo Picasso, não confundir com outros partidos…

  3. Não fico surpreso com o cérebro vazio do general – o que me causa muito espanto é ele ter chegado tão alto na hierarquia militar. Sorte nossa é que não temos guerra.

    • Vejam que coincidência microscópica: bastou Elaine Lessa ameaçar que ia apontar, em delação ao ministério público, quem mandou executar Marielle. Como se fosse uma forma para evitar que Elaine entregasse alguma família ultrapoderosa, estranhamente, ela foi presa!

Deixe um comentário para Eliel Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *