Pedaços de nós, o que ficou do passado

Gorbatchev e Wojtyla, juntos, esvaíram o comunismo 

Sebastião Nery

PARIS – Aquele velho de costas curvas e cabelos brancos dirigindo seu táxi pelas largas avenidas de Barcelona, semanas atrás, e me falando orgulhoso dos tempos de suas lutas operárias no Partido Comunista espanhol, era um pedaço de nós. Aquele homem de longos cabelos brancos e mãos encarquilhadas, comendo seu pincho na Tasca de Sevilha no último domingo, e relembrando sua participação nas disputas anarquistas da Andaluzia, também era um pedaço de nós. Os dois refazem um passado que não volta mais.

Tristão de Athayde, o sábio, nos ensinou que “o passado não é o que passou, é o que ficou do que passou”.

E Mário Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura do Peru, reconstruindo seus 80 anos em uma extraordinária entrevista ao jornal “El Pais”, acaba de dar uma lição de como não perder o que foi.

O PASSADO

60 anos atrás, vindos de todos os cantos, nós éramos um punhado de jovens participando das lutas pela paz de seus países, neles ou nas terras dos outros. Um dia era Moscou, depois Pequim, Praga, Viena, Berlim, Varsóvia, Roma, Paris. Às vezes no Congresso Mundial de Estudantes em Viena. Ou no Festival Mundial da Juventude em Moscou.

Passávamos por toda a Europa participando de lutas que não eram só nossas mas da humanidade. Agora, 60 anos depois, descobrimos quanto éramos felizes por fazer parte dos sonhos do mundo. O terrível é descobrirmos que já não somos os mesmos, e sobretudo já somos tão poucos. Os que resistimos, os que continuamos não perdemos nossas histórias. Infelizmente para tantos o passado se foi.

UBIRAJARA

O cientista nuclear Ubirajara Brito, saído da Escola de Engenharia da Bahia e ajudando a França a construir sua bomba atômica em Grenoble, e participando da construção da Universidade da Argélia com a equipe de Oscar Niemeyer, não perdeu o passado. Constrói sua Faculdade e seu Jornal lá em Vitória da Conquista, na Bahia.

Na Universidade do Sul da Bahia, o professor Sohane Nazareth continua perpetuando suas lições. Em Uberlândia, com sua beleza e suas lutas sociais, cuidando de sua fazenda com os admiráveis irmãos Azevedo, Martha Pannunzio não perdeu o charme de rainha do Festival Internacional da Juventude em Moscou em 1957.

NAPOLEÃO

Outros o passado levou como nosso simpático e inesquecível usineiro em Moscou, todo vestido de branco e o sorriso permanente no rosto, Napoleão Moreira, pai do imperador das águas de São Miguel dos Milagre, em Alagoas, Maurício Moreira. Como também levou há ainda pouco o sereno publicitário alagoano Murilo Vaz.

Tantos também se foram e não sabemos mais. Onde andará José Faerman Pathé, o cantor das multidões socialistas, vindas de São Paulo? Por onde anda o Roque, Diretor do Sindicato dos Trabalhadores de Volta Redonda no Rio com seu braço todo queimado?

Todos nos encontrávamos na “Universidade da Amizade dos Povos”, a “Universidade Lumumba”, daquela Moscou de 1955 a 57.

Gabriel Garcia Márquez, jornalista e escritor colombiano já começando a fazer sucesso, 5 anos mais velho do que nós, ainda não sonhava com o Nobel de Literatura.

KREMLIN

No desfile diante dos muros do Kremlin, os heróis daquele nosso mundo recebiam aplausos que a alguns a história depois negou, e a outros confirmou como Mao Tse Tung, Ho Chi Minh e Che Guevara.

Em Cracóvia, na Polônia, embaixo de nossos olhos, no Congresso Mundial de Estudantes, a história juntava o jovem estudante comunista da Universidade de Moscou Mikhail Gorbatchev e o diretor do Instituto Católico da Polônia padre Wojtyla, que depois se juntaram e fizeram esvair-se o comunismo no Leste europeu. Ninguém me contou, eu vi. E aquele atlético e sorridente sacerdote pôs em minhas mãos tensas a penca de chaves do seu Instituto para nele realizarmos o nosso Congresso Mundial de Estudantes.

PELICANO E BERLINGUER

Não eram apenas latino-americanos os presentes nestas histórias. Pelikano, Presidente da União dos Estudantes da Thecoslováquia e Giovanni Berlinguer, presidente da União Internacional dos Estudantes, que reencontrei como senadores italianos em Roma, lutaram até o fim.

Ao longo dos anos ambos construíram sólidas amizades com dirigentes políticos de suas gerações, como Raimundo Eirado, Presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Hoje, olhando o Sena, de cima das pontes eternas aqui de Paris, jogo meus 83 anos na balança e vejo que valeu a pena.

7 thoughts on “Pedaços de nós, o que ficou do passado

  1. O PARTIDARISMO-ELEITORAL E O GOLPISMO-DITATORIAL, VELHACO$, COOPTADOS PELO RENTISMO, INFELIZMENTE, NÃO NOS PERMITEM OUTRAS OPÇÕES QUE NÃO SEJAM ESTAS QUE AÍ ESTÃO, HÁ 125 ANOS, DITADAS PELA OPOSIÇÃO E SITUAÇÃO, E, SOBRETUDO, PELA GUERRA TRIBAL PRIMITIVA DOS MESMO$, POR PODER, DINHEIRO, VANTAGENS E PRIVILÉGIOS, SEM LIMITE$. E este humilde servo de Deus que vos fala é a única pessoa no mundo que está lhes propondo uma saída concreta de tudo isso aí, com começo, meio e fim, nome, sobrenome e endereço certo. Boa matéria essa, com o Prêmio Nobel de Economia, que nos permite boas reflexões. A Política e a Democracia, à evidência, não são culpadas, mas são, isto sim, vítimas, tão vítimas quanto pelo menos 95% da população que não tem a quem reclamar contra os 5% que não tem do que reclamar. Daí a necessidade da RPL-PNBC-DD-ME, o novo caminho para o novo Brasil de verdade, que virá, se o Brasil quiser, para libertar a Política, a Democracia e, sobretudo, o povo brasilieiro das garras do partidarismo-eleitoral e do golpismo-ditatorial, velhaco$, e, sobretudo, da guerra tribal primitiva dos mesmos, dominada pela “… falta de sentimento de culpa por parte de elites…”, que é uma característica de psicopatas apaixonados por poder, dinheiro, vantagens e priviléigos, sem limite$, e que fazem de tudo e qualquer coisa para consegui-los, conservá-los ou ampliá-los para si. Daí vem o Levy, à moda Collor piorado, valendo-se da oportunidade e necessidade de um certo ” freio de arrumação”, tira quase toda a grana de circulação e a entrega exatamente aos banqueiros, seus ex-patrões na iniciativa privada, permitindo à população o acesso apenas ao pão, à água e ao R$ 1,99, mercado esse que, aliás, a Presidente Dilma, conhece muito bem, desde a sua época de vacas magras lá nos pampas. Até quando ? Será que o povo terá de virar faquir para conseguir sobreviver ? E por quem os sino$ dobram ?

  2. Vê-se que todos os lembrados, à exceção dos que andam sumidos, conservaram o arraigado “socialismo” (entre aspas), sem nunca, jamais, em tempo algum, abrirem mão das delícias do capitalismo. De preferência às margens do Sena, à moda do mau caráter “chicobuarque”.

    • Lafaiete, sou uma pessoa simples. Tenho, apenas, curso médio, mas não estou impedido de ser um bom observador, além de ter testemunhado alguns acontecimentos dos últimos cinquenta anos. Gostaria de fazer um comentário, na sequência do seu: é enternecedor o prazer que todo comunista tem em bebericar um vinhozinho na Rive Gauche ou ficar olhando, filosoficamente, o Rio Sena, do alto de uma ponte, imaginando uma maneira de salvar o mundo do capitalismo selvagem.

      • Também sou como você pessoa simples, caro Gonzaga, somos apenas dotados de bom senso e, principalmente, não somos embusteiros. Nada mais. Minha dúvida é sobre o comentário presunçosamente mordaz do “carlos”, aí abaixo. Não sei se a estupidez a que ele se refere é atribuída a mim, a você, ao embusteiro Tião ou a ele mesmo, o “mordaz”. Abraço.

  3. Gosto de Barcelona e do povo de lá, se não bastasse por razões de que se trata de uma explendida, riquissima e civilizada cidade, por outra razão muito simples, qual seja, a gente pode ficar falando em portugues brasileiro, ainda que de maneira lenta e pausada e é perfeitamente compreendido pelos catalães, que tem um idioma, misto de castelhano e francês, bem mais dificil que o castelhano, mas mesmo assim somos bem melhor comprendidos até mesmo em relação a muitos portugueses de Portugal.
    Barcelona, e talvez toda a Catalunha, é realmente um lugar muito cosmopolita.Não é a toa que Sebastião Nery goste tanto de lá.

  4. GORBATCHEV , WOJTYLA , ATORES NO FIM DA UNIÃO SOVIÉTICA – UM RELATO HISTÓRICO

    (Peço perdão a todos pela extensão do texto. Os que não concordarem com o texto extenso têm o legítimo direito de não levá-lo em conta. Não foi possível fazer algo resumido a respeito).

    No dia 8 de dezembro de 1991, o então presidente dos EUA, George Bush, o pai, atendeu a um telefonema de Moscou. “Hoje, teve lugar um acontecimento muito importante em nosso país”, disse do outro lado da linha o líder russo Boris Yeltsin, que completou: “Gorbachev não tem conhecimento destes desdobramentos”. Bush não demorou muito para entender o que havia acontecido. Yeltsin, sem consultar Gorbachev, acabara de extinguir a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Para alguns historiadores, como o inglês Eric Hobsbawn, o evento não marcou apenas a queda da URSS e do socialismo no Leste Europeu: selou o fim do próprio século 20.

    À época, nem o mais preparado analista internacional apostaria que os uniformes com a sigla CCCP, temida como símbolo do poder soviético tanto na guerra quanto nas Olimpíadas, tornariam-se, em pouco tempo, ícones fashion retrô usados por jovens em clubes noturnos na Europa. Apesar da surpresa, os historiadores sabem hoje que o fim da URSS não foi por morte súbita, mas por uma espécie de doença degenerativa cujas causas tiveram origem muitas décadas antes, quando a Segunda Guerra Mundial sequer havia acabado.

    Da guerra quente à fria

    Se alguém tivesse de escolher um instante preciso da história para marcar o início da Guerra Fria, não haveria momento melhor do que às 19h30 do dia 24 de julho de 1945. Tudo aconteceu no intervalo de uma das sessões da Conferência de Potsdam, nos arredores de Berlim, quando Josef Stálin, Harry Truman e Winston Churchill, respectivos líderes da URSS, dos EUA e da Inglaterra, traçavam o destino do mundo – especialmente a partilha da Alemanha, que havia se rendido em maio, e o desfecho da guerra contra os japoneses, que ainda não haviam se rendido. Naquela noite quente do verão alemão, Truman aproveitou o fim de uma sessão da conferência para comentar com Stálin que os EUA estavam de posse de uma nova arma, com “inusitado poder destrutivo”. De acordo com Churchill e outras testemunhas, Stálin, como um bom jogador, permaneceu impassível e não mexeu um músculo da face. Simplesmente agradeceu a informação passada por Truman e desejou que os americanos usassem o novo artefato com “sucesso contra o Japão”. O resto, você já sabe: menos de um mês depois, caíram as primeiras bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.
    Hoje, os historiadores acreditam que a decisão de lançar as bombas sobre o Japão não teve como objetivo apenas abreviar o desfecho da Segunda Guerra. Conforme escreveu o historiador Charles L. Mee, autor de Paz em Berlim, Truman sabia que, ao usá-las, estaria demonstrando que tinha poder de sobra para dispensar qualquer ajuda soviética contra o Japão. O presidente americano esperava que tal demonstração impedisse Stálin de pretender algum domínio na região após a guerra.

    Ainda durante a Conferência de Potsdam, os líderes dos EUA e da Inglaterra já anteviam que a Europa seria dividida em duas zonas de influência: a Ocidental, capitalista, sob influência dos EUA, e a Oriental, comunista, ajudada pela URSS. A fronteira entre “as duas Europas” seria a própria Alemanha, também dividida. Ao disputarem a hegemonia na região, americanos e soviéticos sabiam: o que realmente estava em jogo era a hegemonia mundial. Ao contrário dos EUA, que adotaram uma estratégia de domínio indireto, o intervencionismo militar da URSS na Europa revelaria logo suas fragilidades.

    Tudo estava muito claro. Enquanto os tanques russos partiam em direção à Alemanha para combater os nazistas, os países que ficavam no meio do caminho precisavam ser dominados pelo Exército Vermelho para “garantir a retaguarda”. Como a maioria desses países estava com a economia e o sistema político em frangalhos, os soviéticos usaram uma estratégia simples: fortaleciam as lideranças comunistas locais e levavam-nas ao poder desde que, é claro, elas se lembrassem de que não deveriam contrariar as diretrizes do Partido Comunista soviético.

    Um ótimo plano, não fosse por um “detalhe”: a população desses países gostava de pensar por conta própria. Quando multidões resolviam ir às ruas para reivindicar que seus países seguissem o caminho que quisessem rumo ao comunismo, os soviéticos não hesitavam em lembrar ao proletariado que o preço a ser pago pela igualdade econômica era a perda da liberdade política. Foi assim na Hungria, em 1956, e na Tchecoslováquia, em 1968 – a famosa Primavera de Praga.

    A outra revolução

    Na Europa Ocidental, a economia ia muito bem. Turbinada pela ajuda dos EUA, que prosperava como nunca no pós-guerra, o nível de renda dos trabalhadores em países como República Federal Alemã, França e Itália crescia a um ritmo acelerado, bem superior ao de seus companheiros no mundo comunista. Sem falar, é claro, na maior liberdade. De propósito, o mundo capitalista resolveu fazer de Berlim Ocidental sua vitrine mais reluzente, justamente porque essa parte da cidade acabou transformada em uma ilha capitalista encravada na comunista República Democrática Alemã. Quando percebeu que a tal “vitrine” exercia uma enorme atração sobre os berlinenses, que preferiam trabalhar no lado ocidental da cidade, a administração do setor oriental viu-se obrigada a erguer, em 1961, o Muro de Berlim.

    Já do lado oriental, o cenário econômico não era dos mais animadores. Entre a década de 1930 e o início da década de 1960, a consolidação da URSS como potência industrial teve por base o que os economistas chamam de “crescimento extensivo”. Trocando em miúdos: o importante era aumentar a produção a qualquer custo, utilizando a maior quantidade possível de mão-de-obra e de recursos naturais. Agora, porém, o mundo estava prestes a entrar em uma nova fase econômica, que mais tarde ficaria conhecida como a Terceira Revolução Industrial – nome dado às mudanças na produção de bens e serviços provocados pelo avanço da microeletrônica e dos sistemas computadorizados.

    Na década de 1970, fábricas projetadas para produzir em série um determinado produto passaram a ser substituídas por plantas industriais automatizadas e muito mais flexíveis, capazes de se adaptar às variações de demanda no mercado consumidor. A linha de montagem criada por Henry Ford, por exemplo. Ela revolucionou a fabricação de carros nas primeiras décadas do século 20, quando foi inventada. Mas já não já dava conta do recado nos anos 70 e começou a ser trocada pelo modelo da japonesa Toyota – cujas linhas de montagem ágeis e descentralizadas permitiam que os engenheiros fizessem mudanças em tempo real, um salto e tanto na inovação de produtos.

    Enquanto isso, trabalhadores da Alemanha Oriental tinham de esperar anos para poderem dirigir seus poluentes e antiquados Trabants, símbolos da ineficiência das montadoras socialistas.
    Como ficaria claro mais tarde, essa flexibilização era incompatível com o planejamento rígido e centralizado das fábricas soviéticas. “A defasagem tecnológica com o Ocidente foi se tornando cada vez maior, chegando a um ponto crítico em meados dos anos 70 e tornando-se um fosso catastrófico na década de 80”, escreveu o historiador Angelo Segrillo em O Declínio da URSS. Não bastasse a defasagem econômica da década de 1980, os soviéticos teriam de enfrentar a ascensão de novos personagens que, juntos, estavam prontos para desafiar a velha ordem soviética.

    Atores finais

    O primeiro chamava-se Karol Wojtyla, que também foi ator, poeta, autor teatral e atleta, até ser nomeado arcebispo de Cracóvia, em 1964. Catorze anos depois, seus colegas cardeais elegeram-no o primeiro papa não-italiano em 455 anos. Como João Paulo II, ele desempenharia um papel importante na desestabilização do regimes socialistas do Leste Europeu. “Quando ele beijou o solo no aeroporto de Varsóvia, no dia 2 de junho de 1979, deflagrou o processo pelo qual o comunismo na Polônia, e depois em toda parte na Europa, teria fim”, escreveu o historiador americano John Lewis Gaddis, em seu livro A História da Guerra Fria. “Outros logo seguiram seus passos”.

    Inspirado pelo papa, o segundo polonês a desafiar o comunismo foi o eletricista Lech Walesa que, em agosto de 1980, postou-se diante do portão do estaleiro Lenin, na cidade de Gdansk, para anunciar a criação do Solidariedade – o primeiro sindicato independente de um país comunista. Enquanto isso, nos EUA e na Inglaterra, despontava um casal que, ao menos ideologicamente, foram feitos um para o outro.

    Tanto o presidente americano na época, Ronald Reagan, como a então primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher, pareciam ter nascido com a missão de resgatar a reputação do capitalismo no Ocidente e afastar de vez o espectro comunista do mundo.

    Para isso, Thatcher começou seu trabalho em casa, iniciando uma onda de privatizações na Inglaterra para recuperar a confiança na livre-iniciativa do país, cuja economia vinha dando sinais de cansaço. Reagan, ex-ator, fez da luta contra o comunismo quase um roteiro de Hollywood, cujos heróis – como o pugilista Rock Balboa, da série Rock, ou a dançarina Alex Owens, de Flashdance – tornaram-se símbolos da celebração da iniciativa individual. Em meio à ascensão de líderes que se comportavam como astros, faltava apenas que a URSS substituísse seu ator principal. Mas quando Gorbachev chegou ao poder, em 1985, ele não podia imaginar que seria o último a viver o papel de secretário-geral da URSS.

    “A formação de Gorbachev era de advogado e não de ator, mas ele compreendia os usos da personalidade pelo menos tão bem quanto Reagan”, escreveu o historiador John Gaddis. “Pela primeira vez desde que a Guerra Fria começou, a URSS tinha um governante que não parecia sinistro, grosseiro, indiferente, senil ou perigoso”.

    Inicialmente, Gorbachev acreditou que conseguiria levar a URSS a um final feliz, desde que convencesse seus companheiros de partido das reformas necessárias para reerguer o país. Mas seus planos de reestruturação econômica (Perestroika) e transparência política (Glasnost) não tiveram o mesmo sucesso que os acordos de desarmamento que o fizeram Nobel da Paz. À medida que Gorbachev surpreendia o mundo com discursos pregando a distensão do regime, a pressão interna dos cidadãos que viviam no Leste Europeu parecia prestes a explodir, sem que seus governantes pudessem ter nenhum controle sobre as manifestações contra o comunismo.

    Último capítulo

    A explosão veio em 1989, ano do bicentenário da Revolução Francesa. Em junho, depois que Gorbachev deu a entender ao novo primeiro-ministro da Hungria que reconhecia que a revolta de 1956 tinha começado em virtude da insatisfação do povo, mais de 200 mil húngaros sentiram-se à vontade para ir à cerimônia do “novo funeral” de Imre Nagy, que liderara a revolta e fora executado por ordem de Kruschev.

    Três meses depois, com a retirada da cerca de arame farpado ao longo da fronteira entre a Hungria e a Áustria, milhares de alemães orientais cruzaram o território húngaro para aproveitar a “janela aberta” e escapar para o Ocidente. Na Polônia, o sindicato Solidariedade não apenas tinha sido reconhecido, como seus líderes foram autorizados a se candidatar a cargos para a câmara baixa do país – ganhando o maior número de cadeiras. E quando milhares de manifestantes foram aclamar Gorbachev durante uma visita a Berlim Oriental, muitos levaram cartazes com dizeres como “Gorby, socorro!” ou “Gorby, fique aqui!”. O líder soviético voltou para Moscou convencido de que o regime socialista da Alemanha Oriental estava ameaçado.

    No dia 9 de novembro daquele ano, o mundo inteiro assistiu pela TV à materialização dos temores de Gorbachev. O governo alemão, pressionado, viu-se obrigado a “relaxar” as regras que impediam a viagem para o Ocidente. O novo decreto, lido de maneira confusa por um subordinado da emissora de televisão estatal, fez com que milhares de berlinenses se dirigissem aos postos de controle. Impotentes diante de tamanha multidão, os guardas acabaram abrindo os portões. E veio abaixo o Muro de Berlim.

    Ainda em novembro, o governante comunista da Bulgária, Todor Zhivkov, no poder desde 1954, anunciou seu afastamento. Sete dias depois, manifestações na Tchecoslováquia fizeram com que um governo de coalizão liderado por Alexandre Dubcek, líder da Primavera de Praga em 1968, tomasse o poder dos comunistas. Em 17 de dezembro, manifestantes na Romênia foram alvejados por ordem do líder romeno Nicolau Ceausescu. Resultado: 97 pessoas mortas e o início de uma revolta popular que terminou com o julgamento sumário e o assassinato de Ceausescu e de sua esposa no dia de natal de 1989.

    O próprio Gorbachev foi surpreendido no desfile de primeiro de maio de 1990, na Praça Vermelha, com manifestantes trazendo faixas nas quais lia-se: “Abaixo Gorbachev! Abaixo o Socialismo e o Império Vermelho fascista”. Àquela altura, ele já estava consciente de que havia perdido o controle do processo que iniciara.

    Se uma série de Estados europeus buscava um caminho próprio, por que o mesmo não poderia ser reivindicado por Lituânia, Moldávia, Ucrânia ou qualquer outra república da URSS? Quando alguns desses Estados começaram a proclamar independência, Gorbachev viu-se diante de um impasse: ou usaria a força bruta, como nos velhos tempos, ou aceitaria ver a desintegração do país. Enquanto não encontrava uma saída, seu governo foi vítima de um golpe militar, cuja resistência foi liderada por Boris Yeltsin – o mesmo homem que, no dia 8 de dezembro de 1991, decretaria o fim da URSS em um telefonema ao então presidente americano, George Bush. No Natal daquele ano, Gorbachev passou a Yeltsin os códigos necessários para disparar um ataque nuclear. E assinou o decreto oficial do fim da URSS.

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