Pedalando contra Molire por um mundo melhor

Sandra Starling

No gostaria de me estender sobre a novela do mensalo. H tanta hipocrisia envolvida em tudo isso que, confesso, me sinto cansada de continuar tratando desse assunto. O poder econmico ainda haver de dar as cartas na poltica brasileira por um bom tempo. Est tudo dominado!

Sou tomada de assalto pela vontade de inteirar-me um pouco mais sobre crises internacionais a que devotamos um nvel de preocupao prprio das banalidades. Qual o compromisso de cada um de ns com a superao da devastao causada pelo tufo Hayan nas Filipinas? O que temos a oferecer para que o caos deixe de imperar na Sria, na Lbia ou no Egito? Iraque e Afeganisto j so sinnimos do den? E o Haiti, safou-se?

O que fazer para que o chifre da frica no continue tragado pela anarquia e para que os que dali escapam no morram afogados nas proximidades de Lampedusa, nas barbas dos indiferentes europeus? aceitvel, como nos adverte Paulo Nogueira Batista Jnior, que uma gerao inteira de jovens portugueses, gregos e espanhis passe pela vida sem saber o que ocupao? At quando continuaremos a comprar roupas de grife fabricadas em Bangladesh ou Camboja, mediante trabalho em condies degradantes?

VIOLNCIA

Enquanto isso, entre ns, no Brasil, os indicadores de violncia aumentam. Homicdios, estupros, arrastes, assaltos s escancaras. Pode escolher, caro leitor. Somos marcados pelo selo da agresso em tudo que fazemos: na famlia, na escola, no trabalho, nos esportes, nas prises, na poltica. E o velho mito de nossa cordialidade, relatado por Srgio Buarque de Hollanda, acaba se revelando em seu exato sentido nos precisos versos de seu famoso filho, na parceria com Ruy Guerra: Mesmo quando as minhas mos esto ocupadas em torturar, esganar, trucidar/Meu corao fecha os olhos e sinceramente chora….

Assisti h poucos dias ao filme Pedalando com Molire. Trata-se da tentativa de seduo de um famoso ator, que se tornara praticamente um ermito, para participar de uma das mais complexas peas do dramaturgo francs: O Misantropo. Obra teatral e filme se confundem num belo lamento sobre o pessimismo, quase um rquiem sobre nossa decada condio humana. Cheguei a pensar: … no tem jeito mesmo!

E O QUE VOC FEZ?

Mas novamente vai chegando o Advento. E volta-me mente a pergunta de John Lennon em Merry Christmas: Um ano se passou. E o que voc fez?. Sei que pouco ou nada fiz. Mas me arrebata o exemplo dos que fizeram.

Curiosa, ante a notcia de uma revista, vou ao YouTube para apreciar o sucesso de Nerckie, o professor de matemtica que vem cativando milhares de jovens, com sua obsesso de incluso social pela educao. Aulas de excelente qualidade sem cobrar um tosto em troca. O que ele nos pede como compensao? Que saiamos de nossos casulos, esqueamos a preocupao permanente com o dinheiro e nos doemos um pouco, no pouco que pudermos, para quem precisa. Sua mensagem soa como pedalar, contra Molire, em prol de um mundo melhor, mais humano e em maior sintonia com a natureza.

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