Pedro Simon: mais um gesto de coragem

Carlos Chagas 
                                                       
Pecado, ele não cometeu. Sequer um erro. Tinha direito, como ex-governador, a  requerer aposentadoria,  vinte anos depois de deixar o palácio Piratini. E o fez por razão simples: disposto a não se candidatar a mais um mandato no Senado, tendo doado todos os seus bens à Ordem dos Franciscanos, aos 85 anos Pedro Simon ficaria sem meios para sustentar mulher e filhos. 
                                                       
Seguiram-se manifestações de desapontamento, não dos  poucos adversários que o criticam por qualquer pretexto, mas de alguns admiradores desinformados de sua situação financeira. Ficou preocupado, sem dormir. Pensou em renunciar, não só à aposentadoria, mas ao próprio mandato de senador. Consultou amigos e terça-feira decidiu: enviou ofício ao secretário de Fazenda do Rio Grande do Sul, com cópia para o presidente do Senado,  abrindo mão de receber o benefício enquanto viver. Mas garantindo para a família, no futuro,  renda capaz de sustentá-la.
                                                         
Já não se fazem políticos como Pedro Simon. Aliás, um dos sobreviventes dessa categoria em extinção,  Paulo Brossard, contribuiu para a decisão. Pelo telefone, de Porto Alegre, o ex-senador e ministro do Supremo Tribunal Federal ponderou: “O que farás quando voltares ao Sul? Aos  85 anos,  recomeçarás   a advogar?”
                                                       
Conhecedor da História dos pampas, Brossard lembrou as agruras porque passaram Julio de Castilhos e Raul Pilla, na velhice. E estimulou o amigo a adotar a iniciativa agora verificada.
 
SÓ CASANDO
 
Depois de um prolongado casamento e de dezenas de casos e filhos com as mais variadas mulheres da França, Luís XIV ficou velho, viúvo  e cheio de doenças. Precisava de alguém para cuidar dele, e fixou-se em Madame de Montespan, governante de seus netos. A vetusta mas ainda atraente senhora, de origem nobre mas sem recursos, resistiu às investidas do rei. Só casando iria para a cama real,  ainda que não  tivesse sonhos de tornar-se rainha.

Os costumes da época permitiam o casamento morganático, ou seja, a consorte não seria elevada ao trono mas contaria com as bênçãos da Igreja e o respeito da corte. Assim aconteceu, com a cerimônia realizada em segredo. O rei que se arvorava em ser o Estado viveu feliz os últimos anos de sua longa vida.
                                                       
Por que se conta essa historia? Porque o PMDB faz o jogo de madame de Montespan. Queria  as nomeações para o segundo escalão,  sem o que não garantiria a maioria de votos para o governo, no Congresso. O casamento  morganático foi realizado, provavelmente pelo Cardeal Palocci.  As nomeações começaram a sair  na moita, preço para a tranqüilidade na corte, dado o maciço apoio do PMDB ao projeto do salário mínimo.
 
O TRABALHADOR É UM DETALHE
 
Mais uma vez a conta foi mandada para o  trabalhador. Ele que se ajeite com os miseráveis 545 reais de salário mínimo. Importa  menos se a Constituição transformou-se em livro de receitas mágicas, pois está escrito nela que o salário mínimo deverá atender o trabalhador e sua família com despesas de habitação, alimentação, transporte, vestuário, saúde, educação e ainda lazer. Só por milagre, com uma merreca igual que nem a inflação compensou.
                                                       
Felizes estão as elites financeiras e especulativas. Basta ler os editoriais dos  jornalões e ouvir os comentários de seus serviçais. A pretexto de evitar a falência sempre anunciada mas jamais concretizada da Previdência Social, assim como para cortar gastos públicos, sacrificou-se mais uma vez metade da população. Seria o caso de indagar se os parlamentares, os ministros e a própria presidente da República conseguiriam viver com 545 reais por mês, eles que não faz muito tiveram seus vencimentos aumentados até 26 mil reais mensais.
 
DE VOLTA  PARA O FUTURO 
 
Nunca é demais repetir o provérbio árabe de que bebe água limpa quem chega primeiro na fonte. No PSDB a briga é de foice em quarto escuro por conta da sucessão de 2014. José Serra reivindica o direito de disputar não apenas mais uma, mas duas vezes. Ou o Lula só venceu na quarta vez, enquanto ele só perdeu duas? Aécio Neves, mantendo o estilo do avô, sustenta que a vez é de Minas, depois de três fracassos paulistas. Só que Geraldo Alckmin, montado na máquina do governo mais rico do país, não fará por menos: quer ver Serra e Aécio afastados, um porque o tempo dele já passou, outro porque ainda não chegou.
                                                       
Enquanto isso, no reverso da medalha,  a palavra de ordem é de que Dilma Rousseff terá direito a mais um mandato, se estiver indo bem  no primeiro. Caso contrário, o Lula estará a postos. Algumas indagações ficam inconclusas.  O  que fará o PMDB para evitar sua transformação em partido de segunda classe? Ficar atrás de nomeações para o segundo escalão não basta. Precisará lançar candidato próprio, mas quem?

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