Percentuais não podem flutuar no espaço como no belo poema de Vinícius de Moraes

Charge do Roque Sponholz (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

De uns tempos para cá, economistas, jornalistas e médicos citam percentuais buscando confirmar informações colocadas em suas plataformas. Os percentuais têm que repousar sobre números absolutos para que não percam a sua importância real e totalmente clara.

O belo poema de Vinicius de Moraes ao qual me refiro é aquele no qual ele focaliza a felicidade. As informações da vida, quando tentamos comparar um estágio e outro, têm que ser apresentadas como um espelho e não como uma fantasia arbitrária que funciona exatamente para enganar ou, o que também é muito grave, desinformar.

DESINFORMAÇÃO – Agora, por exemplo, reportagem de Ricardo Della Coletta, Folha de São Paulo de quarta-feira, revela que o presidente Jair Bolsonaro assumiu a prática de um erro ao lançar no mercado da informação um documento atribuído a um funcionário do Tribunal de Contas da União, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, que contém uma grande distorção no número de falecimentos em decorrência da Covid-19.

O TCU, informa Leandro Prazeres, O Globo, anunciou uma investigação sobre o comportamento do servidor, mas eis que o próprio presidente Jair Bolsonaro, como destacou a matéria, assumiu de forma surpreendente a responsabilidade pela escala numérica que reduziu o número de óbitos à metade.

Absurdo completo. Reduzir à metade o número de mortes em função de uma pandemia não pode ter a menor base no cálculo efetivo que tanto corrói o país. A impressão pessoal em relação ao coronavírus choca-se frontalmente com a realidade e também colide com os atestados de óbito que médicos forneceram a mais de 470 mil pessoas falecidas no país. Foram dizimadas pela incompetência, pela omissão e pela distorção dos fatos. Essa última, ficou flagrante na terça-feira, no segundo comparecimento à CPI do ministro Marcelo Queiroga.

DESGASTE – Queiroga, evidentemente, teve a sua imagem fortemente desgastada junto à classe médica e ao seguimento científico, uma vez que negou ter partido de um gabinete paralelo no Planalto o veto à médica Luana Araújo, indicada por ele e vetada pelo plano alto do Planalto.

E não foi essa, contudo, a única contradição de Queiroga. Ele terminou concordando, mas procurou abrandar a discordância, de que o uso da cloroquina não funciona contra a Covid-19. Voltando aos percentuais, eu disse que tornou-se um hábito, de uns dois anos para cá, talvez três, citar crescimentos percentuais sem dizer sobre quais números absolutos esses índices repousam.

Por exemplo, em artigo ontem publicado na Folha de São Paulo, o ex-ministro Delfim Netto, por quem a Fiesp pensa, sustentou que o crescimento econômico do Brasil neste ano deve atingir 4% e isso representa um fato importante e uma retomada econômica verdadeira.

CASO CONCRETO – Se considerarmos que em determinado período que antecede de pouco o percentual novo, podemos estar incorrendo no erro, e mais grave até, fazendo os outros errarem, na medida em que essa percentagem dá a entender que o resultado alcançado foi altamente positivo. Mas vejamos um caso concreto. A economia recua 3% em determinado período. No período imediato, ela assinala um crescimento de também 3%. Dizer que a economia avançou 3% é falso. Ela apenas empatou com o desgaste que a antecedeu no novo período. Fica zero a zero? Não.

Zero a zero nos números, mas a população num período de um ano, que tomamos por base, cresceu 1%. Logo a renda per capita diminuiu, pois esta é o resultado da divisão do Produto Interno Bruto pelo número de habitantes. Como no Brasil, o crescimento populacional é de 1%, já descontado o índice de mortalidade que é de 0,7%, chegamos à conclusão que a cada 12 meses surgem 2 milhões de habitantes a mais do que no exercício anterior.

Portanto, essa velocidade, como é natural , abrange todos os degraus do resultado demográfico. São mais de dois milhões de pessoas que necessitam de alimento, de água limpa, de saneamento, de transporte, de programa habitacional para reduzir ou pelo menos conter o crescimento das favelas nos centros urbanos.

FALSO CENÁRIO – O exercício que proponho trata-se de um leve esforço  para colocar a lente da verdade sobre os fugitivos de seu valor. Por isso é que quando se aplicam percentagens, deve-se levar em conta, sem dúvida alguma, a base sobre a qual elas aterrissam. No poema de Vinicius, a pluma não aterrisa, mas precisa de vento sem parar. A bela imagem poética contradiz o esforço de técnicos em tentar mostrar à população um cenário falso para que o conceito dos governos,sejam eles quais forem, seja melhor do que se imagina.

Imaginar é um direito. Não fosse ele, o que seria dos sonhos? Entretanto, a realidade se impõe sobre a viagem do pensamento. Lembro novamente, o que já fiz diversas vezes, o que o ministro Roberto Campos, avô do presidente do Banco Central, pensava sobre o assunto. Ele chamava sempre a atenção para o uso correto das estatísticas.

Tinha razão total e continua tendo ao longo do tempo, já que se tudo é relativo, algo tem que ser absoluto para dar base ao raciocínio que demonstra situações reais. Caso contrário, o uso do percentual serve apenas como uma névoa que envolve os raciocínios da população de modo geral e ao mesmo tempo faz a felicidade dos que os manipulam.

4 thoughts on “Percentuais não podem flutuar no espaço como no belo poema de Vinícius de Moraes

  1. Eles enganam quem eles querem, pois a realidade da vida que vivemos nos coloca sempre no chão.
    Em 2009 para frente por exemplo, aqui em Jaboatão dos Guararapes, pessoas passando para cá e para lá como livros e cadernos (eu disse livros e cadernos) para estudar; agora vejo pessoas caídas pelas calçadas e desemperançadas ou os mais valentes empurrando um carrinho com papelão e recicláveis; é isto que nós vemos.

  2. Agradeço a Deus, bendito seja Seu nome o trabalho; vejo os rapazes e mesmo senhores com bicicleta levando I-food entre outras coisas e mesmo motociclistas. Os aplicativos de passageiros, são 5 (cinco) reais para uma corrida curta e buscam na porta de casa; de ônibus, você teria de ir para o ponto, saltar distante do teu objetivo e não ficaria muito $ diferente não.
    Fico com pena, mas, imediatamente agradeço a Deus por pelo menos proporcionar este trabalho.
    Excelentes soldadores, montadores, eletricistas, professores, tem de tudo, fazendo estes trabalhos enquanto nosso país faz obras para levar nosso óleo, lá no sudeste asiático.
    PS: Vai acabar o óleo e nós não teremos as oportunidades que a Noruega por exemplo teve, continuando a ser uma nação pária, por causa de maus brasileiros.

  3. “Fica zero a zero? Não. ”

    Então, por esse seu raciocínio, a economia não cai nada em 2020 e 2021. Pois, em 2019 e inicio de 2020 tinha subido 3 por cento. Então agora o crescimento vai ser total e real, porque já está zero a zero.
    E se vocês não inventarem um novo lockdown, para acabar com a economia de novo, o crescimento vai ser de 6%. Quem anda pelas ruas, já percebe os salões comerciais sendo reformados para novos comercio, e a vastas placas de empregos.

  4. “Matemágica Para Ludibriar”

    Das estratagemas voltadas para manipulação de massa, o tal do marketing é o mais cruel: por ser sutil, academizado, roda na alta mídia e é de uso da elite embusteira. Por isso ganha contornos de verdade e seus “resultados” até servem de parâmetros, para as partes interessadas elaborarem seus planos de ação.
    Dentro dessa máquina de moer a consciência popular, há um subítem, cuja seleção parece cínica e covarde. Por exemplo: num município, com 300.000 habitantes, foi levado um dado benefício a 60.000 (20%) dos residentes. No município vizinho de 180.000 moradores, o mesmo benefício atingiu 45.000 pessoas ou (25%) do total.
    Quando um prefeito e outro forem divulgar a meta alcançada:
    -O primeiro gestor vai-se valer dos números absolutos (60.000), para tomar como patamar ínfimo, o valor inferior alcançado pelo vizinho de (45.000) habitantes.
    -O gestor do segundo município, por seu turno, prefere exibir os números percentuais (25%), e ainda destacar a percentagem do concorrente (20%), para fixar, na memória coletiva, que o percentual dele, do divulgador, foi maior. “Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde!” Quem recorda de RUBENS RICUPERO, ministro da Fazenda de FHC?
    PS: Apesar de sabermos que os brasileiros não nutrem simpatia por matemática, todavia, se cada um se esforçasse para aprender uma operação simples, Regra de Três, eles ficariam imunes a algumas ciladas numéricas. Exemplo: num supermercado, um pacote de leite com 600g custa R$ 10,00. Outro pacote da mesma marca, pesando 1.000g (1kg) ao preço de R$ 16,00. Proporcionalmente, qual seria mais vantajoso pôr no carrinho? Se você for mão-de-vaca, R$ 0,666 já faz diferença. Mas, para os “cristãos religiopsicopáticos”, esse 666 não lhes cheiraria muito bem!

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