Pergunta de Stedile, sobre Brizola, Lula, 1998

Helio Fernandes

Lula não entrou para perder em 1998, mas seria a sua terceira derrota seguida. Não dava para ganhar, o que é muito diferente. A máquina nas mãos endinheiradas de FHC fazia dele um candidato invencível. A reeleição, manipulada, compra e paga pelo ministro mais diretamente ligado a ele, que morreria logo depois da “vitória”.

Esse ministro era altamente competente em negócios, foi sócio de Golbery ainda na ditadura. Queria montar uma fábrica para “produzir energia extraída da madeira, como se fazia na então União Soviética”.

Pediram ajuda ao vice-presidente em exercício, Aureliano Chaves, corretíssimo, (ex-ministro da Energia) que recusou toda e qualquer ajuda, explicando: “Isso está totalmente ultrapassado”. Estou contando isso para mostrar como eram as entranhas do governo FHC.

Lula tentava garantir a quarta indicação em 2002, que foi o que aconteceu. A reeleição de FHC foi fácil, a de Lula, facílima. Como seria (ou será) a de Dona Dilma. Não digo que a reeleição dela está afastada. Mas não será “matemática”, como foi para FHC e Lula.

O DESTINO (INGRATO) DE BRIZOLA

Tinha tudo para ser presidente. Mas vários obstáculos foram colocados para impedir seu projeto. Fez toda a carreira no Rio Grande do Sul, deputado estadual, prefeito de Porto Alegre, governador. Ainda como governador, foi eleito deputado federal, aqui na Guanabara, território do seu grande inimigo Carlos Lacerda.

Em 1963 deixou o governo, foi para Brasília, onde tinha um adversário (não ostensivo), o cunhado João Goulart. Antes do golpe já era presidenciável, vetado pelo próprio cunhado presidente, respondeu com o slogan de repercussão nacional: “Cunhado não é parente”.

Veio o golpe, o exílio, o afastamento por 15 anos da política. Em 1963 pediu a Jango para ser Ministro da Fazenda, (com o aval do general Lott) Jango recusou, por pressão do embaixador Lincoln Gordon.

Para terminar por hoje com Brizola. Em 1984, surpreendeu muita gente, mas não a este repórter. A sucessão estava marcada para 1985, direta ou indireta, dependendo da emenda que tramitava no Congresso. Seu mandato terminava em 1986, o de Figueiredo em 1985.

Sugeriu e trabalhou pela prorrogação do mandato de João Figueiredo, para quando terminasse o seu. Ulisses e Tancredo, que viviam se hostilizando, fizeram uma pausa, derrotaram essa proposta que não servia a eles. Mas ficaram reticentes em relação às “diretas já”, de Dante de Oliveira.

A emenda das “diretas já”, com egos, vaidades, interesses e ambições se jogando contra, perdeu por apenas 24 votos. Se fosse aprovada para 1985, tenho certeza de que Brizola renunciaria para tentar a presidência.

A obsessão de Brizola era ser presidente. Por causa disso, disputou o difícil governo da Guanabara, no Rio Grande do Sul ganharia sem fazer campanha. Mas já havia governado o estado, e aqui teria muito maior repercussão. Teve que enfrentar a “conspiração” da Proconsult, ganhou mas quase não tomava posse.

Em 1989, não passou para o segundo turno por meio ponto percentual, chamou Lula de “sapo barbudo”, foi para o Rio Grande do Sul descansar. Voltou, apoiou Lula, o que fazer? Mas declarou: “Do Collor eu ganharia”. Lula não ganhou.

Em 1998, Walmor, Brizola não era vice do Lula, foi uma “roleta russa”. Sabia que pela idade, não teria outra chance, foi o que aconteceu. Brizola e Lacerda deveriam ter tido oportunidade de ocuparem a presidência, para errarem ou acertarem. Governaram seus estados de forma positiva. Conseguiram isso, não roubavam nem deixavam roubar.

PS – É sempre bom lembrar Brizola, mesmo circunstancial e fugazmente. Qualquer coisa, consulte o Antonio Santos Aquino.

OS PRESIDENTES MINEIROS DA “REPÚBLICA VELHA”

Desculpe, João Manuel, não citei, foram apenas três, só um cumpriu os quatro anos do mandato. Em 1906, Rui Barbosa achou que era a sua vez, surgiu Afonso Pena, grande governador de Minas. Morreu em 15 de junho de 1909, deixou 17 meses para o vice Nilo Peçanha, no Estado do Rio, e inimigo mortal de Rui.

O SEGUNDO MINEIRO

Em 1914, Wenceslau Brás. Cumpriu o mandato, e assim mesmo com restrições. Ao Senado não foi nenhuma vez, ele e Pinheiro Machado se hostilizavam, Pinheiro seria assassinado em 1915. “Fazia” presidentes, não conseguiu “fazer” a ele mesmo.

BERNARDES, GRANDE PRESIDENTE

Assumiu em 1922, foi um ótimo governador e presidente corajoso. Tomou posse enfrentando os militares e o então poderoso “Correio da Manhã”, na tormentosa e perigosa acusação das “cartas falsas”.

Não falei em Delfim Moreira, vice de Rodrigues Alves (paulista), nenhum dos dois assumiu. Rodrigues morreria sem assumir. Delfim ficou 11 meses assinando papeis no que se chama na História, “a regência Mello Franco”. Era o doutor Afrânio, Ministro da Viação, que viria a ser chanceler em 1930.

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PS – Depois não houve mais sucessão, no sentido exato da palavra. Os vices e os “cabeças de chapa” se hostilizavam, fabricavam ditaduras.

PS2 – Vergonha, ultraje, vexame, a eleição de Renan. Mas pior ainda, degradante foi o discurso de posse. Tripudiou sobre o país inteiro, estava exultante pelo fato de nenhum oposicionista ter citado sua renúncia anterior para não perder a presidência e o mandato. Ia perder as duas, optou por ficar pelo menos com o mandato.

PS3 – Quase todos os que apoiaram ou votaram em Renan, disseram e repetiram: “Não estamos fazendo nenhum favor, pela PROPORCIONALIDADE, o cargo pertence ao PMDB”. Nenhuma dúvida. Mas por que escolher um corrupto enquadrado na “ficha limpa”, e respondendo a várias acusações no Supremo?

PS4 – Como disse magistralmente o suplente “Edinho 30” (que votou em Renan). “Se o Supremo aceitar a denúncia, Renan ficará dois anos sob pressão. Por que escolheram ele?

PS5 – Como o voto foi secreto, não se tem certeza de como votaram muitos. Na hora em que Renan sentou na cadeira presidencial, os que se dizem “oposicionistas” deveriam sair unidos do plenário.

PS6 – Assim se saberia como votaram os 11 senadores do PSDB. Havia quase certeza de que votaram em Renan, mas seriam identificados se saíssem ou se ficassem. O PSDB não é mesmo de oposição, está aí o governo Dilma que não deixa o PSDB mentir.

PS7 – A entrevista do candidato Pedro Taques foi muito mais importante do que seu discurso de candidato. Falou no “silêncio dos covardes”, deveria ter dito isso no plenário.

PS8 – Perguntinha ingênua, inócua, inútil: Se Renan for condenado pelo Supremo e tiver que renunciar novamente, mais tarde poderá disputar a presidência do Senado pela quarta vez?

PS9 – Confissão do senador Jader Barbalho (PMDB-PA), enquanto abraçava efusivamente Renan: “Quero ser o teu sucessor nessa presidência. Tenho as mesmas credenciais que você, renunciei à presidência, mas perdi o mandato. Este já recuperei, quero recuperar a presidência.”

PS10 – Hoje estará consumada a farsa da democracia, com a eleição de Henrique Eduardo Alves para a presidência da Câmara. Vai demorar muito mais, só deverá terminar à noite. O voto também é secreto (?) e poderá haver segundo turno. São 513 deputados, seis vezes e meia o número de senadores. Mas desperdício de tempo na votação e na apuração.

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