Pesquisas: confiar desconfiando

Carlos Chagas

Com todo o respeito e as devidas escusas, mas é melhor seguir os conselhos de Floriano Peixoto e “confiar desconfiando”. Fala-se do resultado das duas recentes pesquisas sobre o segundo turno das eleições, apresentado pelo Ibope e a Datafolha. Tem-se a impressão de que os dois institutos não quiseram comprometer-se nem correr riscos, evitando repetir o vexame do primeiro turno.

Nada melhor para escapulir de outra arapuca do que concluir pelo empate técnico e empurrar com a barriga a hipótese de novos erros. Assim, os números coincidiram milimetricamente: 51 a 49. Caso as urnas falem outra linguagem, pelo menos até a eleição os institutos estarão preservados. Claro que a disputa pode estar mesmo empatada, mas se não estiver, só saberemos dia 26. Mesmo nessa hipótese, sempre haverá a desculpa de que o eleitorado só se decidiu na hora extrema ou de que o povo mudou. Não serão deixados, porém, rastros de outros erros.

A verdade é que pesquisa é pesquisa. Não ganha eleição. Ainda mais quando fica impossível esquecer as lambanças do primeiro turno, que não vale à pena lembrar, no mínimo por uma questão de caridade. De qualquer forma, estamos vivendo o fim do ciclo da ditadura dos institutos. Menos porque eles faturaram dezenas de milhões de reais, até agora, mais porque sempre será uma temeridade atribuir a cinco ou dez mil consultados a opção de 143 milhões. Para as próximas eleições, será preciso reformular métodos e meios de aferição da vontade popular. Por enquanto, só temos os atuais institutos para tentar vislumbrar o futuro. Devemos considerar seus números, na falta de outros instrumentos, mas sabendo que a verdadeira pesquisa verifica-se apenas no dia da eleição. Ninguém garante que Dilma ou Aécio não estejam desde já com percentuais muito maiores do que os divulgados. Só saberemos daqui a dez dias.

APENAS UM BLOCO DE MÁRMORE

Vamos imaginar um bloco de mármore, daqueles bem grandes que são tirados das jazidas e levados para uma oficina. Será apenas um bloco de mármore antes que o escultor comece a manobrar martelo, formão e cinzel. De lá poderá sair o David, se Michelangelo estiver por perto, ou a Venus de Milo, no caso de Fídias. Por enquanto sem forma alguma, mas quem negará que aquelas duas maravilhas da escultura universal já não estavam lá dentro do bloco de mármore, à espera de quem as revelasse? Ou, em se tratando de aprendizes incompetentes, que nada sairá senão pedaços informes da pedra?

Assim também a sucessão presidencial. São tantas as promessas de Dilma e de Aécio, mas ambos ainda estão diante de um bloco de mármore, no caso, o Brasil. Caberá ao vencedor dar forma real aos seus discursos, mas estarão eles inspirados por Fídias ou Michelangelo?

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