Petrobras é o maior desafio desde o fim do regime militar

Kenneth Maxwell

A crise cada vez mais intensa na Petrobras, a detenção de executivos de empreiteiras, alegações de desfalques para ganho pessoal, propinas pagas por contratos superfaturados e a acusação de que isso envolveu pagamento de comissões a políticos brasileiros, entre os quais congressistas, governadores e ministros, bem como a partidos políticos, remetem ao eixo central da corrupção brasileira. É um escândalo de implicações espantosas e representa o maior desafio para a elite econômica e judicial brasileira desde o final do governo militar.

Paulo Roberto Costa acusou mais de 40 políticos de envolvimento em um esquema de comissões envolvendo sobretaxa de 3% sobre o valor dos contratos. Em companhia de Alberto Youssef, ele aparentemente fechou um acordo de admissão de culpa em troca de leniência. Dilma Rousseff declarou na Austrália que “isso pode mudar o país para sempre”. Ela acrescentou que o caso “acabaria com a impunidade”. Mas entre 2003 e 2010, Dilma foi presidente do Conselho da Petrobras. Também foi ministra da Energia. E é famosa pelo detalhismo de sua gestão.

Se isso fosse apenas uma questão brasileira, o escândalo poderia ser contido. Mas não é. A Petrobras é responsável por um quarto dos títulos brasileiros denominados em dólares e tem ADRs cotados na Bolsa de Nova York. A empresa está sendo investigada pela SEC (Securities and Exchange Commission) e pelo Departamento de Justiça dos EUA. Entre as revelações feitas por Edward Snowden estava o fato de que os EUA espionavam a Petrobras. A SBM, da Holanda, já encerrou por acordo um caso de suborno envolvendo Brasil, Angola e países da África, pagando US$ 240 milhões.

PAULO FRANCIS

Lamento jamais ter conhecido Paulo Francis. Elio Gaspari queria organizar um almoço para que nos conhecêssemos, mas o encontro acabou não saindo. Francis foi vilipendiado por “falar a verdade aos poderosos” no programa “Manhattan Connection”, quando disse que “todos os diretores da Petrobras têm contas na Suíça”. Os agentes da Petrobras perseguiram Francis com um processo judicial milionário, até sua morte prematura por ataque cardíaco em 1997.

Paulo Francis sem dúvida teria ficado muito satisfeito com as denúncias de Costa. Mas não tenha dúvida de que as forças em torno da Petrobras, das empreiteiras e dos políticos não são menos formidáveis hoje do que em 1997. A Petrobras é um pilar da economia brasileira: orgulho nacionalista; patrocínios culturais e acadêmicos; 67 mil empregos; e bilhões de dólares em investimento estão envolvidos, bem como as reputações de membros da elite brasileira. Será preciso mais do que a ação corajosa de uns poucos procuradores para deslindar essa trama.

(artigo enviado por Carlo Germani)

10 thoughts on “Petrobras é o maior desafio desde o fim do regime militar

  1. Belo artigo. A nação deve muito ao juiz Moro, pois a Petrobras, por causa da Lei das S/As, pois essa permite apenas que as polícias estaduais investiguem a companhia . Quando o Youssef foi preso por evasão de divisas (crime federal), o Dr. Moro conseguiu ‘interligar’ o caso e ‘federalizar’ a questão. Como cidadão agradeço muito a coragem, integridade e competência do magistrado.

  2. Virgílio, sem dúvidas, o Dr. Moro tem assumido um papel importante no caso
    da corrupção da Petrobrás. Agora, a Presidente Dilma, depois de desvendado o crime contra a Petrobrás, antes e depois do seu governo, vem dizendo em punir
    os corruptos, doa a quem doer. Para haver uma punição ampla, geral e irrestrita,
    o PT e todos os partidos que receberam dinheiro sujo para as campanhas eleitorais,
    deveriam devolver aos cofres públicos e não apenas os empresários, que erradamente
    aceitaram dar comissões para ter direito de fazer uma determinada obra.

    • O Prof. Ildo Sauer diz que é uma piada dizer que a Dilma não sabia. Tem toda a razão, a CVM condenou em 2009, o Paulo Costa entre outras coisa a dar um Workshop sobre as irregularidades que já ocorriam nas refinarias. Será que além de não ler ela não escuta?

  3. Dizem que castigo, não tem dia e nem hora marcado.

    Sei não…
    Não faz parte da minha crença, mas nesse rolo todo, por outras caminhos, ter baixado para fazer justiça, o fantasma do Paulo Francis.

    Se vivo, Nelson Rodrigues apoiaria a possibilidade, batizando-a de “sobrenatural do Francis…”

  4. O ditador ernesto geisel impôs que a Petrobras adotasse os contratos de risco. para abrir a exploração de petróleo para as empresas estrangeiras. de 1977 a 1988 as multinacionais investiram US$ 350 milhões enquanto a Petrobras US$ 26 bilhões. As multi perfuraram 205 poços enquanto a Petrobras 9770. Neste período, a Petrobras elevou sua produção de 169 mil barris para 700 mil barris. Multinacionais como a Shell, Britsh Petroleum, Chevron não encontraram petróleo, mas a Petrobras encontrou os poços de Marlim,Albacora e barracuda , na bacia de campos , investiu US$ 250 milhões para um volume de óleo descoberto da ordem de 5 bilhões de barris. Cada barril saiu a US$ 0,05. Que lucro !

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