PGR (sem Aras) acelera a queda de Bolsonaro e governo entra em sua fase final

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

Assinado pelo vice-procurador geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, a PGR, respondendo a um despacho da ministra Rosa Weber, formalizou o pedido de inquérito contra o presidente Jair Bolsonaro, acusando-o de prevaricação, principalmente por não ter tomado medida alguma sobre a denúncia do servidor Luis Ricardo Miranda e do seu irmão, o deputado Luis Miranda, sobre um projeto de corrupção praticado pelo então diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias.

Segundo a denúncia, Ferreira Dias  propôs cobrar uma comissão ilegal na base de US$ 1 de propina para cada dose da vacina Coxavin negociada da Índia destinada, segundo o intermediário Luiz Paulo Dominguetti, a um total de 400 milhões de vacinas ao preço de US$ 15 cada.

EXAGERO – O preço da unidade estava em US$ 15, muito superior ao dos demais laboratórios fabricantes. A proposta foi considerada como um exagero na medida em que prometia um fornecimento de 400 milhões de doses da Astrazeneca para o Ministério da Saúde.

Os leitores deste site provavelmente se perguntam qual o motivo que levou o vice-procurador geral, Humberto Jacques de Medeiros, a se dirigir a ministra Rosa Weber, substituindo assim o procurador-geral Augusto Aras, cujo silêncio foi interpretado como uma fuga da responsabilidade do ato que levará à investigação do presidente da República e, por extensão, vários assessores do Palácio do Planalto.

O ato de Humberto Jacques de Medeiros sintetizou, praticamente, uma revolta dos procuradores contra o procurador-geral, Augusto Aras, aliado do presidente da República, e que temeu se deslocar para uma posição incômoda que o excluiria tanto de investidura em mais dois anos na Presidência da PGR como de sua indicação à vaga de Marco Aurélio Mello, no Supremo tribunal Federal.

RESISTÊNCIA –  Não conseguindo conter o movimento da maioria do Ministério Público Federal, Aras dificilmente poderá ser nomeado para a Corte Suprema. Por falar na vaga de Marco Aurélio, o outro candidato, André Mendonça, já está enfrentando resistências prévias por parte do Senado e também pela maioria do próprio STF. Mas a nomeação para o STF é outro assunto.

A ministra Rosa Weber, que havia cobrado uma ação concreta da PGR, acolheu o tema e estabeleceu a investigação de Bolsonaro no caso das suspeitas do jogo de interesses e de corrupção sobre o episódio Coxavin e Ferreira Dias, cuja conexão transformou-se em um escândalo colossal.

O Globo, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo tiveram como manchete principal nas edições de ontem a investigação contra Bolsonaro autorizada por Rosa Weber. No O Globo, a reportagem foi de Leandro Prazeres e Mariana Muniz. Na Folha de São Paulo de Matheus Teixeira. No Estado de São Paulo a matéria foi produzida por uma equipe integrada por Pepita Ortega, Rayssa Motta, Weslley Galzo, Daniel Weterman, Matheus Lara e Marcelo de Moraes.

FASE FINAL – O presidente Jair Bolsonaro que já se encontrava em queda livre assume de forma bastante nítida o seu ingresso na fase final de um governo acionado por suas próprias atitudes ao lado de erros e das omissões gigantescas de parte do Palácio do Planalto cuja constelação teve suas faces atingidas, causando também uma sucessão de fatos que conduziram o país a uma total perplexidade.

O governo está em um abismo que separa de um lado o bom senso e de outro o delírio de poder e o desprezo pelo eleitorado que o levou à vitória de 2018 e que não consegue visualizar a enorme dualidade entre o candidato buscando votos e o presidente da República tentando apoios pouco legítimos.

Inúmeros pedidos de impeachment encontram-se engavetados na mesa do deputado Arthur Lira, presidente da Câmara Federal. Agora, entretanto, representantes da oposição e eleitores arrependidos de Bolsonaro ingressaram com um super pedido de impedimento numa tentativa clara de deslocar para o STF a questão envolvendo a inércia proposital da Mesa Diretora da Câmara.

LEGITIMIDADE – A esse respeito Hélio Schwartsman, Folha de São Paulo deste sábado, escreveu um artigo muito importante no qual coloca no debate a legitimidade ou não de um requerimento encaminhado no final da última semana reivindicando o desarquivamento dos pedidos contra Bolsonaro, cujo número vinha aumentando acentuadamente. São 120 requerimentos, todos eles pelo afastamento do presidente da República.

Hélio Schwartsman coloca bem a questão ao dizer que se a legislação prevê a hipótese do plenário de uma das casas do Congresso decidir pela colocação em pauta do impeachment, ele, o requerimento, terá que ser logicamente debatido, pois se assim não fosse, inclusive sob o ângulo constitucional, não seria possível o plenário derrubar o despacho do presidente da Casa.

PREVARICAÇÃO –  Numa entrevista de página inteira à Julia Lindner e Natália Portinari, O Globo de ontem, o presidente da CPI da pandemia sustenta que diante dos fatos que vieram já vieram à tona, qualquer servidor público diria que Jair Bolsonaro prevaricou na medida em que não tomou nenhuma atitude diante da denúncia recebida pelo deputado Luis Miranda e pelo seu irmão, Luis Ricardo Miranda, formalizada no dia 20 de março.

Omar Aziz destaca a sua surpresa com o fato de servidores de alta categoria aceitarem jantar com Dominguetti para conversar sobre compras de vacinas sem nunca o terem visto na vida. Esta é a indagação que a opinião pública brasileira está fazendo, pois se trata de um episódio de um absurdo completo.

PROCESSOS – Dominguetti é cabo da Policia Militar de MInas Gerais e responde a 36 processos  administrativos e militares junto à corporação. Além do mais, está sendo cobrado pela aquisição de um automóvel e não ter pago as prestações devidas. O senador Tasso Jereissati, como a Globo News exibiu na sexta-feira, demonstrou-se surpreendido com a participação de um intermediário, não especialista na matéria.

O governo Bolsonaro, portanto, está ingressando em seu capítulo final, transformando-se no maior líder da oposição a seu próprio governo, comandando paralelamente uma corrente negacionista que atinge em cheio a população brasileira.  

15 thoughts on “PGR (sem Aras) acelera a queda de Bolsonaro e governo entra em sua fase final

  1. Li a opinião de um célebre jusrista, onde ele afirmava que apenas o procurador-geral teria poderes para oferecer denúncia contra o presidente da República. Em caso de negativa ou assertiva está hipótese, duas suspeitas rondam tal encaminhamento:
    1- Teria sido um procedimento errôneo, premeditadamente, tramado por Augusto Aras, para depois ser julgado ilegal.
    2- Aras, pressionado pelos colegas do MPF, e sentindo suas chances de ser indicado ao STF, minguantes; ele teria passado a bola para o vice-procurador

    • O procurador Geral, do governo FHC doutor Geraldo Brindeiro chamado de Engavetador Geral na época, foi suplantado em muito pelo atual, que em relação aquele parece brincadeira de criança

  2. Paulo III bom dia.
    Seja como for, este governo está tão apodrecido e cheira tão mal, nacional ou internacionalmente, que já passou da hora de ir para o aterro sanitário, a bem do nosso querido Brasil.

  3. Bom dia, Pedro Couto!
    A prevaricação do Bolsonaro é clara. Na condição de Presidente da República, chefe do Executivo Federal, não levou ao conhecimento de quem deveria os fatos que lhe deram conhecimento.
    * ao contrário de quando se sente ofendido, ou sua família, ou quer atacar adversários, rapidamente pedindo à AGU e ao seu Ministro da Justiça que provocasse a instauração de inquérito, portanto, fazendo uso das instituições quando lhe convém.

  4. Minha opinião pode ser até contraditória porém pela minha experiência da vida política
    brasileira declaro: Nunca tivemos um presidente tão incapaz sob todos os aspectos.
    Porém transformar suas falas, suas atitudes, seu jeito miliciano de agir em crime é golpe.
    Para o impeachment de Collor foi inventado a “Casa da Dinda”. O cara saiu e o brasileiro continuou votando quem a Globo promovia.
    Para detonar a Dilma inventaram as “Pedaladas Fiscais”. O traíra Temer resolveu alguma coisa?
    Para alugar Lula inventaram o Triplex. Moro recebeu até título de Cidadão que faz a diferença da Globo.
    E agora estamos chorando derrotas dos mortos, dos famintos, de falência, etc.
    Conclusão: Golpes só causam mais desgraça. Temos que atingir a maioridade cívica. Aprender a escolher os melhores. Saber que há oportunistas. Entender que governar é uma atividade coletiva e não de aventureiros.

  5. Tirar Bolsonaro não é golpe sob todos os aspectos de suas condutas praticadas. A começar a apropriação da coisa pública, uso indevido do serviço das instituições para fins de representação de assuntos pessoais seus e de seu grupo. Deveria ter tido o celular apreendido naquela ocasião.

  6. Em sua grande maioria, as críticas ao Presidente Bolsonaro, aqui na Tribuna da Internet, são verdadeiros devaneios.

    Senhores, faz tempo que o escritor C.S. Lewis recomendou a quem lida com as palavras que se abstivessem de escrever sobre aquilo que se odeia.

  7. No jornal O Globo, de ontem, no Segundo Caderno duas reportagens de dois renomados senhores de oitenta anos. Ruan de Souza Grabiel entrevista o roteirista e crítico de cinema Jean Cloude Bernardet(85 anos) e Gustavo Cunha entrevista o Diretor de Teatro Amir Haddad (84 anos).
    Jean tomou as duas doses da vacina e ainda assim foi contaminado pela Covid. Ele conta, que decidiu não tratar um tumor na próstata: a idade, a cegueira, a agressividade do tratamento e os efeitos colaterais, foram os motivos. Bernardet também crítica os hospitais privados, a indústria farmacêutica, os Planos de Saúde, os médicos, que na sua ótica se interessam mais pelos lucros do que o bem estar e a autonomia do paciente. Diz ele: ” o que vai me matar não é a doença, é a rede que está se fechando em volta de mim”.
    A respeito do diretor Amir, ele ressalva que vive em ereção permanente. Remonta ao seu pai, que dizia para ele: ” não preciso trepar todo dia, mas tenho que ter tesão diariamente”. Amir Haddad fala que usa os olhos para desnudar as pessoas bonitas que passam perto dele na rua. É casado com a professora Helena há mais de 40 anos. No entanto, entende que o sexo é essencial para a a vida.
    Sobre o trabalho de Diretor, Amir se dedica a desmontar a couraça afetiva que todo ser humano carrega e ele explica:
    ” Nós temos uma persona, uma imagem… Você fala comigo dentro de uma personagem que criou para se relacionar com o mundo”.
    No fundo, o que ele quer dizer, é que os atores têm uma máscara e nós também. O seu trabalho é quebrar essa máscara, quebrar a persona, senão o teatro será ruim. Segundo o diretor, não podemos querer fazer mentiras parecerem verdades. A base tem que ser a Verdade.
    Nesse momento de trevas, ouvir a voz da experiência, dos que passaram dos oitenta e estão aí no mundo pensando, criando e trabalhando é uma dádiva divina.
    Vamos em frente sem esmorecer jamais e com esperança no futuro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *