PIRASSUNUNGA, 31 DE AGOSTO DE 1967. Carta ao General Aragão (da ativa, 4 estrelas). Respondendo ao artigo contra mim em “O Globo”, com o título: “Afastai-vos do Exército”. Só podia ser mesmo no balcão do “Globo”.

Infelizmente não conheço suas credenciais militares nem a sua fé de ofício profissional. Mas como estrategista político e jornalístico, o senhor é realmente genial: atacou precisamente no momento em que o inimigo, amordaçado, sequestrado, desterrado, não tinha nenhuma possibilidade de se defender publicamente.

O senhor conseguiu o que acredito, seja o sonho e objetivo de todo grande general, de Eisenhower a Guderian, de Rommell a Zukov: desfechar o ataque sabendo previamente que o inimigo estava imobilizado. E o senhor conseguiu isso com uma fórmula tão simples que deve patenteá-la e resguardá-la para novas oportunidades: uma intriga torpe e torturadora antes, um artigo monótono e pretensamente revoltado depois.

Acho apenas que, como estrategista e moralista, o senhor cometeu um tremendo equívoco: pretendendo defender princípios éticos e morais, dirigiu-se à opinião pública através de “O Globo”, o jornal mais corrupto do país, de propriedade do maior traidor de interesses nacionais que este país já conheceu, o Sr. Roberto Marinho, que não teve outro jeito senão confessar na Comissão que investigou o caso Time-Life que recebeu mais de 7 milhões de dólares para trair o país.

“O Globo” não chega a ser um jornal, é um balcão onde se vende tudo, a retalho e por atacado, onde o Sr. João Goulart era chamado de estadista quando estava no Poder e podia distribuir favores, e hoje é chamado de canalha. Onde o Sr. Juscelino Kubitschek era o maior presidente vivo e hoje é vilmente insultado. Até mesmo o senhor será capaz de compreender que não fica bem a um general escrever num jornal cujas convicções se medem ou se pesam apenas pelo volume de dinheiro que se ofereça para satisfazer as ambições argentárias do Sr. Roberto Marinho.

Não li seu artigo por dois motivos principais. 1 – Que “O Globo” não chega a Pirassununga (veja que terra altiva e de bom gosto) e como desterrado não poderia sair por aí procurando o jornal. 2 – Que mesmo em épocas de liberdade e quando a democracia não está ameaçada por ambições de alguns generais vaidosos, ainda assim não leio “O Globo”, por nojo, por desinteresse (apesar de todo o dinheiro que recebe de grupos estrangeiros, “O Globo” é um dos piores jornais do Brasil) e por constrangimento que alguém me veja lendo semelhante “jornal”.

Mas não preciso saber dos detalhes para respondê-lo, pois o essencial do artigo está no título que o senhor lhe deu: “Afastai-vos do Exército”. E é apenas a esse ponto que desejo mesmo responder, pois as injúrias não me atingem, já que reconheço que elas são necessárias nessa batalha de ambição em que o senhor está empenhado. E naturalmente, o senhor há de acreditar que quanto mais me injuriar, mais estará capitalizando nesse verdadeiro pau de sebo que é a luta política para ver quem se aproveita mais da herança do ex-presidente falecido. Como não disputo nenhuma herança, como a minha vida é dura e sofrida, desde os 10 anos quando fiquei órfão de pai e mãe, suas injúrias não me atingem e não vou perder tempo em revidá-las. Vamos, portanto ao essencial.

Mas antes permita que eu manifeste a minha quase timidez e constrangimento ao me dirigir a um homem de tanto talento quanto o senhor, de tão poderosa inteligência, de tão notáveis e reconhecidos dotes intelectuais. Mas mesmo com todo esse constrangimento, não posso deixar seu artigo sem resposta, mesmo porque, acredito que um polemista e um guerreiro do seu porte não se sinta bem combatendo sozinho.

1 – Faltou um esclarecimento ao título e suponho que também ao conteúdo do artigo. De qual Exército quer o Sr. que eu me afaste. Daquele Exército que condecorou um simples capanga (falo naturalmente do “tenente” Gregório) com uma das mais altas condecorações militares, (entregue a ele pelo próprio Ministro da Guerra da época, com a presença de inúmeros oficiais superiores) presenteada também a outras personalidades iguais?

Se é desse Exército, o senhor perdeu o seu tempo, pois jamais me aproximei dele, e nessa época, eu o Sr. Carlos Lacerda éramos praticamente os únicos que combatíamos essa ignomínia e verberávamos esse estado de coisas. O senhor naturalmente estava preso ao respeito à disciplina e à hierarquia, disciplina e hierarquia que o senhor parece manejar mais à vontade do que a palavra escrita: se acomoda a ela quando isso serve aos seus interesses, desrespeita-a quando isso serve à sua ambição.

2 – Se o senhor quer que eu me afaste daquele Exército dominado pelos antigos generais do povo, perdeu seu tempo novamente. Pois quando eles eram poderosos de verdade, eu fui o único a enfrentá-los, e por causa disso, fui também o único civil preso no governo João Goulart.

Enquanto estava preso, fui interrogado precisamente por um desses generais do povo, que queria me intimidar de todas as maneiras. Enquanto eu os enfrentava, o senhor lhes fazia continência (eu sei, os Regulamentos) e o Sr. Roberto Marinho frequentava tanto o Palácio para conversar com o Sr. João Goulart, que o Sr. Leonel Brizola (que o senhor deve conhecer pelo menos de nome) declarou certa vez na televisão, numa tirada não desprovida de humor, e fora de dúvida, rigorosamente verdadeira: “Não há uma só vez que eu vá ao Palácio Laranjeiras que não encontre o Sr. Roberto Marinho. Já não aguento mais ver a cara desse sujeito”.

Mas apesar de todas as pressões contra mim e contra o meu jornal, combati até o fim o governo João Goulart, enquanto “O Globo”, onde o senhor escreve e parece tão orgulhoso disso, continuava a chamar o Sr. João Goulart de estadista em editoriais e nas manchetes, até que derrubado ele, achou mais prudente chamar de estadistas os que o sucederam.

Também não me lembro, apesar de ter excelente memória, de ter lido nenhum artigo seu, fosse onde fosse, combatendo o governo do Sr. João Goulart. Mas é compreensível. A hierarquia e a disciplina o impediam. Eu que combati o Sr. João Goulart quando ele estava no Poder e era poderoso, tenho o direito de continuar a combatê-lo, coisa que outros não podem fazer, pois silenciaram quando ele era forte ou até se entenderam com ele, como conhecidos donos de jornais, que iam com ele conversar e se compor em casas de amigos em Petrópolis, e agora o chamam de canalha, quando ele está banido, derrotado e exilado. Confesso que ainda não entendi o seu malabarismo moral, pregando renovação de costumes e princípios éticos através de “O Globo”.

3 – Mas se o senhor quer que eu me afaste do verdadeiro Exército brasileiro, um Exército formado e forjado na base da tradição, de convicções e de vocação nacionalista, um Exército de nacionalistas por compromisso e de democratas por juramento, um Exército que fez a revolução precisamente para assegurar as eleições, pois estava convencido que o Sr. João Goulart não iria fazê-las, ainda aí o senhor perdeu o seu tempo novamente. Pois esse Exército não tem proprietários nem condôminos, não deu procuração a ninguém para dizer quem deve se afastar ou quem é que pode se aproximar dele.

4 – Num dos artigos, o senhor faz referência a heroísmo. Nessa matéria, me parece que o senhor está usando óculos bifocais com lentes trocadas. O verdadeiro heroísmo, General Aragão, não é físico, é cívico. Os fabulosos interesses internacionais não se resolvem mais nas guerras, como antigamente, e sim nas mesas das conferências internacionais, como acontece nesse momento em Londres, a Conferência do Café, quando pela primeira vez, embora timidamente, o Brasil defende seus legítimos interesses. E se decidem também, General, nas espantosas verbas que são gastas indistintamente pela União Soviética e pelos Estados Unidos, para a montagem, compra ou controle dos grandes órgãos de divulgação, com o único objetivo de entreter e mistificar a opinião pública. Precisamente como acontece com o órgão onde o senhor escreve, sentinela avançada no Brasil, dos mais poderosos interesses antinacionais.

5 – A última guerra total do nosso tempo, General, foi a de 1939. E a nossa geração (já nem falo da sua, pois sou muito mais moço) não verá nenhuma outra guerra como a de 1914 ou a de 1939. E pela razão muito simples de que isso não interessa à União Soviética e aos Estados Unidos.

As guerras agora, são como a do Vietnam, travadas apenas para enganar os tolos (civis e militares), fogo de artifício e divertimento para dar tempo às duas superpotências, de dividirem o mundo entre si, sem muito estremecimento e com o mínimo de hostilidade, para não despertar os países imbecis, como o nosso, “deitados eternamente em berço esplendido”, enquanto nos levam todas as riquezas e sugam todo o esforço do nosso trabalho.

6 – É por isso, General, que União Soviética e Estados Unidos não deixarão que ninguém penetre no santuário da energia nuclear, para que nenhum país subdesenvolvido possa se desenvolver. E falar em segurança nacional em país faminto e subdesenvolvido, é idiotice das maiores, e soviéticos e americanos sabem disso.

Só os povos desenvolvidos, General, podem falar em segurança nacional própria. Segurança nacional só pode existir com independência econômica, pois onde é que senhor já viu exércitos armados de bodoques e atiradeiras enfrentando exércitos munidos de armas nucleares ou outras, aperfeiçoadas e supermodernas?

7 – Heroísmo, General, é combater os poderosos grupos internacionais, os trustes que devoram tudo, pois as feridas que se obtêm nessa luta, são mais profundas, mais contundentes, rigorosamente irrecuperáveis. Na guerra convencional, os ferimentos são individuais, embora possam atingir muita gente. Na guerra de extermínio econômico não escapa ninguém, é toda a coletividade que é atingida, esmagando-a, triturando-a, condenando-a à miséria eterna e ao subdesenvolvimento definitivo.

8 – Escreva artigos violentos, General, defendendo o legítimo interesse nacional. Por exemplo, combata a intromissão da Hanna e de outras empresas estrangeiras na exploração do nosso minério. Combata a distribuição de gasolina por empresas estrangeiras (a Esso, a Shell etc.), quando essa distribuição, que é o filé mignon do negócio, poderia ser feita pela Petrobras. Combata os grandes frigoríficos estrangeiros, que fazem o querem no mercado brasileiro.

Apoie o Ministro Andreazza, que botou a mão num formigueiro perigosíssimo, que é a questão dos fretes internacionais, quando somos vilmente roubados. Combata os trustes estrangeiros de tecidos, os maiores do mundo, que ainda não asfixiaram a indústria nacional, porque felizmente nesse ramo, existem alguns homens de garra e de fibra que não se entregaram e lutam com armas desiguais, mais lutam.

Combata os tremendos monopólios farmacêuticos (uma das indústrias mais poderosas do mundo, que mesmo nos Estados Unidos constituem um estado dentro do outro) e que asfixiaram e liquidaram brutalmente a indústria brasileira desse ramo, que hoje é mais de 88 por cento estrangeira. Combata o vergonhoso acordo assinado entre Brasil e Estados Unidos sobre bitributação do imposto de renda, por onde se esvairão somas fabulosas, num assalto vergonhoso às nossas reservas.

Apoie a recente medida do Ministro Delfim Neto, sobre identificação de dólares, que vai poupar ao Brasil, por ano, centenas de milhões de dólares. Combata a vergonhosa autorização dada aos norte-americanos para fazer o levantamento aerofotogramétrico do Brasil, e que eles completam (mesmo sem autorização) com aparelhos eletrônicos moderníssimos para fazer ao mesmo tempo o levantamento do nosso subsolo.

9 – Como vê, General,  se o senhor quer combater, e como não haverá mais guerra convencional, aproveite a sugestão e comece a liquidar esses poderosos grupos. Desenvolvimento e independência econômica, General (coisas que não se separam nunca), só serão possíveis no dia em que os 85 milhões de brasileiros deixarem de ser miseráveis e se transformarem em compradores dos nossos próprios produtos.

Combater um simples jornalista e deixando de lado todos esses poderosos interesses, usar um jornalista desterrado como trampolim para satisfazer as suas ambições, não tem gloria nenhuma. Sem contar que eu não tenho medo desses arreganhos, nem do senhor nem de ninguém. Como o Brasil não vai participar de nenhuma guerra, General, use as armas que a Nação lhe confiou, não para ameaçar um jornalista e intimidar todos os outros, não para coagir a Nação, mas para defendê-la de quem lhe rouba todo o esforço do seu trabalho, que são os trustes estrangeiros.

10 – Se o senhor fizer isso, comprometo-me a chamá-lo de herói em praça pública, ou até a ir visitá-lo em Fernando de Noronha, pois é possível que o senhor não seja desterrado, mas que uma tempestade cairá em cima do senhor, não tenha dúvida. Sem falar que na hora em que o senhor começar a atacar a Esso, a Hanna, os laboratórios, os grandes frigoríficos, todos esses fabulosos interesses, o Sr. Roberto Marinho não publicará mais os seus artigos, por exigência dos patrões. Experimente só.

***

PS – Creia que não lhe tenho ódio ou ressentimento, pois o Sr. não tem a menor importância para mim. Lamento apenas que o Sr. gaste tanta bravura para uma causa inglória.

PS2 – Finalmente, General, mil desculpas por não ter respondido antes seu artigo. Na verdade, respondi 48 horas depois dele ter sido publicado e chegou ao meu conhecimento.

PS3 – Mas a carta extraviou-se (tenho o recibo em meu poder) e tive que esperar um portador que viesse a Pirassununga para enviá-la a minha mulher, que mandou entregá-la em sua casa.

PS4 – Como esta carta não é particular, o senhor poderá publicá-la no mesmo local em que publicou o artigo contra mim. Que é na certa o que acontecerá. Não é à toa que estou me dirigindo a um professor de ética.

PS5 – O que não consegui entender, General, foi a sua bravura e altivo comportamento. Abriu, leu a carta, se irritou, fechou-a e devolveu para minha casa. Não conseguiu fechá-la devidamente, e da sua própria casa, contaram a sua raiva e revolta com a minha resposta. Como General (da ativa), pensou (?) que a última palavra fosse sua?

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