Plano Collor, abismo para assalariados, paraíso para os bancos

Pedro do Coutto

Reportagem de Toni Sciareta, Folha de São Paulo de 17, informa que termina no final deste mês o prazo para que os titulares das cadernetas de poupança ingressem com ações na justiça para tentar reaver o rombo causado pelo Plano Collor. Scarieta refere-se especificamente ao Collor 2, no valor de 21%, diferença na realidade subtraída das contas de poupança e também do FGTS.

Com base em liminar – sempre as liminares – do ministro Antonio Dias Tofoly, o STF suspendeu a cobrança das diferenças dos Planos Bresser, Verão, de Mailson da Nóbrega e Collor1. Resta o Collor 2, cuja prescrição transcorre a 31 deste mês, vinte anos depois de mais este corte draconiano. Vinte anos depois, como no romance da Alexandre Dumas pai, continuação no tempo do clássico Os Três Mosqueteiros, agora reeditado em Paris, duzentos anos após a morte do eterno autor.

Os prejuízos de todos esses planos citados são incomensuráveis. E devem incluir as diferenças do FGTS, igualmente atingido por um congelamento que criou um abismo para os valores do trabalho e, ao mesmo tempo, é claro, um paraíso para os bancos e banqueiros. Isso porque, na verdade, não pode existir débito sem crédito e vice versa. Se alguém perdeu, alguém ganhou.

Se o dinheiro, de forma indireta saiu das contas dos trabalhadores, é porque foi parar nos cofres de capitalistas. Não há como escapar desta dualidade. Exceção nas guerras quando explodem bombas que só destroem. Nos demais casos, verifica-se um movimento pendular. O Plano Collor 2, mais um assalto à propriedade dos assalariados, não deve ser visto como fenômeno isolado. Existe um roubo muito maior em torno do conjunto de cortes. Roubo irrecuperável.

Basta colocar o seguinte: através da ministra Zélia Cardoso de Melo, o desgoverno Fernando Collor, Paulo Cesar Farias à  frente, congelou os ativos financeiros pelo período de dezoito meses. Cadernetas de Poupança, Fundo de Investimentos, FGTS. Nesses dezoito meses, quem quiser consulte a memória inflacionária registrada pelo IBGE, a inflação atingiu 1246 por cento. Em seguida a esse ano e meio, foi iniciada a devolução dos valores ao longo de doze meses.

O valor mensal de cada um desses meses foi corrigido corretamente. Mas os dezoito meses não. Para um índice de 1246%, o defletor utilizado ficou restrito praticamente à metade, algo em torno de pouco menos que 620%.
Assim, por exemplo, quem possuia 200 mil reais numa conta de poupança passou a possuir apenas 50%.

Como na época não existia uma cultura de análise financeira comparativa à inflação oficial, milhões de brasileiros foram assaltados e não se deram conta. Hoje isso não ocorreria, mas aconteceu antes. O lucro cessante decorrente da expropriação inegável é difícil de calcular e de projetar na realidade de cada um. Surpreendente que o Ministério Público Federel não tenha entrado com uma ação regressiva de posse com base na diferença real do assalto praticado por intermédio de um deflator muito baixo do valor real da perda. A diferença foi para o planeta dos banqueiros.

A CUT poderia ter ajuizado uma ação relativa ao FGTS, igualmente vítima de expropriação por parte priemrio pelo governo Collor. Depois através da omissão de todos os governantes que se sucederam, a começar pelo de Itamar Franco, a quem o tema não foi levado, passando pelo de FHC, culminando no governo Lula. A exemplo dos naufrágios, os tesouros saqueados dos trabalhadores e servidores públicos dormem no fundo do oceano da omissão. Para sempre. Agora é tarde demais para recuperá-los.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *