PMDB – imposio, submisso ou papelo?

Carlos Chagas

Caso no se registre um adiamento, o PMDB rene sua conveno nacional no sbado, formalmente para reeleger Michel Temer seu presidente. Conforme a cpula do partido, todos os demais assuntos esto proibidos, ou seja, os convencionais no se manifestaro sobre o apoio candidatura de Dilma Rousseff ou pela candidatura prpria presidncia da Repblica. Apenas estaro mandando um recado sutil ao presidente Lula. No caso, de que Temer o indicado para companheiro de chapa da candidata, numa aliana que s ser formalizada depois da aceitao do nome do presidente do partido e da Cmara dos Deputados. Essa a imposio.

Na verdade, os cardeais do PMDB esto prontos para a submisso, que ser o engajamento da legenda na candidatura Dilma, desde que tenha Temer de vice. Tudo o mais ser aceito, como as decises de Lula a respeito das candidaturas comuns com o PT, nos estados.

O papelo acontecer simultaneamente quando, utilizando seus controles sobre a conveno, os dirigentes do PMDB abafarem a voz dos que defendem a indicao do governador Roberto Requio presidncia da Repblica.

O problema que tudo poder dar errado nesse planejamento. O governador do Rio, Srgio Cabral, muito mais lulista do que peemedebista, bem capaz de insurgir-se contra a candidatura nica de Michel Temer a vice, trabalhando em favor da inusitada lista trplice que o presidente Lula props, precisamente para queimar o presidente do partido. Cabral se juntaria, ainda que momentaneamente, aos defensores da candidatura prpria, negando maioria reconduo de Temer.

Tambm provvel que o presidente de honra do PMDB, Paes de Andrade, questione a proibio do debate de outros temas, apresentando moo em favor da candidatura prpria. Com ele estariam pelo menos doze diretrios estaduais, entre eles do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, Paran e So Paulo, sem falar no Rio de Janeiro.

Em suma, poder ser afastada a sombra da imposio, tanto quanto da submisso. Agora, papelo, o PMDB far de qualquer jeito. A resistncia do presidente Lula em aceitar a indicao de Temer para vice tem razes bem mais profundas do que na falta de liderana popular do deputado por So Paulo.

A derradeira mensagem

Reabrem-se amanh os trabalhos do Congresso, ignorando-se apenas se a rotina ser cumprida, ou seja, se ser a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, quem levar ao senador Jos Sarney cpia da mensagem do presidente Lula aos parlamentares. Tem sido assim h dcadas. Portadores j foram Golbery do Couto e Silva, Leito de Abreu, Jos Hugo Castelo Branco, Marco Maciel, Ronaldo Costa Couto e os chefes da Casa Civil ou Secretrios Gerais de Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique e agora do Lula. Ontem, ainda havia hesitao no palcio do Planalto a respeito do comparecimento de Dilma. Aplaudida ela seria, mas se fosse tambm apupada, qual o resultado final? Um tucano aloprado que puxasse vaias atingiria a candidata, qual faltaria sangue frio para absorver em silncio a provocao?

Quanto ao contedo da mensagem, nenhuma novidade: uma prestao de contas, a ltima, relacionando realizaes feitas e propostas a fazer no ltimo ano de mandato do presidente Lula.

Educao obrigatria

Frederico Guilherme, imperador da Prssia, pai de Frederico, o Grande, baixou decreto em 1722: a educao seria compulsria em seu imprio, cada parquia deveria manter escolas primrias e secundrias gratuitas para todos os meninos e jovens.

Algum tempo depois, do outro lado do mundo, o Imperador do Japo concedeu aos mal-pagos professores das ilhas ttulos de nobreza e vultosas receitas, cujos efeitos se fariam sentir com o passar do tempo.

No foi por coincidncia que Japo e Alemanha colheram os frutos desses investimentos, para o mal e para o bem, porque depois de dominarem o mundo, perderam a guerra mas foram as primeiras naes a recuperar-se.

A histria se conta a propsito de estar o Brasil sendo celebrado como uma das grandes potncias emergentes, prximo de igualar-se s naes mais ricas. Mas com montes de crianas fora da escola e professores mal pagos, no ser uma iluso?

Jobim na encruzilhada

Nelson Jobim custou a aceitar o convite do presidente Lula para assumir o ministrio da Defesa. S o fez em termos de salvao nacional. Justia se faa, de tantos antecessores, o que melhor se enquadra na funo, por isso mesmo o mais elogiado pelos oficiais-generais das trs foras. Claro que de vez em quando escorrega, ao menos para quem est de fora, quando bissextamente aparece fardado de rambo. Sero coisas que vem da infncia.

A pergunta que se faz se o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e ex-ministro da Justia pretende encerrar sua vida pblica no ministrio da Defesa. Tendo retornado ao PMDB depois do interregno judicirio, imaginou-se que se candidataria ao Congresso ou at a patamar superior, mas, pelo jeito, resta-lhe concorrer a uma cadeira na Cmara dos Deputados. No vai dar para disputar o Senado, pelo Rio Grande do Sul. Decidir at o final de maro.

Caso Jobim deixe o ministrio, abre-se a pergunta: quem o presidente Lula nomear para uma das mais delicadas funes de seu governo, mesmo com prazo fixo de nove meses? Dificilmente ser um militar. At agora, desde a criao do ministrio, todos os seus ocupantes foram civis. Um nome ouvido nos corredores do poder o do ministro recm aposentado do Superior Tribunal Militar, Flvio Bierremback. Ex-vereador, deputado estadual e deputado federal pelo ento MDB, destacou-se como advogado defensor dos direitos humanos, em So Paulo. Mas sustenta que a lei da Anistia jamais poder ser revogada. Tratou-se de uma deciso inabalvel que permitiu a transio democrtica sem maiores percalos.

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