Políciais federais dizem que o ex-ministro Cardozo precisa ser investigado

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Boudens, da Federação, exige apuração do caso

Azelma Rodrigues, Hamilton Ferrari e Natália Lambert
Correio Braziliense

As revelações feitas em delação premiada pelos marqueteiros João Santana e Mônica Moura tiveram forte repercussão em entidades representativas da Polícia Federal. “Esse vazamento precisa ser investigado”, afirma o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), Luis Boudens, que defende a abertura de processo específico para apurar comportamento do ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que passou informações antecipadas à então presidente Dilma Rousseff, que teria avisado o marqueteiro João Santana sobre o pedido de prisão dele.

“Já havíamos alertado sobre ações de Cardozo à época, que convergem para esse tipo de comportamento alegado pela delatora”, diz Boudens, assinalando que, por determinação do Ministério da Justiça, a PF criou, no sistema de registro das operações, um anexo para serem citados nomes de pessoas públicas ou políticos envolvidos em operações dos federais.

CASO DE POLÍTICOS – O presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ANDP), Carlos Sobral, explica que existe o entendimento de que a PF tem de passar ao ministro da Justiça informações sobre operações que envolvam pessoas politicamente expostas e de que a prática é um ato em obediência à relação hierárquica.

Entretanto, Sobral ressalta que o ministro não deveria ter conhecimento dos alvos e mandados, somente de informações básicas para prestar esclarecimentos públicos se for demandado. “Não há motivos para que terceiros fiquem sabendo das ações feitas pela Polícia Federal. É preciso que isso não volte a acontecer no futuro e que as investigações estejam protegidas da intervenção política”, declara.

ESCLARECIMENTO – Sobral afirmou que é preciso esclarecer se o ministro da Justiça recebeu informações de terceiros e se foi extrapolado o que deveria ser dito. Segundo ele, a divulgação de dados sigilosos por servidores internos configura violação funcional. “Se foram informados detalhes, é evidente que houve irregularidades. Isso precisa ser apurado”, disse. O presidente da ANDP destacou, também, que as delações têm acusações graves que ofendem o trabalho da Polícia Federal e a Constituição.

No depoimento, divulgado pelo STF na última quinta-feira, Mônica contou que criou um e-mail falso para que a ex-presidente passasse informações da Lava-Jato com mais “segurança”. “Eu criei o e-mail no computador pessoal dela, bem antigo, no Alvorada. Ela sugeriu o nome Iolanda, Iolanda2606@gmail.com. Acho que era o nome da mulher do general Costa e Silva”, relatou Monica. A senha era restrita às duas e ao assessor de Dilma, Giles Azevedo, com quem Mônica afirma ter se reunido diversas vezes para tratar dos pagamentos da campanha presidencial de 2014.

Segundo ela, quando queria mandar um recado, Dilma pedia que Giles enviasse uma mensagem do tipo: “Ah, descobri um vinho maravilhoso que vocês precisam provar”. Quando recebia um recado assim, a mulher do marqueteiro entrava no e-mail e lia a mensagem que estaria como “rascunho” e seria apagada depois para não deixar registros.

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TRECHOS DO DEPOIMENTO DE MÔNICA MOURA

– “Na noite de 21 de fevereiro, o João falou com ela, que contou que tinha sido visto o mandado de prisão contra nós, na mesa de Cardozo”, disse Mônica sobre informações repassadas por Dilma. A ex-presidente a teria convocado para uma reunião no Palácio da Alvorada afirmando que as coisas estavam “muito ruins”.

– “Eu criei o e-mail no computador pessoal dela, bem antigo, no Alvorada. Ela sugeriu o nome Iolanda, Iolanda2606@gmail.com. Acho que era o nome da mulher do general Costa e Silva”, afirmou a marqueteira. A senha teria o número 47, ano de nascimento de Dilma, com o nome de alguém ligado a ela.

– “O Zé Eduardo está me informando que já estão pegando a conta do Cunha na Suíça”, teria dito Dilma à Mônica em novembro de 2014. Nos jardins do Palácio da Alvorada, as duas teriam conversado sobre se a conta de Santana estaria protegida na Suíça, já que o então deputado Eduardo Cunha havia sido pego.

– “Um dia recebi o seguinte e-mail dela: ‘O seu grande amigo está muito doente. Os médicos consideram que o risco é máximo. E o pior é que a esposa dele, que sempre tratou dele, agora também está doente, com o mesmo risco. Os médicos acompanham dia e noite’. O médico era o Zé Eduardo Cardozo”, disse Mônica.

5 thoughts on “Políciais federais dizem que o ex-ministro Cardozo precisa ser investigado

  1. Quando a Lava Jato surgiu, trouxe um grande impacto sobre o Brasil, porque jamais imaginávamos a amplitude na corrupção no país. Políticos de esquerda e direita se revezaram no tempo e no espaço público, ora defendendo, ora condenando a operação. Vi mais de uma vez os mesmos políticos em tribunas elogiando Moro e em outros momentos vociferando contra o mesmo juiz.

    No início tudo isso me entristecia, mas sempre apoiei as investigações. Uma ferida infeccionada, fétida e purulenta só vai se curar se o procedimento de esterilização e limpeza for intenso.

    Sei que muitos conhecidos meus discordam de mim e têm os seus motivos, mas cheguei a um ponto que não quero saber se Fachin foi do PT, se Gilmar defende o grande “Acordão”, se Aécio é mais corrupto do que Lula ou vice-versa. Também não quero saber por que Carmen Lúcia toma decisões ambivalentes, como serão as decisões de Marco Aurélio, se Moro é espião norte-americano, se os envolvidos foram corruptos em nome de um projeto político, se o Supremo vai ou não aparecer (ou até já apareceu) nas delações… Para mim, prevalece somente que a certeza de que “contra fatos não há argumentos”.

    Diante do caos que emerge dos três poderes e da impotência do cidadão, frente às esmagadoras reformas impostas, resta a esperança de que a Lava Jato continue operando. O sentimento não pode ser pessimista, precisa ser de esperança, sim. Entendemos isso quando voltamos no tempo e imaginamos como estaríamos se a Lava Jato não acontecesse… Com certeza, a ferida fétida e purulenta da corrupção estaria encoberta, contaminando todo o organismo, matando-o silenciosamente… Prefiro sempre a dor da consciência, por mais que isso cause sofrimento e desconforto imediato. Minha esperança está no futuro.

    • Completando: diante do caos ideológico e da overdose de notícias, informações, verídicas ou não, veiculadas pela mídia, não superam fatos que se apresentam como provas. Assim sendo: vida longa à Lava Jato…

  2. Perdão CN,
    minha pontuação foi engolida pela emoção (rsrs)
    Faltou ponto e vírgula no lugar das vírgulas quando menciono “do que não quero saber”…

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