Política é como a nuvem: Aécio em voo livre

Pedro do Coutto

A frase do governador Magalhães Pinto (política é como a nuvem, muda de forma e direção a todo instante) é tão eterna como os diamantes, título de um dos livros de Ian Fleming, autor da série James Bond. Sem dúvida. A constatação está nas matérias publicadas simultaneamente na sexta-feira, 17, nas edições de O Globo, Folha de São Paulo e pó Estado de São Paulo. No Globo, saiu sem assinatura. Em O Estado de São Paulo está assinada por Eduardo Katah. Na FSP por Breno Costa e Kátia Seabra. Assinalam, a meu ver, uma reviravolta no processo da sucessão presidencial de 2010. Encontrando-se com o governador Aécio Neves, logo após a partida Cruzeiro e Estudiantes, no Mineirão o deputado Ciro Gomes afirmou diretamente que poderá não disputar a presidência da república se Aécio for o candidato do PSDB, passando então a apoiá-lo.

O encontro, claro, não aconteceu por acaso. O governador José Serra assistiu à partida ao lado de Aécio e do técnico Dunga. E a reunião política  teve a presença do ex presidente Itamar Franco que ingressou no PPS, aderindo portanto a uma legenda de oposição ao governo Lula. Os jornalistas, por seu turno, também não apareceram por acaso. Aécio Neves, Ciro Gomes e Itamar Franco produziram um episódio. Aliás politicamente muito importante. José Serra, em torno de quem circulam rumores cada vez mais intensos de que vai disputar a reeleição em São Paulo e portanto desistir de uma nova tentativa rumo ao Planalto, indo a belo Horizonte sem dúvida sinalizou para confirmar a versão que ganha corpo. Com isso, o panorama de 2010, de repente, como dizia Magalhães Pinto, muda de forma e direção.

Ciro Gomes, com suas afirmações, distancia-se tacitamente da ministra Dilma Roussef e fortalece o projeto Aécio Neves, sem dúvida um homem extremamente iluminado pela sorte. Itamar Franco, vale lembrar, desistiu da reeleição em Minas em 2002 para apoiar sua candidatura ao Palácio da Liberdade. Com dinamismo e dono de forte simpatia pessoal, Aécio reelegeu-se por margem disparada de votos. O quadro, com base nas pesquisas do Datafolha, Ibope e Sensus, na esfera do PSDB, era bem mais favorável a Serra. O governador paulista registrava entre 38 a 40 pontos. O chefe do executivo mineiro, quando seu nome figurava como alternativa tucana, ficava entre 17 a 20%De repente, porém, não mais que de repente como disse o poeta, José Serra se retrai e o espaço se abre para Aécio Neves como num passe de mágica. O que terá levado Serra a refluir? Poucas interpretações podem ser colocadas, mas nenhuma delas concretamente poderá convencer se não acompanhada por informação concreta de bastidor. Sem esta informação, fica-se com a impressão. Não com a certeza.

Mas esta aparência superficial é contudo suficiente para revelar a alteração do quadro, que apresentou como reflexo imediato um novo posicionamento de Ciro Gomes. Primeiro o ex governador do Ceará colocou a hipótese de concorrer pela terceira vez à presidência da República. Depois admitiu candidatar-se ao governo de São Paulo transferindo seu domicílio até 30 de setembro próximo. Agora o governo paulista fica para segundo plano, talvez terceiro, e publicamente admite seu apoio a Aécio neves. Aécio cresceu extraordinariamente no episódio. A opinião pública, absurdamente desprezada pelo Senador Paulo Duque ao assumir a presidência da Comissão de Ética do Senado no intuito de livrar José Sarney das acusações formuladas, é fundamental. Sem ela e sem a imprensa que a sensibiliza não se faz política. Tanto não se faz que Aécio, Ciro, Itamar para não falar em Serra, convocaram os jornais para produzir um impacto político forte na sucessão de Lula. A prova aí está.

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