Política é o único instrumento de construção coletiva

Pedro do Coutto

Essencialmente oportuno, sem dúvida alguma, o manifesto de um grupo de deputados do PMDB, do qual faz parte Osmar Serraglio, de bela situação na CPI dos Correios, repudiando pressões ilegítimas da liderança do próprio partido contra o governo Dilma Roussef em busca de cargos de comando na administração federal. Oportuno porque, efetivamente, esse estilo condenável e condenado de atuação choca-se com a essência da política. Ela é a luta pelo poder, sem dúvida, mas dentro dos limites tolerados pela ética e pela lógica.

Querer ocupar postos em função do uso de verbas, apenas, é um absurdo completo, uma ação deplorável. Sobretudo porque, neste caso, onde fica o interesse publico? Em lugar algum. O deputado Henrique Eduardo Alves, líder da legenda na Câmara, revela não se preocupar muito com isso. Luta para obter faixas de poder, sem a preocupação de utilizá-las como instrumento, aliás único, de realização coletiva.

Alguém, através do tempo, não me lembro agora quem, exatamente, definiu a política como um processo, através do qual, incorporando-se interesses privados inevitáveis, obtem-se o progresso de uma nação. Está contida na frase a necessidade de uma união de vontades, motivações, mas também de propósitos. Uma ideia básica de compromisso. Compromisso tácito entre os que detêm o poder e aqueles, todos nós, que, com o voto os colocaram lá. Não é portanto legítimo que os poderosos ignorem a fonte de seu poder. A fonte é o povo. Para ele têm que estar voltados projetos de construção coletiva. Sem isso, não existe política, no sentido amplo da palavra.

Sem a dualidade entre o interesse e as motivações particulares não se vai a lugar algum. Nem a política significa santificação ou ingenuidade, mas tampouco pode se transformar em sinônimo de omissão e corrupção. Muito menos a corrupção pela própria corrupção. Não existe meio melhor, inclusive, de se destruir, ou pelo menos abalar, o sentido fundamental da democracia.

Como exemplo cito as obras públicas, que tanto lucro proporcionam a empresas de alto poder. Ninguém vai sequer pensar infantilmente que elas deixem de significar um meio de enriquecimento. Muito bem. Mas não tem cabimento, como revelou o Citibank de Genebra, que o deputado Paulo Maluf possa ter depositado lá, antes de transferi-lo para o mesmo banco, agência do Canal da Mancha, um volume de 442 milhões de dólares.

Obrigado por resolução, que o Banco Central renova, anualmente, de informar o saldo bancário e os bens que possui no exterior, o ex-prefeito de São Paulo, que tantas obras realizou na cidade, não o fez até hoje. E La Nave Va. Nada acontece. Nenhuma providência é tomada. Nem pelo próprio Banco Central, autor da resolução.

Por essas e muitas outras é que a dissidência aberta no próprio PMDB tem total previdência. E pertinência. Não deve funcionar na prática, mas chama atenção contra uma outra prática, sinônimo de estilo que rebaixa e sufoca a própria atividade política. Não apenas pelo ângulo moral. O que já seria suficiente, mas também porque embute uma contradição dentro da outra. O Legislativo não tem como tarefa preencher cargos no Executivo. As palavras são bem diversas e exprimem atribuições independentes uma da outra.

A invasão recíproca anestesia o governo e seduz o parlamento, imobilizando-o. Mas no meio desse jogo de interesses, onde entra o interesse do eleitorado, o mais legítimo de todos? O que os eleitores e eleitoras querem é que aqueles que receberam seu voto na urna cumpram a sua obrigação. E não comercializem um produto que não lhes chegou às mãos por acaso. Nada disso. São uma consequência da manifestação popular. É preciso respeitá-la. Os dissidentes do PMDB têm razão.

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