A Política está prisioneira do sistema de financiamento

Cristóvam Buarque

O Brasil chega a 200 anos de sua emancipação política sem conseguir fazer a emancipação de sua política.

Nossa política está prisioneira do elevadíssimo custo de campanha, que amarra a eleição à disponibilidade de recursos financeiros. Conforme o TSE, em 2014 foram gastos cerca de R$ 74 bilhões por 25 mil candidatos. Para 1.689 eleitos, o custo foi de cerca de R$ 3 milhões por candidato, R$ 43,8 milhões por eleito, mais de R$ 500 por eleitor.

Por causa deste elevado custo, a política está prisioneira do sistema de financiamento. O candidato precisa ter acesso a fontes que amarram os eleitos, comprometendo-os com os interesses dos financiadores.

A terceira amarra são os institutos de pesquisas e os marqueteiros. Os primeiros dizem o que o candidato deve falar; os outros, como falar, qual a mídia a ser utilizada, a mentira a ser construída. Os institutos também amarram os eleitores ao apresentar resultados que indicam vencedores antes da data.

MITOLOGIA

Esta eleição mostrou que estamos prisioneiros da mitologia de que alguns são de esquerda e outros de direita, quando na realidade as coligações e os partidos são todos igualmente desideologizados.

Uma quinta prisão são os programas assistenciais que amarram os votos de seus beneficiários aos candidatos que conseguem se apropriar da paternidade do programa e dá garantia de que ele será mantido. O assistencialismo amarra os opositores ao risco de que, se eleitos, paralisarão o programa, e aos situacionistas porque se transformam em partidos que dependem da continuação da miséria para conseguirem os votos que precisam. A emancipação dos pobres emanciparia a política, desmoralizando os donos dos programas assistencialistas.

Sexta prisão é o silêncio dos intelectuais, paralisados na reverência ao poder, incapazes de oferecer alternativas que sirvam de base a propostas de reformas sociais que, ao emancipar o povo, emanciparia a política.

COOPTAÇÃO

Sétima amarra é a cooptação, por compra de agentes políticos, como no caso do mensalão, ou por financiamento e beneficiamento a ONGs, sindicatos e associações.

A oitava prisão é o aparelhamento do Estado pelo partido no poder. Pela tradição de tratar o Estado como propriedade das elites no poder, cada vez que muda o governo costuma-se nomear dezenas de milhares de pessoas para empregos públicos, aprisionando a política à necessidade de sobrevivência dos servidores empregados, dependentes da continuidade.

Se quisermos emancipar a política, antes do segundo centenário da emancipação política, serão necessárias duas ações. A primeira é uma revolução educacional que permita emancipar o povo de dependência de auxílios, para que o eleitor possa votar sem dever favor ao partido no poder. A segunda é uma reforma radical na maneira como a política é feita, derrubando cada uma das amarras. A primeira depende de tempo, a segunda da vontade dos eleitos amarrados. Por isso, dificilmente haverá tempo para emancipar a política antes do bicentenário da emancipação política.

(artigo enviado por Mário Assis)

4 thoughts on “A Política está prisioneira do sistema de financiamento

  1. Com Lula, Dilma e PT não há coisa nova e boa, há lixo.

    As intervenções feitas da 2ª. reforma de Lula em nome da redução do déficit e correção de desigualdades sociais foram inúteis:

    A) Acabaram com a aposentadoria integral;

    B) Acabaram com a incorporação das gratificações e vantagens nas aposentadorias;

    C) Acabaram com a paridade entre ativos e inativos;

    D) Acabaram com a paridade entre civis e militares;

    E) Reduziram os valores dos vencimentos dos civis; com aumentos de 15% em três anos enquanto o Bolsa Família teve 30%;

    F) Instituíram a contribuição dos inativos;

    G) Criaram 39 ministérios e colocaram 30 mil terceirizados, 30 mil temporários, 6 mil “consultores” externos, sem concurso, aparelhando o Serviço Público Federal;

    H) Obrigaram os novos servidores a migração para a Funpresp, para que aposentem com o teto do INSS.

    O que querem mais?

    Mais em: http://www.anasps.org.br/mostra_materia.php?id=3880

  2. Excelente artigo do Cristovam Buarque e o comentário do Wagner Pires.
    O financiamento de campanha com doações de empresas, é o prefácio
    da corrupção. Nenhuma empresa dá uma fortuna ao candidato, em troca
    de nada, com certeza não é belos belos olhos do candidato.

  3. Tudo que o nobre senador expõe, eu já denuncio há muitos anos.
    Para encurtar, se forem mantidos os partidos políticos, pode esquecer esta história de emancipação da nossa política. Quem não permite a mudança são os donos dessas organizações criminosas, uma das quais o sr. também faz parte.
    Capitalismo Social é o ponto de partida. Quanto antes aceitarem debater esta proposta, tanto antes sairemos desta roda viva de pobreza eterna.
    Aécio e sua turma, sem dúvida nenhuma colocariam novamente o “trem” nos trilhos, descarrilhado pelos perdidos do lullo-petismo e seus penduricalhos, aí incluído o tal de PMDB.
    E daí ? Todas as questões suscitadas acima pelo senador, continuariam intocadas, também num eventual governo do PSDB.
    O comunismo só acaba, pelo menos no Brasil, quando forem atendidas condições mínimas para toda população brasileira. E isto, nosso capitalismo especulativo e corrupto, parte estatal, parte dos burgueses da Corte e parte de quem “carrega o piano”, os empresários da planície, não está atendendo e nem vai atender dentro do atual pacto social.
    Das não propostas do lullo-petismo nem vou falar. Esses, depois da queda do Muro de Berlim, nem sabem o que querem. Uma carroçaria comunista montada numa plataforma capitalista, ou, não usa nem desocupa a moita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *