O pano ainda não caiu

Carlos Chagas

Estava tudo acertado, claro que  nos bastidores, para Antonio Palocci dispor de uma saída honrosa. Seria, por  mais incrível que pareça, que o Procurador Geral da  República decidisse abrir no Supremo Tribunal Federal uma  investigação a respeito do enriquecimento súbito do chefe  da Casa  Civil. Seria a oportunidade para  Palocci pedir o seu afastamento,  enquanto durasse a investigação, quer dizer, até a eternidade, e afastar-se do governo e da crise. O problema é que o Procurador não encontrou argumentação jurídica para incriminar Palocci. Assim, o ministro  ficou sem a saída honrosa que seria o seu afastamento em respeito à Justiça.  Mas a pressão contra ele já  estava insustentável, vindo dos partidos da base do governo, da  opinião  pública e da  opinião publicada. 

Pelo jeito, até a presidente Dilma havia chegado a essa conclusão, apesar da opinião contrária do ex-presidente Lula, que sustentava a permanência de Palocci. Assim, o próprio chefe da  Casa  Civil  decidiu poupar-se e poupar o governo Dilma. Apresentou carta de demissão.

O  nome da senadora Gleise Hofmman, do PT do  Paraná, foi anunciado para  ocupar a Casa Civil, numa surpresa sem par. O que teria levado a presidente da  República a deixar  o país inteiro sem pai nem mãe?  Marcar posição e dizer que quem manda é  ela?  Demonstrar uma nova fase do governo, mais centralizada em suas opções e decisões e sem ligar para as pressões partidárias por nomeações?

A verdade é que ninguém conhece e perfil político da senadora.   Pertence ao PT e foi a primeira  das companheiras a propor  a defenestração de Palocci? Teria sido   por isso sua designação?

Há mais dúvidas do que certezas nessa novela ainda inconclusa, mas a verdade é que Dilma deu um susto no país, na sua base parlamentar, no PMDB, no PT  e no próprio Lula. O pano não caiu. A assistência é que foi para o intervalo tomar  café…

PEÇAS QUE NÃO FUNCIONAM

Não será por conta da crise envolvendo Antônio Palocci que parte do  governo dá a impressão de andar devagar, quase parando. O quadro já se mostrava  assim antes da revelação da empresa de consultoria e do apartamento de seis milhões de reais. Existem ministérios e  ministros que se desaparecessem ninguém perceberia. Completamente insossos, amorfos e inodoros.

Não será por falta das respectivas  assessorias de imprensa, aliás, quase todas terceirizadas, rendendo milhões aos donos das  mesmas empresas de sempre,  que há anos  faturam nos cofres públicos. Falta é o que divulgar em termos de planos, projetos e obras. Vamos poupar o constrangimento de fulanizações, mas estão à vista de todos os setores paralíticos da administração federal. 

Não adianta  Dilma ficar até tarde da noite em seu gabinete, no Planalto, promovendo reuniões e  análises com o grupo palaciano  e  disparando telefonemas para todos os lados. Metade do governo fica encolhida, com medo apenas de ser convocada. Foi para o espaço até  mesmo a recomendação de que todos os ministros evitem mandar-se para seus estados ou para o Rio e São Paulo, a partir das quintas-feiras.  Basta ver a relação dos jatinhos da FAB requisitados para os fins de semana, sem perder de vista que muitos valem-se dos favores de empresas privadas.
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No primeiro ano de qualquer governo só por milagre verificam-se reformas ministeriais, à maneira do comportamento de juízes de futebol, que nos  trinta minutos iniciais  nunca dão cartão vermelho para os craques, apesar da truculência de alguns.  Assim, todos parecem preservados.

ENIGMA

Quem quiser que decifre o porquê da referência à historinha que se segue:

Numa daquelas empolgantes finais de  campeonato de futebol lá no interior do Nordeste, os noventa minutos iam terminando e o placar continuava zero a zero.  Foi quando o beque de um dos times dá uma furada memorável  e a bola cai no pé do  centro-avante adversário, ainda fora da área. O craque avança, sem outra alternativa, diante apenas do goleiro. Mas vai gritando: “Vem nimim, vem nimim que eu tô  vendido!” Resposta do goleiro: “Num posso, num posso! Eu também  tô!”

MASOQUISMO

O resultado  das eleições em Portugal faz pensar que a maioria dos eleitores lusos é masoquista. Porque elegeram a coligação de centro-direita, cujo líder e futuro primeiro-ministro anunciou durante a campanha e confirmou depois da vitória que aplicará a clássica receita do FMI para combater crises econômicas: aumento de impostos, demissões em massa, cortes em investimentos sociais e religiosa remuneração das especulações financeiras, além do pagamento fiel das dívidas externas.

A abstenção chegou aos 50% e a conclusão a tirar é que deveu-se à ausência maciça dos trabalhadores nas urnas. Ou já estavam certos de que qualquer dos partidos em disputa adotaria a  imposição dos banqueiros ou bobearam feio. Agora aguentem…

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