População do Rio, por 93 a 7 por cento, apoiou greve da PM

Pedro do Coutto

Foi um desfecho surpreendente, eu esperava margem muito menor. Apesar de minha longa experiência em pesquisas, errei. Reconheci isso no ar. No seu programa de debates, domingo último, na Tupi, o radialista Haroldo de Andrade Junior colocou o tema para manifestação dos ouvintes pelo telefone e pela Internet. O programa lidera a audiência das 9:45 ao meio dia.

A pergunta era se as pessoas apoiavam ou não a greve da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Na minha estimativa, a reação seria favorável, mas numa base de 53 a 47.Centenas de pessoas responderam, talvez até mais de mil, já que as linhas telefônicas, no espaço de duas horas, não têm capacidade ilimitada de atendimento.

Quando Haroldo anunciou o resultado o impacto foi sensível. E visível, já que uma parcela acompanha o programa pela tela do computador. Uma nova forma de comunicação, portanto. Fiquei pensando qual fato pode explicar diferença tão grande num tema evidentemente difícil, sobretudo porque a greve na Polícia Civil é permitida pela Constituição. Mas a da PM e do CB é inconstitucional, sobretudo a da Polícia Militar, força de reserva do Exército, regida por regulamento militar.

Não coloco este prisma para discutir a sua legitimidade, mas sim porque uma parcela expressiva poderia colocar-se contra a paralisação por causa do enfoque jurídico. Foi aliás, o que sucedeu em alguns casos. No entanto, esta é outra questão.Continuo à busca, dentro da imagem sempre usada por Simone De Beauvoir, da exatidão de uma ideia.

A tradução talvez se encontre num impulso de resposta que está (logicamente, aliás) no coração da maioria dos assalariados, revoltados contra a compressão de seus vencimentos. Sim. Porque através do tempo, de 1995 para cá, exceto quanto ao mínimo, as demais categorias perderam seguidamente para a inflação do IBGE.

Almoçando ontem, dia seguinte, com o ex-senador Bernardo Cabral e o ex-deputado Alexandre Farah, eles admitiram a hipótese de, ao ser anunciada a pesquisa às 9 horas e 30 minutos, integrantes da PM e do CB terem acessado em massa o sistema da Rádio Tupi. É possível. Mas isso não é capaz de explicar, por si só, uma diferença de 93 a 7. Porque a comunicação maciça não poderia reduzir a 7% a opinião oposta. A diferença final teria que ser menor do que foi.

O próprio Haroldo de Andrade Junior surpreendeu-se. Nenhum dos integrantes do programa, ao fazer seu prognóstico, chegou perto do resultado final.

Claro que os governos Sergio Cabral e Jaques Wagner terminaram por negociar o fim das paralisações. Em Salvador, os doze dias de greve foram gravíssimos pelas consequências que apresentaram e são do conhecimento geral. O fato é que, não só no RJ e na Bahia, mas no país, o último aumento geral, além da inflação, foi de 30% estabelecido nacionalmente por Itamar Franco no final de seu mandato, em 94.

De lá para cá, só prejuízos para os assalariados. No estado do Rio de Janeiro, os governos Anthony Garotinho, Benedita da Silva (esta não pagou nem o décimo-terceiro salário), Rosinha Mateus, ignoraram a concessão de aumentos nominais lineares. Nos seus primeiros quatro anos, Sérgio Cabral aplicou revisões que ficaram na escala de 15%. Abaixo do índice inflacionário do período.

Os que vivem de seu trabalho honesto, assim encontraram na pesquisa da Rádio Tupi uma forma de expressar sua revolta. Pacífica. A verificada na Grécia, reportagem de Rodrigo Russo e Maria Margamoki, correspondentes da Folha de São Paulo na Europa foi violenta, como exibiu segunda-feira a foto dramática de Louise Goulimaki que acompanha a matéria.

Pudera. O governo de Atenas quer cortar em 22% o salário mínimo de 751 euros, demitir 150 mil funcionários públicos e congelar todos os salários por três anos. Dose para dinossauro. Incrível como se desvaloriza o trabalho humano. No Brasil e no mundo.

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