Por falta de credibilidade, 2015 tem cenário desafiador

Luiz Guilherme Gerbelli
Estadão

O desafio do segundo mandato de Dilma Rousseff passa inevitavelmente pela retomada da confiança entre governo e empresários, relação bastante abalada durante os primeiros quatro anos da gestão atual. Esse retorno da confiança mútua entre os dois lados pode fazer com que o investimento destrave e a economia brasileira volte a crescer.

Na avaliação dos economistas ouvidos pelo Estado, a sinalização dos passos econômicos do governo vai ser importante, sobretudo na política fiscal, área mais crítica da economia. No primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff, o cenário inicial não deverá ser fácil. A economia brasileira deve continuar apresentando baixo crescimento e a inflação continuará pressionada, muito próxima do limite superior da meta do governo, que é de 6,5%.

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RECLAMAÇÃO NÃO PRODUZ CRESCIMENTO, DIZ DELFIM

Para o ex-ministro Delfim Netto, não resta alternativa para a economia a não ser crescer. Na avaliação dele, o problema fiscal é o número um, “mas ninguém vai fazer crescimento cortando”.

Por que a economia brasileira tem tantos desequilíbrios?

O Brasil deixou de crescer por causa da murcha da indústria. A partir de 2009, o que não se recuperou foi a produção industrial, por um motivo muito simples: o uso do câmbio como substituto à política de combate à inflação. Houve uma recessão, que ajudou a piorar a situação fiscal. Não tem outra saída ao Brasil a não ser voltar a crescer. É por isso que todos esses programas – corta isso, corta aquilo, faz isso, faz aquilo – têm de ser precedidos de uma volta de confiança entre o setor empresarial e o governo.

Por quê? 

Para resolver qualquer questão, inclusive o fiscal – o problema número um -, precisa de crescimento. Ninguém vai fazer crescimento cortando (gastos). Levou tempo, mas o G-20 chegou à conclusão de que eles cortaram durante seis anos e deu tudo errado. Agora, estão tentando propor uma política de investimento conjunto. Todo mundo puxa para cima e a coisa provavelmente vai dar certo. Mas tem de começar com um bom programa com começo, meio e fim e que vai dizer o seguinte: eu vou apresentar tal medida, vou ter uma política fiscal razoável, uma política econômica cuidadosa e uma política cambial realista.

Como o governo pode retomar a confiança dos empresários?

Acho que o governo tem de dar uma demonstração clara de que vai agir. A minha sugestão é aprovar duas coisas. A primeira é a reforma do ICMS, que está pronta e pode ser aprovada com muita rapidez. A outra medida é uma velha proposta da CUT, a livre negociação entre trabalhadores e empresários, sob o controle do sindicato, respeitando todos os direitos dos trabalhadores. Essa livre negociação pretere a lei. Na minha opinião, ela (Dilma) vai dar ao trabalhador a consciência de que o emprego não vai diminuir e, para o empresário, que começou um movimento real de mudança. Essas duas coisas têm de ser combinadas com o investimento em infraestrutura e políticas cambial e industrial adequadas.

Quais seriam os impactos dessas medidas?

Você deslancha os dois vetores fundamentais para o crescimento – de um lado investimento e do outro a ampliação do setor exportador. Nesse processo, se o País crescer 2%, 2,5% em 2015, 80% do problema fiscal está resolvido. Agora, é claro que precisa de medidas fiscais, controlar despesas. Precisa nomear um grupo de trabalho para fazer um orçamento de base zero.

Como funcionaria?

É preciso que um grupo de trabalho analise item por item do Orçamento. Deve haver 30 mil projetos ou programas que podem ser fechados sem que aconteça nada. O Orçamento hoje sobrepõe um programa em cima do outro, mas nunca se extingue nenhum.

Como mediar a necessidade de cortar despesa e acelerar o crescimento da economia?

Se começar o ajuste cortando gastos e elevando a taxa de juros, a economia vai para uma bruta de uma recessão. Controlar a política fiscal é necessário. É a mais importante de todas. A situação é complicada porque tem um déficit público de 5% do PIB. É muito. Boa parte disso é produto do quê? Primeiro, de um descuido. Estavam vendo desde o começo que a economia ia crescer zero, mas se supôs 2,5%. Se tirar dos 5% esses 2,5%, você volta aos 2,5%. Ou seja, uma boa parte da confusão fiscal foi produzida pela restrição ao crescimento e não vai resolver simplesmente cortando despesa.

E os sinais do governo? O ministro Guido Mantega (Fazenda) falou em reduzir o papel dos bancos públicos, e a Dilma tem dito que fará o dever de casa.

São pequenas coisas. Aqui, estamos cuidando da ‘macro’. Você precisa de uma quebra dessa paralisia, colocar uma nova situação em cima da mesa. Uma situação na qual o governo diga o que vai fazer, e o setor privado concorde e corra o risco junto. Há muito exagero. Ela (Dilma) não ganhou a eleição porque o povo é idiota. Só os idiotas pensam isso. Ela ganhou a eleição porque a maioria se sente melhor do que se sentia antes. E tem de se convencer do seguinte: terminou a eleição e ela recebeu um voto de confiança. Enquanto ficar com cara feia e batendo a cabeça na parede, não vamos a lugar nenhum. Reclamação não produz crescimento.

5 thoughts on “Por falta de credibilidade, 2015 tem cenário desafiador

  1. Acho que quem está batendo a cabeça na parede é o Sr. Defim Netto. Como é que se vai fazer ajuste fiscal – e tem que cortar gastos correntes para isso – sem fazer cortes?!

    Ficou louco, cara pálida?

    Não é simplesmente analisar orçamento, sujeito. É reduzir drasticamente o número de ministérios e o peso da máquina pública de cima do orçamento.

    É reduzir os repasses do Tesouro Nacional para o BNDES.

    Tem que fazer cortes sim!

    A reforma tributária, em que pese mexer no principal tributo que atravanca a economia nacional – o ICMS – é para o início do governo, e não agora.

    Surpreendeu-me muito esta entrevista com o Sr. Delfim Netto, principalmente quando tentaram tirar dele o que pensava sobre os repasses do Tesouro Nacional aos bancos oficiais.

    Ele, simplesmente, tergiversou. Será que está ganhando algum para dar declarações positivas a este governo?

    Palhaçada!

    • Outra coisa, não se supos crescimento de 2,5% coisíssima alguma. O que se viu foi um exercício de autoenganação. O tempo todo o ministro Mantega dando declarações enganosas, tentando ludibriar o mercado e suas expectativas.

      Agora vem Delfim querer assumir o papel de enganador e por panos quentes sobre a verdadeira situação da economia nacional?

      Vai enganar a quem? Ao mercado?

      Ora… vá bater cabeça sozinho!

  2. Logo, logo ele vai dizer que o que tem que ser feito é esperar o bolo crescer para depois dividir.
    Este senhor está sempre do lado do poder com essa conversa de botequim.
    Quem viveu os anos 70 sabe disso.

  3. Prezado Sr. WAGNER PIRES, Saudações. A meu ver o Ministro Prof. DELFIM NETTO está certo. Agora o problema do futuro Ministro da Fazenda da Presidenta DILMA é “Fazer a Economia voltar a Crescer”. Depois então os AJUSTES. Se fizer os AJUSTES agora, vai jogar o Brasil numa brutal RECESSÃO. Abrs.

    • Prezado, Sr. Bortolotto.

      É simples, está certo quando diz que um déficit público de 5% do PIB é muito. Quando diz o que já estamos nós, carecas de saber, que é preciso fazer uma ampla, geral e irrestrita reforma tributária para remodelar, principalmente, este câncer tributário chamado ICMS.

      Mas, está errado quando diz que não é para se fazer cortes! ESTÁ ERRADO!

      Há de haver cortes sim nas despesas correntes do governo. A prioridade tem de ser dada nos gastos de capital, ou seja, em investimento, e não em gastos com esta manutenção desta máquina inchada de pelegos e apaniguados petistas, a ocupar 39 ministérios (um absurdo), sendo, ao menos, 19 deles dispensáveis.

      É isso, caro amigo.

      Grande abraço!

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