Por que Lula no vai a desastres

Carlos Chagas

Quando do terremoto no Haiti, mesmo levando algum tempo, o presidente Lula mandou-se para l, em sinal de solidariedade. Belo exemplo, mas com a mortandade longe do nosso territrio.

O diabo que o primeiro-companheiro sequer sobrevoou Angra dos Reis, depois da tragdia recente. Nem foi s regies atingidas pela tempestade, no Rio, semana passada. Muito menos a Niteri, agora.

Diro os otimistas que no auge das inundaes, em Santa Catarina, ele passou por cima, de helicptero. Mas ficou nisso.

Lei no h, exigindo dos presidentes da Repblica solidarizarem-se pessoalmente com as vtimas de inusitadas manifestaes da natureza. Muito bem fazem providenciando, em seus gabinetes, iniciativas capazes de minorar o sofrimento de populaes inteiras, desde a liberao de verbas at a mobilizao de contingentes militares de auxlio. S que a presena fsica dos governantes maiores torna-se expectativa nacional. E o Lula est devendo, desde que assumiu, tornando-se exceo sua ida ao Vale do Itaja.

Muita gente pergunta, em meio a essa que parece a grande catstrofe nacional das ltimas dcadas, porque o presidente preferiu ficar no palcio da Alvorada, como ficou no Copacabana Palace quando da recente inundao do Rio, mesmo a pouca distncia das favelas postas em desespero. Em especial, porm, indaga-se por que no chegou a Niteri ainda na quinta-feira, ou na sexta, horas depois da avalancha responsvel pela morte de mais de 200 inocentes.

A resposta no est numa improvvel falta de sentimentos. Sequer em cuidados exagerados com a prpria segurana, que jamais teve em tempos de lder sindical.

poltica a ausncia do Lula, destas e de anteriores tragdias. Parece de caso pensado, urdida nos pores sombrios da estratgia de preservao do poder pelos que o detm. Importa menos saber de que assessores partiu, faz muito, a sugesto de que o presidente no deve ligar sua imagem a desastres. Quando no estrangeiro, tudo bem. Aqui, nunca, apesar da ida a Santa Catarina, talvez um descuido do grupo que o envolve.

O raciocnio de que a populao ligaria a presena do presidente a coisas ruins, que quanto mais se repetissem mais estabeleceriam no consciente coletivo uma ligao entre ele e as catstrofes. Ilude-se quem quiser ao imaginar que cada passo ou iniciativa do Lula no milimetricamente analisado pelos luminares incrustados sua volta. Eis a um exemplo claro. Comparecendo a lugares de sofrimento, acabaria por ser ligado a eles, com os prejuzos decorrentes da simbiose. Poupando-se, ou dando preferncia a compromissos alegres, como inauguraes e festas, acaba sendo lembrado como responsvel pela felicidade geral.

Pode parecer fantasia, mas assim que as coisas funcionam…

Russos pacificados?

possvel que de hoje at quarta-feira, em Washington, restabeleam-se os laos de amizade e simpatia entre os presidentes da Rssia e do Brasil. Melhor dizendo, que os russos venham a perder os amuos e a m-vontade a ns dedicada desde que o presidente deles, meses atrs, foi maltratado pela nossa diplomacia e, obviamente, por seu chefe maior, o prprio Lula.

Acontece que quando da visita de Medielev, o protocolo e a natureza das coisas indicavam dever o visitante ilustre ser recebido em Braslia com toda pompa e circunstncia, como acontece at com o presidente de Bonga- Bonga ou Songa-Monga. No entanto, a visita circunscreveu-se ao Rio de Janeiro, com cumprimentos no antigo palcio do Itamaraty e um churrasco no palcio das Laranjeiras, residncia do governador fluminense. Os russos ficaram bravos, at ameaaram com a vinda de seu presidente Capital Federal, mesmo sem a presena do nosso. Conformaram-se com o encontro no Rio, mas no gostaram nem um pouco.

Por que essa gafe protocolar, inusitada e aparentemente agressiva? Jamais por conta de nossa rejeio compra dos caas russos, mas por questo meramente familiar. Em funo de uma falha cerimonial, dona Marisa havia, tempos antes, comprometido-se a estar no Rio em determinada data, para uma cerimnia beneficente. E prometera levar com ela o presidente Lula. Foi quando algum percebeu tratar-se do mesmo dia em que o presidente russo chegaria a Braslia. A primeira dama fez p firme, no abriu mo do compromisso carioca, que exigia o casal completo. E tamanha foi sua insistncia que o Lula cedeu. Resultado: Medielev que alterasse sua agenda e aceitasse ser recebido fora de Braslia. Engoliu.

O governo brasileiro ainda tentou ajeitar as coisas oferecendo ao visitante o mais monumental dos churrascos jamais promovidos a uma comitiva estrangeira, regado aos melhores vinhos e a vodca impecvel. Tudo parecia superado quando algum russo impertinente interligou o cardpio a uma sequela existente entre os dois pases. Pouco antes a Rssia havia suspendido a importao de carne brasileira, por conta de exigncias internacionais de qualidade. Seria por isso que o Brasil impunha aquelas maravilhosas picanhas, costelas e fils? Como j estavam na sobremesa, aproveitaram a digesto.

O tempo passou, quem sabe agora, na capital americana, venha a ser restabelecido o tradicional clima de harmonia e entendimento entre os dois presidentes e os dois pases? Sem churrasco, claro…

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