Por que metade dos americanos não vai votar para presidente?

Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

Milhões de americanos não se sentem representados nem pelos democratas e nem, tampouco, pelos republicanos. O  segundo duelo presidencial americano foi um choque de passados. O passado de Obama são os últimos doze anos, excetuados naturalmente os quatro dele mesmo. O passado de Romney são os quatro anos de Obama.

Entre os dois existe o consenso de que o presente americano é uma lástima. Romney não para de falar nos 5 pontos de seu programa. Pego carona e enumero os 5 pontos do declínio dos Estados Unidos. 1) Desemprego alto, símbolo de uma economia quebrada; 2) o fim da crença quase universal no sonho americano; 3) perda de influência e de admiração na arena internacional; 4) ganho de peso na balança graças à indústria da junk food, e a emergência de um Império dos Obesos; 5) o crescimento global de um antiamericanismo como nunca se viu.

Raras vezes se viu, na história da humanidade, um país tão universalmente detestado. Império nenhum, ao longo dos tempos, conseguiu se manter quando acumulou rejeição por todos os lados.

O que se viu, no segundo debate, foi mais uma vez a tentativa de os dois candidatos atribuírem o presente funesto um ao outro. Romney diretamente: ele pega as promessas de Obama da campanha passada e mostra, sem dificuldade, que nada foi realizado.

Obama põe a culpa em Romney indiretamente: o drama americano, segundo ele, é fruto dos oito anos de administração de George W Bush. Romney e Bush são do mesmo partido e defendem as mesmas coisas. Romney no poder equivaleria, segundo a lógica de Obama, ao retorno de Bush. Ele está certo.

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APATIA E DESCRENÇA

Você vê os debates e pode ser tomado pela impressão de que os americanos estão eletrizados pelas eleições. Não é verdade. O que existe, na sociedade americana, descontado o circo armado em torno das eleições, é uma mistura de apatia, descrença e indiferença. A abstenção deve chegar a 50%.

Metade dos americanos não se sente representada nem por democratas e nem por republicanos. São dois partidos essencialmente iguais, ou tão diferentes quanto Coca e Pepsi. Um regime político da natureza do americano, se estivesse presente na China, por exemplo, seria chamado de ditadura de dois partidos.

Nos debates, você vê dois atores muito bem treinados. Romney mantém sempre o sorriso, o ar artificialmente autoconfiante de um médico — ou charlatão — capaz de devolver a saúde rapidamente a um doente já sem esperanças. A expressão de superioridade só o abandona quando ele se descuida muito. Mesmo assim, o lapso dura uma fração. No debate de ontem, isso aconteceu. Romney acusou Obama de não ter tratado imediatamente como “ato de terror” o ataque islâmico à embaixada americana na Líbia.

Mas Obama tinha falado rapidamente, sim, em terror. A mediadora do debate confirmou. Obama, no único momento em que a plateia se manifestou com aplausos, pediu que ela falasse de novo “mais alto”. Ela falou. Ainda assim, mesmo contra os fatos, Romney insistiu em seu ponto.

O avanço da candidatura de Romney pode ter parado aí. Esta cena será repetida milhões de vezes no YouTube e nas redes sociais. (Você pode vê-la no pé deste texto.) Comentaristas políticos escreverão sobre como Romney insistiu num ataque mesmo diante da evidência de que cometera um erro.

Mas nada será capaz de tirar da letargia a chamada voz rouca das ruas dos Estados Unidos. Para ela, as eleições presidenciais não merecem sequer o esforço de ir até um posto de votação.

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