Por que o escritor Chico Buarque é superestimado

http://4.bp.blogspot.com/-H7DpqVurH6I/VJNMdOT_eSI/AAAAAAAAJcc/XstbjXakIYo/s1600/17014424.jpgRodrigo de Almeida
Pensata/iG

Até o penúltimo livro de Chico Buarque, Leite derramado, ficava combinado assim: quando ele tivesse uma obra publicada, o mais tradicional de nossos galardões – o Prêmio Jabuti – tinha destino certo. O resto que chiasse. Até que a coisa ficou explícita demais em 2010.

Naquele ano, segundo colocado na categoria romance, Chico levou para a sua cobertura, no Alto Leblon, no Rio, o grande prêmio da noite – obra e graça de um complicado regulamento, que previa uma confusa segunda etapa, na qual os três primeiros colocados nas principais categorias concorriam ao título do ano de ficção e de não-ficção. E em vez do júri especializado da primeira fase, a escolha dos vencedores cabia aos representantes da Câmara Brasileira do Livro (livreiros, editores, agentes, distribuidores e demais representantes do setor editorial), em geral pouco afeitos ao exercício da crítica literária.

O bafafá irrompeu com a vitória de Leite derramado, nos mesmos moldes que já ocorrera em 2004, com Budapeste (terceiro lugar na categoria romance e em seguida escolhido como livro do ano de ficção). E se a grita de editores vinha de longe mas permanecia nas coxias, em 2010 um peso-pesado do mercado editorial, o editor Sérgio Machado, do Grupo Record, sentiu-se indignado com o que chamou de situação “esdrúxula”. Editor do primeiro colocado na categoria romance daquele ano, o estreante Edney Silvestre e seu E se eu fechar os olhos agora, Machado saiu atirando: para ele, o Prêmio Jabuti seria uma “comédia de erros”, e anunciou que não mais inscreveria os livros da editora a partir dali.

A CRISE SE INSTALOU

O editor de Chico, Luiz Schwarcz (Companhia das Letras), respondeu em tom severo, muita gente opinou, a crise se instalou e, no fim das contas, a CBL mudou as regras do jogo a partir do ano seguinte. “Antes os escritores eram prestigiados pelos prêmios, agora são os prêmios que precisam dos escritores para ter prestígio”, resumiu na época o editor José Mário Pereira, da Topbooks.

Convém lembrar: aquele foi o terceiro Jabuti de Chico. Ele também já vencera com Benjamim. Em outras palavras, desconsiderando Fazenda modelo, até publicar no fim de 2014 O irmão alemão, o filho de Sérgio Buarque de Hollanda tinha quatro romances e três Jabuti. Um Schumacher das letras.

O episódio vem à memória para sublinhar a dura vida do Chico Buarque escritor. Como afirmou com a sabedoria de sempre o jornalista Paulo Roberto Pires, no blog do Instituto Moreira Salles, é muito fácil gostar de um livro de Chico Buarque; e é muito fácil detestá-lo. A despeito de si mesmo, o ídolo precede o escritor, no que resulta uma conclusão natural: num ambiente de culto à celebridade, do qual Chico não consegue mais escapar, o escritor termina por ser excessivamente superestimado e celebrado.

TUDO QUE VEM DELE É GENIAL

Assim sugeriu Paulo Roberto Pires: para os fãs, tudo o que vem dele é genial, mesmo que muita gente boa tenha que suar a camisa para enfrentar sua prosa intrincada fingindo que é o refrão de “Vai passar”. Para os detratores, parece continuar valendo a sentença de um crítico, que em 1991 recebeu Estorvo lembrando que “literatura” era coisa de “escritor” e não de “cantor” (!). Ao genial responsável por nossas grandes paixões e dores de cotovelo que pareciam eternas não seria concedido o direito de ingressar no complexo mundo da literatura – e vender mais do que qualquer outro escritor brasileiro vivo, então, isto já seria uma heresia.

Chico Buarque é um bom escritor. Em seus momentos mais maduros, exibiu obras razoáveis. Concebeu romances de estrutura inteligente. Conseguiu momentos incrivelmente divertidos. Produziu trechos notáveis do ponto de vista literário.

O culto excessivo e ostensivo à imagem de Chico Buarque torna-se inevitavelmente o maior algoz do escritor. Ele pode ser um bom escritor, a leitura agrada em alguns momentos, mas quase sempre, mesmo nos melhores momentos, o todo é muito menor do que a soma das partes – razão pela qual ainda lhe falta “a” grande obra literária.

A irregularidade é sua marca. Um momento brilhante, de algum rigor na escrita, sem palavras mal escolhidas ou frases fora de ritmo, é invariavelmente sucedido por um lampejo de fraqueza estilística ou por armadilhas da própria trama que criou.

Assim ocorre no seu mais recente livro, O irmão alemão, no qual Chico transforma em literatura a descoberta, ainda jovem, de que seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, tivera um filho na Alemanha em 1930. Embaralha invenção e biografia, realizando o que virou moda chamar-se de “autoficção”.

UMA CRÍTICA SENSATA

Dos muitos elogios exagerados que recebeu, prefiro a crítica sensata do professor Alcir Pécora, em artigo publicado na Folha de S.Paulo: “A novela poderia guardar o encanto secreto das narrativas de busca (…) não caísse em armadilhas fatais, que a tornam basicamente insossa”.

Convém destacar aqui duas dessas armadilhas.

A primeira: a incapacidade de ajustar o tom picaresco da narração, associado à rivalidade sexual dos irmãos, ao pitoresco italiano da mãe e ao caricato alheamento intelectual do pai, com o tema dos desaparecimentos.

A segunda: a forma de construir o passado com um “realismo postiço” (expressão de Pécora), composto de marcas de carros, nomes de ruas, bares de moda, artistas e restaurantes de uma São Paulo de 1968. Um excesso de detalhamento didático que não passa de uma etiqueta de um burocrático retrô, não uma imagem convincente da cidade da época.

Nas últimas páginas de seu livro, Chico enumera informações sobre a vida de Sergio Gunther, o irmão alemão que sobreviveu à guerra e se tornou cantor e compositor. E faz uma nota sobre como foram as investigações na Alemanha. Troca a literatura pelo relatório puro e simples, o que deixa o leitor menos fã intrigado: não teria colhido melhor resultado se fosse o Chico, e não o personagem-narrador Ciccio – a narrar essa história maravilhosa?

20 thoughts on “Por que o escritor Chico Buarque é superestimado

  1. Num país como o Brasil, farsantes como Chico, Gil, Caetano ( é proibido não proibir nossas biografias) são considerados intelectuais porque se aliam à farsa esquerdista de que estão do lado dos pobres.

  2. Nos anos setenta o Chico Buarque era duramente criticado pela Libelu, Convergência Socialista e demais tendências políticas estudantis. Era chamado de “o bom menino que toda mãe quer para genro”, chamado de burguês.
    Venceu o festival de 1966 com a Banda, música meio jovem guarda meio bossa nova num empate polêmico com Geraldo Vandré. Em 1968 também venceu o festival com gigantesca vaia pois o público de esquerda queria Vandré novamente.
    Acredito que até hoje ele luta para superar esta fase onde a esquerda acadêmica tinha por ele uma sutil implicância.
    Misturar a sua qualidade artística inquestionável que sempre gostei e admiro (como músico e compositor, não como escritor) com suas opiniões politicas pessoais é um desvio de visão.
    Só é manipulada e utilizada pela mídia, pois vivemos num país de modismos e manadas.
    Quanto à literatura, realmente fazer seu personagem, em Budapeste, aprender húngaro de forma autodidata e se tornar ghost-writer em apenas 2 anos de estadia no país supera Garcia Marques no surrealismo. Apenas nisso. O enredo para mim é sofrível. “Fazenda modelo”, então, é um plágio mal feito do excelente “A revolução dos bichos”.

  3. Mais um exemplo de que o autor está no nível dos consumidores.
    Chico tem dois período: antes e após a morte do tio.
    Alguém que muda de ideologia, tão radicalmente, deixa transparecer falsidade ou ignorância.
    Deveria dedicar-se a “arte” principal de sua vida: a música.
    Mas, em fim, tem gente que gosta de qualquer coisa: Aliás, tem gente que gosta de m……
    Fazer o que? Melhorar o ensino e dar um pouco de cultura boa, pode não salvar mas sempre ajudará.

  4. Tanto a esquerda quanto a direita tem seus ídolos supertismados. Na esquerda, o medíocre Chico, seu maior talento é jogar bem futebol. Na direita, Paulo francis, que não deixou uma única obra, uma única frase para a posteridade ( Nelson Rodrigues para efeito de comparação deixou 1.000 ) . Daqui há 50 anos ninguém vai saber quem eram Paulo Francis e Chico Buarque

    • Prezado “Dou o cartão… senha” Paulo Francis escreveu vários livros, um deles que lembro agora “Cabeça de Papel” em plena ditadura civil-militar, vide cantiga de crianças “marcha soldado, cabeça de papel”. Francis na juventude era trotskista. Uma de suas últimas frases, mais ou menos assim: “Se a humanidade cumprir os 10 mandamentos, a Paz se concretiza”.

      • A bem da verdade Chico e Paulo Francis são soberbos como compositor e jornalista, respectivamente. Quando se aventuraram pela literatura produziram trabalhos medíocres. O melhor livro de Paulo Francis é “Trinta anos Esta Noite”, que não é literatura, é um livro de memórias e reflexões pessoais sobre o Golpe de 64.

      • Do Pasquim só o Millor e o Henfil entrarão para a história. Millor por suas muitas frases geniais. Henfil pelo seu trabalho como cartunista. Mantenho o que disse : Daqui há 50 anos ninguém vai saber quem eram Paulo Francis e Chico Buarque

      • “Se a humanidade cumprir os 10 mandamentos, a Paz se concretiza”. Frase banal, tão irrelevante que eu não conhecia. Mantenho o que disse : Daqui há 50 anos ninguém vai saber quem eram Paulo Francis e Chico Buarque

  5. Todo artista que se preza não depende da cultura estabelecida. Aliás, sempre a contraria. Nelson Rodrigues era desses. Independente. Livre. Por isso se tornou grande. Gênio. Contrariava sobremaneira a nossa esquerdinha pelas suas demagogias de 3º mundo.
    É o caso de muitos aqui que, por sermos independentes, irrita a nossa esquerdinha que nos chama de direita.

  6. Pouco ou nada sei de Chico como escritor. Mas o melhor é que não tenho a mais ínfima curiosidade de saber. Coloco Chico no mesmo balaio de L.F. Veríssimo nesse quesito. Prefiro investir meu tempo com os clássicos.

  7. O Chico Buarque é um dos grandes da música popular brasileira. Poucos têm tantas músicas bonitas como as que o chico compôs. A obra musical do Chico Buarque é fantástica. Nunca li um livro do Chico, mas admiro seu modo de ser. Saiu da música para literatura. Muito legal essa versatilidade.

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