Por que o presidente da Vale está sendo afastado a pedido do ministro Mantega (leia-se: a pedido de Dilma Rousseff)? A empresa foi privatizada ou não? Afinal, quem é o dono da Vale?

Carlos Newton

Essa história da demissão de Roger Agnelli está mal contada. Até agora não surgiu o real motivo para afastar o presidente da Vale, justamente quando a empresa bate recorde de lucratividade. As explicações são vagas, imprecisas, não existe uma justificativa verdadeiramente sólida para uma decisão tão importante. E por que o governo teria o direito de interferir numa “empresa privada” a ponto de trocar sua direção?

O que se diz é que, durante a crise financeira internacional (portanto, já faz algum tempo), o então presidente Lula não gostou e cobrou Agnelli pelas demissões feitas pela Vale e pelo congelamento de investimentos. Durante a crise, em 2008, a Vale anunciou a demissão de 1.300 empregados no Brasil e no exterior, dos quais 260 (20% do total) em Minas. A empresa também colocou em férias coletivas 5.500 trabalhadores, dos quais 4.400 (80% do total) na unidade mineira da empresa.

A decisão da direção da Vale irritou Lula, que passou a fazer cobranças públicas a Agnelli por mais investimentos no país, em especial na siderurgia. Em setembro de 2009, o presidente aproveitou um evento em Pernambuco, no estaleiro Atlântico Sul, para dizer que empresas brasileiras de grande porte tem que investir mais no país, e exigiu de Agnelli que desse preferência aos estaleiros brasileiros na compra de navios.

“É impossível a Vale continuar comprando navio na China quando a gente está montando a indústria naval aqui. Ele (Agnelli) disse para mim que a indústria naval brasileira não fabricava navio de 400 (mil) toneladas. Eu agora conversei com o Atlântico Sul. Você vai comprar um pouco mais barato, mas você está gerando emprego na China, gerando pagamento de salário na China. Isso muito importa para o país. Então nós vamos ter que construir no Brasil” – disse Lula.

Mais adiante, no mesmo evento, revelou ter exigido de Agnelli investimentos em siderurgia: “Nós estamos discutindo há pelo menos uns quatro anos uma siderúrgica no Espírito Santo, uma no Ceará, uma no Pará. Eu disse ao Roger que é preciso a gente começar a construir essas siderúrgicas porque era para a gente ter começado a construir no auge da crise”.

O presidente da Vale começou a atender a Lula e até mudou a estratégia da companhia. Antes de ser privatizada, a Vale tinha participação em várias siderúrgicas, entre elas Usiminas e Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST). Na gestão de Agnelli, a empresa foi vendendo uma a uma, embora seguisse buscando atrair para o Brasil parceiros internacionais para novos projetos siderúrgicos.

A proposta inicial era que a companhia fosse minoritária nesses projetos. Mas veio a crise mundial e algumas siderúrgicas estrangeiras recuaram nas parcerias. E para atender a pressão pública de Lula para mais investimentos da Vale no setor, a empresa assumiu dois projetos sozinha.

Um deles é a Companhia Siderúrgica de Ubu (CSU), no Espírito Santo, originalmente uma parceria com chinesa Baosteel, que em janeiro de 2009 desistiu do projeto, um investimento de US$ 6,2 bilhões. A Vale também bancando sozinha a implantação Aço Laminados do Pará (Alpa), em Marabá, com investimentos da ordem de US$ 3,2 bilhões. E um memorando de entendimentos já foi firmado com uma distribuidora de aço local, a Aço Cearense, para uma segunda etapa do empreendimento: a implantação de linhas de laminação.

Além dessas usinas, a Vale tem participação em outras duas siderúrgicas no Brasil. Na CSA Siderúrgica do Atlântico, em Santa Cruz, no Rio, a empresa se viu forçada a elevar sua participação de 10% para 26,87% em julho de 2009, devido a dificuldades da sócia alemã ThyssenKrupp para concluir o projeto. O investimento é de 5,2 bilhões de euros e a capacidade de produção é de 5 milhões de toneladas. É a única siderúrgica da empresa no país em operação.

Por fim, a Companhia Siderúrgica do Pecém, no Ceará, uma parceria da Vale (50%) com as sul-coreanas Dongkuk (30%) e Posco (20%), com investimentos de  US$ 4 bilhões e a capacidade de produção anual será de 3 milhões de toneladas ano de placas de aço, com previsão de início de operação em 2014.

Portanto, a direção da Vale obedeceu às pressões e determinações do então presidente Lula. Não resta dúvida sobre isso. Então, a que atribuir a exigência de demissão de Agnelli? Os rumores de sua substituição já circulam desde o ano passado, quando, durante uma viagem ao exterior, Agnelli chegou a classificar esses boatos de “jogo político”, afirmando que a origem deles era o fato de ter muita gente no PT “procurando cadeira”.

Essa declaração, é claro, causou grande contrariedade no Palácio do Planalto, mas acreditava-se que o fato já estivesse superado, porque em fevereiro deste ano, a convite de Agnelli, o ex-presidente Lula participou do lançamento de uma obra da Vale em Conacri, capital da Guiné.

***

AFINAL, QUEM MANDA NA VALE?

Causa surpresa a insistência do governo em interferir nos rumos de uma empresa que se diz privada. Mas quem realmente controla a Vale? Embora tenha sido privatizada em 1997, continua sob controle indireto do governo, através do BNDESPar (braço de participações do BNDES) e de fundos de pensão de estatais, que detem juntos 61,51% da Valepar, a holding que controla a mineradora.

Para trocar o presidente, porém, são necessários 75% dos votos. Por isso, o ministro da Fazenda Guido Mantega teve que procurar Lazaro Brandão, do Grupo Bradesco, que detém 21,21% da Valepar, através da empresa de participações Bradespar. Com apoio do Bradesco, o Planalto coloca até o Tiririca na Vale. 

Agnelli é egresso do Bradesco e, por isso, foi escolhido para comandar a Vale, em 2001. Pelo acordo de acionistas, cabe ao banco decisões de gestão da mineradora, justamente para afastar qualquer caráter estatal do dia-a-dia da companhia. Mas na prática essa estratégia, decididamente, não prevalece.

O jogo de faz-de-conta está cada vez mais evidente. Todos sabem que Agnelli está sendo derrubado por pressão direta de do ministro Mantega (leia-se, presidente Dilma Rousseff, porque ele jamais se atreveria a tanto sem autorização da chefe do governo). Mas qual é o motivo, a justificativa?

O assunto vai render muito. A oposição quer ouvir Mantega e já aprovou convites para o ministro da Fazenda falar na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara.

O mais ridículo nisso tudo foi o ministro Antonio Palocci (Casa Civil) ter dado declarações quinta-feira, afirmando que a Vale “não é um órgão federal” e que, portanto, não faria comentários porque não “caberia” ao Planalto falar sobre uma empresa privada. A quem ele quer enganar? Está brincando com coisa série. Deveria ficar calado.

Não há justificativa oficial para afastar Agnelli, mas já existe explicação para o Bradesco ter atendido à pressão do governo. Segundo O Globo publicou ontem, o banco de Lázaro Brandão pediu garantia de renovação do contrato do Banco Postal, esquema que permite ao Bradesco usar as agências dos Correios para oferecer serviços bancários. Com isso, já tem mais de 10 milhões de contas, com faturamento de 800 milhões/ano.

Mas acontece que a renovação do contrato depende de uma concorrência pública com os outros gigantes do setor: Itaú, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. A licitação será fraudada? Banco do Brasil e Caixa abrem mão de concorrer? Qual será o esquema? Aguardem os próximos capítulos.

Coincidentemente (mera coincidência. é claro), aparece nó noticiário Eike Batista querendo comprar a fatia da Previ na Vale, depois de ter fracssado no projeto de comprar a participação do Bradesco.  E sem a menor ética, critica Roger Agnelli e já aponta o substituto (Sergio Rosa, presidente da Previ). Como a Vale era do pai dele, Eliezer, e tudo que EIke possui hoje deve às artimanhas do pai, que ao mesmo tempo cuidava dos interesses da Vale e de seus interesses pessoais, Eike está apenas pretendendo a parte de sua herança que ficara de fora, quando asssumiu os negócios da famiglia.

Que país é esse, Francelino Pereira? Ora, só pode ser o país da família Batista.

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