Por que o sistema ESG, de sustentabilidade ambiental e social, veio mesmo para ficar?

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Ilustração reproduzida do Google

Eurípedes Alcântara
O Globo

Melhor levarmos a sério, à esquerda e à direita, o fato de nossas lentes antes tão confiáveis para enxergar a realidade nua e crua estarem cada dia mais embaçadas. O candidato à Presidência da República líder nas pesquisas de intenção de voto em 2022 não pode sair às ruas sem ser chamado de “ladrão”. Mesmo assim, numa dessas enquetes seu nome foi apontado como o mais capaz de combater a corrupção.

Com um ideário amalucado, o atual presidente leva um mar de gente para as ruas, mas nunca um ocupante do Palácio do Planalto amargou altas tão grandes de rejeição a si próprio e à atuação de seu governo.

SHOW DA VIDA PRIVADA – Vivemos um tempo de exposição sem igual pelas redes sociais, onde as pessoas desnudam sem censura seus mais profundos segredos, ignorantes do rei da lenda que colocava dragões para vigiá-los, pois eles eram guardiões de seus maiores medos e vulnerabilidades. Entretidas com o show da vida privada, nossas lentes perdem de vista fenômenos tectônicos que estão moldando o mundo atual.

A esquerda e a direita estão embasbacadas não apenas no campo da política, mas também na economia. Muitas de suas análises de fenômenos reais produzem resultados inconsistentes. Um dos fenômenos desafiadores do nosso tempo é o ESG, a sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança.

Sob essas três letras está se organizando uma nova economia, que desafia conceitos sólidos sobre os quais foram erguidos o capitalismo e, por consequência, o mundo contemporâneo.

VIROU POLÊMICA – O ESG desafia a compreensão mesmo dos mais atilados economistas, a começar por seu mais encorpado crítico, Eugene Fama, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Economia de 2013. Fama acha “muito difícil” que as empresas possam ser lucrativas e ao mesmo tempo ambientalmente responsáveis, sendo geridas por critérios de diversidade social e racial.

Fama, porém, disse recentemente acreditar que, se “reguladores e o mercado atentarem para essa dicotomia fundamental” entre o lucro e o ESG , ele teria “mais esperança de que esses elementos opostos do jogo econômico sejam compatíveis”. É um tremendo avanço teórico.

Como em todas as eras, acerta mais quem dá atenção especial para a demografia e suas leis eternas de transição de poder e visão de mundo entre a geração que sai de cena e a que ruma para o centro do palco.

PREVISÕES FALHAM – O administrador e executivo Fábio Barbosa, evangelista pioneiro dos conceitos de ESG, muito antes de a sigla existir, diz que “previsões econômicas costumam falhar, mas previsões demográficas são infalíveis”.

Ele se refere ao fato de estarem chegando ao mercado consumidor e ao comando das empresas, ao mesmo tempo, integrantes de uma geração que, como o gaulês Asterix, caiu no caldeirão de ESG e não se conforma em viver num mundo igual ao construído por seus pais.

O jornal inglês Financial Times calculou que a geração ESG controlará uma economia de US$ 30 trilhões até o fim desta década.

SUSTENTABILIDADE – O susto equivalente que a esquerda está tendo com o ESG vem da constatação, para os esquerdistas chocante, de que só mais capitalismo, e não menos, permitirá que a economia se torne sustentável, e as oportunidades mais justas no mercado de trabalho.

Sabe aquele pessoal que põe preço em tudo, mas não dá valor a nada? Está batendo em retirada. Todo o esforço agora é em precificar e, assim, dar valor de preservação a tudo o que queremos conservar — árvores em pé, ar puro, água potável.

Os questionamentos atuais ao ESG se concentram justamente na necessidade de aferir com métricas confiáveis quais empresas estão mesmo tentando compatibilizar lucro com processos ambientais, sociais e de governança saudáveis e quais estão apenas greenwashing — ou seja, fingindo ser sustentáveis. Nenhuma instituição é mais capaz do que o mercado e seus reguladores — o capitalismo — de fazer e cobrar o cumprimento dessas métricas.

2 thoughts on “Por que o sistema ESG, de sustentabilidade ambiental e social, veio mesmo para ficar?

  1. Excelente matéria abordando ESG e por isto fico animado com a geração de líderes jovens em formação, preocupados com a sustentabilidade. Com o permisso do Alcântara vou copiar, distribuir e dar o devido crédito.

  2. Qualquer roupagem que se dê ao Capetalismo – a EXPLORAÇÃO continuará sendo o cerne.

    Não há como domar o Capitalismo.

    Já foi dito há mais de dois mil anos:

    “Não se pode servir a dois senhores…”

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