Por que Sergio Cabral se preocupa tanto com o empréstimo do jato Legacy de Eike Batista, quando há denúncias muito mais importantes para responder?

Carlos Newton

Ibrahim Sued costumava dizer que “em sociedade tudo se sabe”. É verdade, segredos duram muito pouco. No caso do governador Sergio Cabral, que é um dos destaques da sociedade carioca, não somente pela importante função política, mas também pela fortuna que amealhou nos últimos anos, pode-se dizer que a vida dele é hoje um livro aberto.

A cada dia a imprensa aperta o cerco ao governador, as informações vão surgindo inexoravelmente. Cabral se desespera. Não tem condições de fazer nada, a não ser assistir à própria derrocada. Ontem terminou a licença que pediu, a pretexto do choque pela morte trágica da namorada de um de seus filhos, além de outras seis vítimas da queda do helicóptero, todas ligadas intimamente a ele.

Grande número de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas aguardaram ontem no Palácio Guanabara que o governador enfim respondesse às pesadas denúncias que se acumularam nos últimos dias. Mas a espera foi em vão. Nenhuma declaração, nenhuma palavra, nada, nada.

A única informação que vazou foi de que Cabral mandou chamar um dos executivos de Eike Batista para uma reunião em seu gabinete, com objetivo de justificar o uso do jatinho do empresário na ida a Porto Seguro.

Esta única e escassa informação, por si só, aparentemente mostraria o grau da desorientação que atinge o governador. Com tantas denúncias pesadas de corrupção, por que ele se preocuparia exatamente com o empréstimo do luxuoso jato Legacy de Eike? Por que tamanha preocupação com um detalhe que parece até irrelevante em relação à gravidade das demais questões.

Mas acontece que, muitas vezes, são os pequenos detalhes que explicam tudo.

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DUAS VERSÕES BEM CONFLITANTES

Na quarta-feira passada, dia 22, o blog da Tribuna questionou a versão da assessoria do governador sobre a hora da viagem. Mostramos que as primeiras matérias publicadas por O Globo sobre o acidente do helicóptero em Porto Seguro noticiaram que Cabral estava em Porto Seguro desde a sexta-feira de manhã, pelo menos, segundo relato do  prefeito Gilberto Pereira Abade, que encontrou o governador passeando pela cidade, de acordo com declarações publicadas pelo maior jornal baiano, A Tarde.

E mais: lembramos que a reportagem de O Globo também divulgou que “o acidente aconteceu após um almoço do grupo no Villa Vignoble Terravista Resort, em Trancoso. De lá, os convidados começaram a ser levados para o Jacumã Ocean Resort, a uma distância de 15 km. Como eram várias pessoas, foi preciso fazer várias viagens”.

Na edição de terça-feira, porém, O Globo publicou sem qualquer contestação uma informação oficial da assessoria do governador, que mudava tudo, dando conta de que Cabral, o filho e a namorada teriam viajado para a Bahia junto com a família Cavendish, no final da tarde de sexta-feira, no jato de Eike Batista, que teria decolado do Santos Dumont às 17 horas.

Como se vê, a “informação oficial” da assessoria do governador desmoralizava totalmente as matérias de O Globo e de A Tarde, como se os repórteres tivessem inventado não somente a realização de um almoço em Trancoso, mas também estivessem mentindo sobre o fato de o prefeito de Porto Seguro ter se encontrado com Cabral na sexta-feira de manhã.

E nem O Globo e nem A Tarde se preocuparam em desmentir a versão do governador. Aqui na Tribuna, demonstramos que a versão de O Globo e de A Tarde era muito mais factível do que a informação divulgada pela assessoria de Cabral, pelos seguintes motivos:

1) A viagem Rio-Porto Seguro, em boas condições meteorológicas, dura bem mais de uma hora, porque a distância é de 400 milhas náuticas (740 km) e a velocidade máxima do Legacy é de pouco mais de 800 km/h.

2) Contando o tempo perdido em decolagem, aterrissagem e outros procedimentos, a viagem teria durado bem mais de um hora, porque o tempo estava ruim.

3) Assim, se o jatinho de Eike decolou do Rio às 17 horas, a que horas chegou a Porto Seguro?

4) Como foi amplamente divulgado, o helicóptero levava 10 minutos no percurso Porto Seguro-Jacumã. A decolagem fatídica do helicóptero ocorreu às 18h31m, segundo O Globo. Como antes o helicóptero já havia feito uma viagem, conduzindo o governador e a esposa do piloto, e depois voltando a Porto Seguro, o tempo vai ficando cada vez mais escasso para confirmar a versão da assessoria de Cabral, de que o jatinho decolara do Rio às 17 horas.

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FOLHA DESMENTE VERSÃO DE CABRAL

Ontem, a assessoria de Cabral reafirmou que ele embarcou do Rio para Porto Seguro às 17 horas da sexta-feira, dia 17. A mesma informação foi novamente prestada pela assessoria da EBX, empresa do empresário Eike Batista.

Mas acontece que a presença de Cabral em Porto Seguro foi confirmada por funcionários da Fazenda Jacumã, um condomínio de casas luxuosas próximo a Porto Seguro, onde ocorreria a festa de Cavendish. Dois funcionários, que pediram para ter a identidade preservada, relataram ao repórter Graciliano Rocha, da Folha,  terem visto o governador no local antes do meio-dia.

O jornalista apurou também que o avião que transportou o governador à Bahia deveria pousar na pista do Terravista, um condomínio de luxo a cerca de 20 km de Jacumã. Segundo funcionários do aeroporto privado, também ouvidos pela Folha, a gerência da Jacumã telefonou na manhã do dia 17 para perguntar se um jato com o governador do Rio poderia pousar na pista e se o helicóptero Esquilo, pilotado por Marcelo Mattoso Almeida (uma das vítimas), poderia levá-lo à fazenda, a 10 minutos de voo.

Como o tempo estava chuvoso e o Terravista não opera pousos e decolagens por instrumentos, os operadores indicaram que a aeronave deveria se dirigir a Porto Seguro.

A administração do Aeroporto de Porto Seguro e a Aeronáutica não se manifestaram sobre o horário da chegada do jato privado com Cabral e os voos realizados pelo helicóptero de Almeida.

No Rio, de acordo com a assessoria do governador, a informação de que Cabral e sua comitiva viajaram às 17 horas poderia ser confirmada no Aeroporto Santos Dumont e também na Escola Britânica, onde ele teria passado para ver os filhos pouco antes de embarcar.

Procurados pela Folha, o aeroporto Santos Dumont e a Aeronáutica afirmaram que a informação sobre o horário de saída do avião é sigilosa. Já na Escola Britânica, não foram localizadas pessoas que pudessem confirmar a presença de Sérgio Cabral no local. Traduzindo: está mais do que comprovado que a versão de Cabral é mentirosa, conforme a Tribuna adiantou na terça-feira passada, com total e absoluta exclusividade.

Agora só resta explicar que essa fixação de Cabral em mudar a data do vôo tem apenas um objetivo: aliviar o peso de sua consciência, conforme já explicamos aqui na Tribuna, também na terça-feira. Cabral, indiretamente, foi o culpado pela morte da namorada do filho.

Se o governador tivesse cumprido sua obrigação e trabalhado normalmente na sexta-feira, sem inventar um fim de semana prolongado que nao existia, se não tivesse pedido emprestado o jato Legacy de Eike Batista, ao qual também é tão ligado, não teria levado o filho e a namorada a perderem o dia de aula, nada disso teria acontecido, e ele não estaria chorando a morte da jovem que seu filho Marco Antonio tanto amava.

Esta é a realidade de uma tragédia que nunca deveria ter ocorrido, na trajetória de um político que nasceu limpo e nunca deveria ter se enfeitiçado pelo fascínio da riqueza corrompida. E há muito mais a falar sobre esse rumoroso caso. E daqui a pouco a gente volta.

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