Por que Serra começou a cair

Carlos Chagas

Ainda não é hora para exegeses ou, muito menos, para recriminações. Fica claro, no entanto, que continuando as coisas como vão, Dilma Rousseff deverá eleger-se em 3 de outubro. As perguntas empurradas para mais tarde, mas já com respostas esboçadas, referem-se ao momento em que as previsões sucessórias começaram a mudar. Quando? Por quê?

Durante muitos meses as pesquisas mostravam José Serra como vencedor. Uma evidência a mais da fragilidade dessas consultas populares ou de que as tendências do eleitorado costumam ser volúveis. Mesmo assim, há espaço para interpretações.

Parece óbvio que Dilma cresceu por conta da alta exposição do presidente Lula no processo. Lançando-se de corpo e alma na propaganda da candidata por ele criada, o primeiro-companheiro reafirmou sua popularidade, conseguindo transferi-la para a criatura.

Mas teve mais. No reverso da medalha, José Serra começou a cair quando perdeu semanas preciosas na tentativa de fazer de Aécio Neves seu candidato a vice, mesmo depois da decisão inflexível do então governador de Minas de disputar o Senado. O candidato do PSDB demonstrou indecisão e, mais ainda, submissão ao DEM, cujo tamanho não justificava as pretensões de exigir a indicação do companheiro de chapa. Não teria para onde ir, o antigo PFL.

O desgaste ficou óbvio, em especial quando surgiu o nome de outro tucano de respeito, o senador Álvaro Dias, do Paraná. Se feito candidato, ele agregaria não apenas votos e percentuais, mas respeito.
Seguiu-se uma trapalhada dos diabos, com Álvaro Dias dando sua concordância pela manhã e sendo atropelado à tarde por gesto temerário do presidente do DEM, Rodrigo Maia. Ficou pior quando o pequeno partido impôs o nome de um ilustre desconhecido, o deputado Índio da Costa, do Rio, que José Serra aceitou sem ao menos ponderar ou protestar. Mas teve mais: em suas primeiras aparições, o figurado silvícola meteu os pés pelas mãos, acusando o PT de ligações com o narcotráfico. Serra saiu em seu socorro, lambuzando ainda mais a equação.

Pode parecer estranho, mas o eleitorado vinha tomando conhecimento de tudo, passando, nas pesquisas, tanto quanto aderir a Dilma, rejeitar Serra. Acresce o monumental aparato promocional da candidata, o empenho cada vez maior do presidente Lula em seu favor e, last but not least, a falta de mensagens poderosas e contundentes por parte do candidato da oposição. Resultado: a diferença entre eles é de dezoito pontos percentuais, fazendo prever a decisão ainda no primeiro turno. Na teoria, sempre será possível uma inversão de tendências. Na prática, nem tanto…

Nomes já existem, é claro

A natureza segue seu curso, apesar das negativas mais do que honestas de Dilma Rousseff, sobre não estar cogitando de formar seu governo. Na verdade, a candidata não poderá selecionar seu ministério por sorteio na lista telefônica, muito menos esperar que desçam do céu legiões de anjos disponíveis. O material com que precisará trabalhar é o que se encontra a seu redor.

Sendo assim, por nossa conta e risco, vale especular, ou melhor, fulanizar. Antônio Palocci só não irá para a chefia da Casa Civil se não quiser. José Eduardo Cardoso é nome cotado para o ministério da Justiça. Celso Amorim, para continuar pelo menos por mais um ano no ministério das Relações Exteriores. Henrique Meirelles integrará a equipe econômica, provavelmente fora da presidência do Banco Central. Franklin Martins tem tudo para continuar no ministério da Comunicação Social. José Pimentel será ministro, não podendo ser senador por Minas. Edison Lobão entusiasmou Dilma quando a sucedeu no ministério de Minas e Energia, dispondo de todas as condições para voltar, inclusive como representante do PMDB, característica menos adaptável a Henrique Meirelles. Que m quiser que continue, mas já vão aí alguns nomes.

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