Poucos dias após Moro se demitir, Bolsonaro passou a interferir na Polícia Federal

Denisse Ribeiro conseguiu retardar a operação da Polícia Federal

Carlos Newton

É impressionante a audácia de Jair Bolsonaro, que não respeita os limites institucionais e se comporta como se estivesse acima da lei e da ordem. Para interferir na Polícia Federal e proteger os interesses da família e dos amigos, conforme suas próprias palavras na reunião ministerial de 22 de abril, o presidente da República fez o possível e o impossível até conseguir a demissão do ministro Sérgio Moro, um cidadão acima de qualquer suspeita e que é hoje o brasileiro de maior prestígio no exterior.

Com a troca do diretor-geral e do superintendente do Rio de Janeiro, poucos dias após a saída de Moro o chefe do governo conseguiu realizar seu intento e começou a ter ingerência indevida na PF.

COMPROVAÇÃO – Reportagem de Bela Megale e Aguirre Talento, em O Globo nesta quinta-feira, comprova que no dia 27 de maio a Polícia Federal já estava curvada às pressões do chefe do governo e adiava a Operação Lume, cujo objetivo era busca e apreensão contra bolsonaristas suspeitos de envolvimento em atos antidemocráticos.

Para atrasar a operação, a Polícia Federal pediu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para “postergar” ou “recolher” os mandatos de busca e apreensão contra bolsonaristas.

A decisão foi tomada pela delegada Denisse Dias Rosa Ribeiro, que cumpriu ordens superiores do novo superintendente no Rio de Janeiro, Tácio Muzzi, e do diretor-geral Rolando de Souza, ambos nomeados após a saída de Sérgio Moro. Os três conseguiram retardar a Operação Lume em 20 dias, tempo mais do que suficiente para destruir provas e sumir com computadores e celulares.

ORDEM DO SUPREMO – Foi em 27 de maio que o ministro Alexandre Moraes determinou a deflagração da Operação Lume, com busca e apreensão contra 21 alvos bolsonaristas e também com quebra do sigilo bancário de 11 parlamentares da base de apoio do presidente Bolsonaro.

Mas a nova direção da PF mão obedeceu e deu início a uma manobra de “jus embromandi”, uma espécie de “juz sperniandi” operacional. Foi assim que a delegada Denisse Ribeiro levou exatos oito dias para escrever a petição ao Supremo com alegações que chegam a ser infantis.

Pede o retardamento ou revogação das ordens já emanadas, a pretexto de que “o direcionamento dos recursos da Polícia Federal seja inicialmente empregado na obtenção de dados de interesse e no preenchimento das diversas lacunas das hipóteses criminais aqui apresentadas”, escreveu a delegada, sem detalhar que lacunas seriam essas.

ALEGAÇÕES PUERIS – A delegada falou também em “perda de energia” e num “risco de aumento do escopo” da investigação, além de torná-la “menos objetiva, menos transparente e mais onerosa”.

Embromou bastante, mas acabou entregando o jogo, ao argumentar que a realização das “diversas medidas propostas em etapa tão inicial” da investigação traria risco desnecessário à estabilidade das instituições.

Em tradução simultânea, ao invés de “risco desnecessário à estabilidade das instituições”, por favor leia-se “Bolsonaro não quer”.

CAUSOU ESTRANHEZA – Essa manifestação para adiar ou “recolher” os mandados de busca e apreensão é incomum e prejudicou a operação, prevista para o início de junho. Essa atitude da Polícia Federal foi vista com estranheza no STF, já que a Polícia Federal é obrigada a cumprir mandados expedidos pelo Judiciário e não tem prerrogativa de opinar sobre essas ações.

O mais incrível é que na petição, a delegada também questiona se a PF terá “independência para realizar suas linhas de investigação próprias neste caso” ou se vai “atuar limitadamente como longa manus do juízo, restringindo-se ao mero papel de executora de ordens”, em claríssima crítica à atuação do relator Alexandre de Moraes.

AFASTAR A DELEGADA – Segundo fontes do STF, dizem os repórteres Bela Megale e Aguirre Talento, o ministro Moraes analisa um pedido da Procuradoria-Geral da República para afastar a delegada, que faz parte da equipe, mas quem a lidera é o delegado Igor Romário de Paiva.

O inquérito dos atos antidemocráticos é conduzido por uma equipe designada especialmente pelo ministro Alexandre de Moraes, a mesma que toca o inquérito das fake news. Em um despacho, Moraes garantiu a independência deles para atuar neste caso, sem necessidade de se subordinar ao novo diretor-geral da PF Rolando Alexandre de Souza, indicado pessoalmente por Bolsonaro após a saída de Maurício Valeixo.

Em uma outra investigação na qual atuou, a delegada Denisse também já tinha feito reclamação semelhante. Na Operação Zelotes, ela escreveu um relatório no qual criticou falta de “foco” dos órgãos parceiros da investigação e apontou que isso atrapalhou no resultado final do caso.

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P.S.
A dúvida é saber se a Polícia Federal vai continuar curvada a um governante desequilibrado como Jair Bolsonado ou vai dar o grito de independência e voltar a operar visando ao interesse público. (C.N.)

21 thoughts on “Poucos dias após Moro se demitir, Bolsonaro passou a interferir na Polícia Federal

  1. ídolo de banqueiros e doleiros, moro – legítimo sucessor do ex-deputado Cunha -, sua “onestidade” e subserviência aos poderosos daqui e dos “isteitis” tornou-o co-criador desse mostrengo que é o desgoverno boçal e sua familícia.

    moro:
    ex-juiz amoral
    e sem juízo,
    sinistro
    num desgoverno que só nos deu e dará prejuízo,
    demonstrou a quem tem 2 neurônios funcionais
    o quanto vale um herói-bandido.

  2. O jornalista José Nêumanne Pinto tem sempre falado – nos seus vídeos – que dentro da PF já existe uma grande turma bolsonarista. E essa delegada vem confirmar isso, sendo portadora de uma cara-de-pau estarrecedora.

    A notícia boa é que trata-se de uma pequena parte da PF que acredita na seita dos fanáticos bolsonaristas.

  3. 1) TI = Tribuna do Inverno, começa hoje… às 18:44.

    2) Licença…sobre a Covid-19… 1 milhão de brasileiros contaminados infelizmente, e quase 50 mil mortos, coisa triste…

    3) Pensamento do Dia: “Ser presidente é como administrar um cemitério. Há um monte de gente embaixo de você, mas ninguém escuta” = Bill Clinton,

    4) Fonte: Máximas, pág. 38, do jornalista Thales Guaracy.

  4. Mais um retratado da república bichada, dos pés à cabeça, sob a qual quem aparelha mais e melhor , leva mais vantagens em relação aos adversários, num país onde até um peido pode ser considerado crime, com uma sociedade dividida em três bandas: a boa, a bandida e a volúvel ( a que oscila entre uma e outra conforme as circunstâncias espaciais e temporais).

  5. Carlos Newton, está escrito que o objetivo da operação “…era busca e apreensão contra bolsonaristas suspeitos de envolvimento em atos antidemocráticos.”

    Mas só os “bolsonaristas” serão atingidos ? E os ministros do STF que praticam no atacado atos antidemocráticos não terão lugar nesse barco ?

    É claro que todo ministro do STF sabe – até aquele que foi reprovado duas vezes em concurso para juiz – que é ilegal fazer um inquérito secreto, sem indiciados, sem acusação formal a ninguém pela violação de qualquer dos 341 artigos do Código Penal e sem direito de defesa para os perseguidos.

    Isso jamais aconteceu quando a capital era no Rio de Janeiro; mas em Brasília tudo pode acontecer.
    Até acabar com a prisão em segunda instância no apagar das luzes do ano para poder colocar ladrões do dinheiro do povo em liberdade.

    Todos os Poderes do Brasil estão podres. Não vejo solução para o Brasil. Infelizmente.

  6. É engraçado, não? Todos concordam que esse inquérito é ilegal e inconstitucional, porque deveriam ser seguidas ações com esses vícios ilegais? Porque a delegada teria que cumprir disposições que vão contra a Constituição a qual jurou respeitar e fazer respeitar? Nada mais coerente a ação da delegada e deveria ser assim o atuar de todo cidadão brasileiro.

    Lembremos que Cortes Internacionais julgaram militares que cometeram crimes “seguindo ordens superiores”. Como é a fragilidade da argumentação que agora Bolsonaro já estaria influenciando a funcionários, porque não pensar que o funcionário é um cidadão que tem princípios e pode atuar cumprindo o que dita sua consciência.

      • Oi, Leão, já reparou que de uma hora para outra todo mundo passou a ser constitucionalista? Sendo assim, realmente o Supremo passou a ser dispensável, surgiu uma ADIN, não tem problema, publica-se nas redes e os acólitos de plantão farão a justa interpretação.

      • Todos aqueles que entendem que uma pessoa ou entidade não pode ser vítima, acusador, repressor e julgador. Nem na monarquia o rei tem esses poderes. Porém aqui para apoiar sua tese permite-se tudo. Hoje o arbítrio é contra alguém que pensa diferente de você, porém amanhã pode ser você é será tarde, Bertold Bretch já escreveu sobre isso.

  7. Mas qual a surpresa ?
    O Clã domina tudo,falei TUDO.

    A saber: Domina os militares, (anestésico),com polpuda remuneração extra em cargos no governo.
    Domina outros setores, o ponto fora da curva é exatamente os 300 pingados insuflador,com apoio explícito dos amigos do clã.

    A incendiária Ucraniana,do alto do seu”treinamento”perdeu se na poeira,ao atacar e ameaçar membros e familiares do STF.
    Pior de tudo,revelou por inteiro,o poder paralelo dos milicianos. O Queiroz que o diga.

    De outra banda,estranho muito estranho o Planalto mandar emissários `a falar com o Min. A Moraes, em SP.
    Espero,que Min. não arregle com esses bando de malfeitores.

    PS: Aí, os de pijama, não vão soltar uma notinha de repúdio contra prisão da Ucraniana,Queiroz e Cia.

    O General e ex Pres. Ernesto Geisel,errou na avaliação, não é um 1, são vários perigosos.

    Ki.. República !!!

  8. Celso, pior do que soltar os preso “corruptos/hediondos” é o fato que nunca mais com a legislação aprovada pelo congresso e sancionada pelo Bolsonaro; o corrupto hediondo ficará preso depois da liberação da prisão preventiva; que tem duração curta.
    PS: Basta desviar $ suficiente para pagar banca de lavagem de $ (digo advogados).

  9. Delegada com comportamento desses, no mínimo, deveria ser repreendida, em processo disciplinar.
    Prevaricou feio.

    E vou além.

    Certamente a operação era conhecida pelos investigados, que previamente puderam se desfazer de uma ou outra coisa, preparando os cenários alvo da busca e apreensão… mas claro, foram ótimos atores para não aparecer que soubessem.

  10. Esta moça, competente para avaliar os riscos de uma simples operação de busca e apreensão para com a estabilidade institucional, deveria ser rapidamente requisitada para a assessoria política e jurídica do Senhor Presidente. Mas não ficará ao desamparo, uma boa promoção lhe aguarda.

  11. O probleytodo de criticar severamente (merecidamente) pessoas dessas é que são vingativos

    Vaja a crítica feita por amigos e colegas de trabalho daquele reitor que se suicidou (acho que no Paraná ou Santa Catarina) após uma operação midiática da PF na Universidade apontá-lo criminoso, sem processo e julgamento, em cadeia nacional por sua tlrede de vazamentos.
    Foram criticar e sobrou que todos foram perseguidos.
    O fascismo é assim.

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