Povo nas ruas contra Bolsonaro, pelo impeachment, pela vacina, contra o golpe e pela democracia

Governo Bolsonaro desmorona e não tem mais tempo para recuar

Pedro do Coutto

O povo voltou às ruas do país, principalmente na Avenida Paulista, no Rio de Janeiro, em Brasília, em diversas outras capitais e até no exterior, reunindo brasileiros que vivem em cidades americanas e na Europa.

Foram manifestações maciças que atingiram profundamente o presidente Bolsonaro e o governo, sobretudo na medida em que eventos tão intensos acrescentam o que estava faltando até há pouco, a voz do povo nas ruas fechando o círculo que isola ainda mais o presidente e o Palácio do Planalto.

ISOLAMENTO – No O Globo de domingo a reportagem é de Alfredo Mergulhão, Camila Zarur, Rodrigo Castro, Guilherme Caetano, Ivan Martínez Vargas e Mariana Muniz. Na Folha de São Paulo a reportagem não é assinada, mas tanto quanto o Globo destaca as manifestações que deixam a administração Bolsonaro isolada e vulnerável a qualquer ofensiva para decretação do seu impeachment.

O repórter Ricardo Balthazar, Folha de São Paulo, relata os diversos pedidos de impedimento contra o presidente e que estão engavetados pelo deputado Arthur Lira, presidente da Câmara  Federal. Lira é a última barreira colocada e voltada para resistir à onda da opinião pública contra um governo sem projeto e sem rumo, cuja atuação a cada dia piora, uma vez que o Planalto apoia-se em setores radicais da direita, nos produtores de mensagens nas redes sociais e no peso da inércia da Mesa Diretora, obstáculo para conter uma iniciativa que luta para afastar Jair Bolsonaro do cargo que ocupa, mas que não sabe agir dentro do espaço da liberdade e do regime democrático.

A pressão contra Bolsonaro aumentou no decorrer da última semana, conforme destaca Bernardo Mello Franco, O Globo. Em matéria de impeachment , acredito que a questão terminará no Supremo Tribunal Federal, quando os que assinaram os pedidos recorrerem contra a atitude de Arthur Lira.

ACIMA DA LEI – Não tem sentido o presidente de uma Casa do Congresso colocar-se acima da legislação e do bom senso, negando o recurso do plenário, o que caracteriza um caso singular. A maioria da Câmara inclina-se por votar a abertura do processo, mas encontra o bloqueio de Lira.

A contradição de tal atitude é evidente porque se a lei em vigor prevê a hipótese de o plenário rejeitar a posição do presidente da Casa, tal hipótese só pode se configurar depois que esse presidente liberar a matéria para a discussão do plenário, pois se não fizer isso estará barrando uma perspectiva legal bastante clara.

Mas como são 120 requerimentos contra o governo, os signatários deverão se reunir, penso eu, e redigir um documento comum para que a corrente possa entregar ao Supremo o desfecho e o destino da questão.

CASO HERZOG – Em um excelente artigo publicado ontem, no O Globo, Míriam Leitão destaca o transcurso dos 80 anos de Clarice Herzog, mulher do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do II Exército em 1975. Praticaram a farsa do suicídio por enforcamento quando ele de fato foi morto por torturas praticadas pelos órgãos de repressão, marcado por violento impulso de sadismo.

Cerca de duas semanas depois do assassinato de Herzog, um fato sinistro se repetiu com o operário Manoel Fiel Filho, nas mesmas dependências marcadas pelo desespero do jornalista e pelo desespero do operário, duas vítimas do maior crime hediondo da história que é a tortura.

Foi importante Míriam Leitão focalizar o tema em um momento em que, cada vez mais, se aproxima um desfecho que inclui o impedimento de Bolsonaro e a sua substituição por Hamilton Mourão. Isso porque, aceito o pedido de impeachment, o plenário da Câmara votará o afastamento de Bolsonaro pelo prazo de 120 dias. É possível, portanto, que superado o prazo de quatro meses, o afastamento provisório termine tornando-se definitivo.

FHC – O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em artigo publicado no O Globo, dentro de seu estilo de não entrar em bola dividida, aconselhou Jair Bolsonaro  a prestar atenção ao que acontece no país, incluindo o acesso aos fundos públicos. Não deveria desviar o olhar, acrescentou, deixando a impressão de que os fundos públicos citados seriam os recursos dos planos de aposentadoria complementar das empresas estatais, como é o caso da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Eletrobras.

FHC diz que o presidente Bolsonaro deve atuar positivamente enquanto tem tempo. Discordo, pois não há mais tempo para recuar. O escândalo da compra de vacinas acentuado por Elio Gaspari em seu espaço no O Globo e na Folha de São Paulo deixa o Executivo numa situação de calamidade administrativa.

Conforme já dito aqui anteriormente, a queda livre do presidente foi acelerada pelo episódio estranhamente sombrio da intermediação da Covaxin indiana que não engana ninguém. A proposta foi arquitetada por uma teia de interesses que não dá margem para escapismos. A semana que se inicia aprofundará ainda mais a carga da opinião pública sobre o governo que faz oposição a si mesmo e, portanto, a todo o país.

MUSICAIS DO CINEMA –  Para não dizer que não falei das flores, restringindo-me apenas ao cheiro da pólvora dos levantes políticos, destaco o artigo de Ruy Castro, Folha de São Paulo, sobre os musicais do cinema. Ele citou “Cantando na Chuva” (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly, e “My Fair Lady” (1964), de George Cukor.

Concordo, acrescentando “Sinfonia de Paris” (1951), de  Vincente Minnelli, e “La Ronde” (1951),  dirigido por Max Ophüls. Há também que assinalar a beleza da “Noviça Rebelde”. Mas “Cantando na Chuva” e “Sinfonia de Paris”, ambos com Gene Kelly, um gênio da dança, são igualmente inesquecíveis.

Pertencem ao passado e não creio que estilo eterno de sensibilidade e beleza  possa retornar na época de hoje. Deixam saudade e não se encontram nos catálogos da NetFlix, do Now ou da Amazon. Creio que a solução é adquirir os cassetes e também a tela na qual poderão ser exibidos. Ruy Castro, mais uma vez, assinala a sua condição que já lhe atribui de passageiro da história reveladora e tradutor do passado.

14 thoughts on “Povo nas ruas contra Bolsonaro, pelo impeachment, pela vacina, contra o golpe e pela democracia

  1. Coincidencia, sabia que Clsrice era a esposa
    Agora o jornalista informa que tambem era o nome da mãe do jotnalista Herzog. Ficou a dúvifa.

  2. Faltou dizer sobre a violência dos manisfestantes contra o patrimônio público
    Com a destruição de pontos de ônibus, estação do Metrô, e o ataque covarde aos policiais que faziam a segurança.
    A propósito , pode fazer Manisfestação em tempos de pandemia.?
    Aglomeração e várias pessoas sem máscaras…..
    Pode isso, Arnaldo.?

  3. Che, temos de ter consciência que, se até um dos apóstolos de Cristo foi corrupto (!!!!), não seria Bolsonaro que resistiria à tentação!

  4. Cabe aos alagoanos de bem nunca mais votarem em Arthur Lira (PP-AL), porque ele está se mostrando um canalha, corrupto, e aliado ao que há de pior, que é Jair Bolsonaro, e está sentado, sem levar ao conselho de ética mais de cem pedidos de impeachment do genocida Jair Bolsonaro.

  5. Esse é o problema de quem se informa na globo. Qualquer um que não se informa só pela globo, sabe que nessas minifestações, não tinha povo.
    Alias, não tinha ninguém; isso me causa curiosidade; com tanto malandro agarra em tetas publicas; por que será que esses malandros não compareceram. Se metade dos malandros da teta publica comparecessem, eles encheriam a paulista, sem precisar da globo e do antagonista manipulando imagens, para falsificar apoio.

  6. Nunca é demais lembrar que o coiteiro de milicianos há três décadas – já dizia e fazia o que diz e faz hoje:

    ao invés de trabalhar, ROUBAR dinheiro da população

    fazer propaganda da TORTURA

    … dando seguimento aos seus desvarios encaminhou toda a sua familícia para a política partidária d’onde encontrou campo fértil para sua pulsão criminosa.

    Pouquíssima gente se enganou com o atual presidente Broxanaro, desde sempre boquirroto.

  7. Só uma indagação: por que insistem em rotular de “escãndalo da COMPRA de vacinas” um fato que não se concretizou? Há suspeitas sobre as tratatativas para a compra, ao que parece feitas por picaretas que nem representantes dos fabricantes eram. Não pé dificil supor que o mesmo tenha acontecido nos estados e municípios diante da montanha de dinheiro a eles endereçada para as acções da COVID-19. Há que investigar, sim, em todos os níveis de governo e garantindo a presunção de inocência prevista na CF e tão invocada quando se tratava de proteger, sem cabimento, o ex-presidiário, atualmente bandido à solta já que não foi inocentado em nenhum dos processos a que responde.

  8. Estranho, muito estranho este país.
    Numa passeata pacífica no Recife/PE, dois transeuntes que nada tinham a ver com a mesma, foram cegados em um olho por balas de borracha disparadas por PM’s.
    Em outra, forças de segurança são apedrejadas, vitrines quebradas, agências bancárias depredadas e nenhum, mas nenhunzinho dos arruaceiros é preso.
    Estranho, muito estranho.

  9. Na minifestação contra o Presidente da República teve de tudo: droga; vandalismo; putaria ao ar livre; pedetistas levando porrada de petistas; tucanos apanhando de todos os outros e pacíficos manisfestantes esmagando a cabeça de PMs, com paralelepípedos. Enfim, teve de tudo, menos povo!

Deixe um comentário para Paulo Saboia Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *