Preço de Ronaldinho, estranho silêncio do Flamengo

Pedro do Coutto

Foi uma novela publicitária bem montada em capítulos de marketing a que envolveu, com final feliz, a aparente contratação do supercraque Ronaldinho Gaúcho pelo Flamengo. Garantiu, através de desfecho apoteótico, a permanência do fato nos jornais, emissoras de rádio e TV ao longo de duas semanas.

O produto foi bem exposto, mas em artigo na Folha de São Paulo da semana passada, Pelé condenou o leilão mais forjado que verdadeiro, em meio a uma atmosfera de Coliseu Romano, em torno da compra do passe do jogador de 31 anos. A arena, dividida entre rubronegros, gremistas e palmeirenses, ungia-se pela preferência definitiva do pentacampeão do mundo em 2002. Uma farsa. Estava tudo decidido pelo Milan e pela Traffic, empresa que, pelo que estou informado, tem a exclusividade na produção dos ingressos eletrônicos para os jogos do Maracanã.

Pode ser – não estou dizendo que não – que possua outros negócios no universo do esporte, mas, à primeira vista, qual o interesse que poderia alimentar em torno do financiamento da transação. Financiamento? A propósito: quanto custou o passe de Ronaldinho? O Flamengo e o Milan não divulgaram. Estranho silêncio, especialmente de parte do clube carioca, titular da maior torcida do Brasil.

A melhor matéria sobre o assunto foi publicada pela página de esportes de O Globo, não assinada, na edição de quarta-feira. Incluiu uma entrevista com a presidente do clube, Patrícia Amorim. Ela destacou terem sido firmados três contratos: um entre o Flamengo e Ronaldinho, com base na CLT. Salário de um milhão de reais por mês, com a duração de 4 anos. Logo, valor de 48 milhões. Outro entre o Flamengo e a Traffic, incluindo faturamento de marketing e direito de uso da imagem do jogador. Um terceiro, também com a participação da Traffic, envolvendo o patrocínio a ser estampado no glorioso uniforme rubro-negro.

Estou muito à vontade para fazer a afirmação: sou tricolor, como já disse aqui várias vezes. Há uma quarta etapa, esta bastante vaga, de parceria entre o Fla e o Milan em matéria de descoberta e formação de atletas. Difícil. Um clube fica no norte da Itália, dividindo o estádio com o Inter de Berlusconi. O outro na Gávea,
 no Rio de Janeiro.

Patrícia deixou tudo em meio a uma nuvem de dúvida e não falou a respeito da dívida inevitavelmente assumida pelo rubronegro. Como Visconti, em “Vagas Estrelas da Ursa Maior”, ela foi igualmente vaga ao se referir à campanha para a formação de um quadro de sócio-torcedor, a ser montada igualmente pela Traffic. A Traffic parece ter assumido o Flamengo. Uma pena para uma legenda que teve em seu elenco, eternos como Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Silvio Pirilo, Dida, Biguá, Jaime de Almeida, Zico e Júnior. Campeões várias vezes todos eles craques.

Não quero esquecer ao falar do passado da Gávea o zagueiro central Pavão que integrou a equipe tricampeã de 53, 54,55. Não era um estilista, mas poucos encarnaram como ele a alma rubronegra, a lenda da camisa que jogava sozinha. Mas esta é outra questão.

O fato é o seguinte. Com base no preço dos passes de Kaká e Cristiano Ronaldo, comprados por mais de 100 milhões de euros cada um pelo Real Madrid, quanto custou – não só o contrato – mas o passe de Ronaldinho Gaúcho? Quem pagou ou terá de pagar? Como vai se ressarcir? Como poderá compensar o investimento? São perguntas essenciais no início da festa.

Na Gávea, palco do tricampeonato de 42, 43, 44, famoso gol de Valido contra o Vasco  na final, quem entrou em campo foi a torcida em delírio. No início, tudo são flores. Depois vamos ver o que acontece. Vamos ver quem paga a conta. Espero que não seja a torcida

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