Preços de combustíveis sobem sem cessar para possibilitar privatização de refinarias

como abrir um posto de gasolina

Custos são baixos, mas a ordem é inflacionar os preços

Ga­briel Brito 
Cor­reio da Ci­da­dania.

Em me­ados de abril, a di­reção da Pe­tro­bras anun­ciou o sexto au­mento do preço dos com­bus­tí­veis e seus de­ri­vados apenas em 2021, a des­peito do de­sem­prego e da ca­restia que voltam a as­solar o país. Nesta en­tre­vista ao Cor­reio Ci­da­dania, Fe­lipe Cou­tinho, en­ge­nheiro da Pe­tro­bras, ex­plica o ar­ranjo po­lí­tico e ide­o­ló­gico que tomou conta da em­presa desde 2015 e, a partir da po­lí­tica de de­sin­ves­ti­mentos e da pa­ri­dade aos preços de im­por­tação, pro­duziu a per­ma­nente alta de preços.

O maior plano de pri­va­ti­zação da his­tória da com­pa­nhia foi apre­sen­tado em 2015, no governo Dilma Rousseff e está em andamento, na contramão da tendência mundial.

“As mai­ores com­pa­nhias de pe­tróleo do mundo são es­ta­tais; das cinco mai­ores, são quatro es­ta­tais. En­quanto das 25 mai­ores, as es­ta­tais são 19. Con­trolam mais de 90% das re­servas e cerca de 75% da pro­dução de pe­tróleo. As pe­tro­lí­feras es­ta­tais são com­pa­nhias in­te­gradas ver­ti­cal­mente e que au­mentam sua im­por­tância re­la­tiva ao longo do tempo”, diz Coutinho.

Como ana­lisa os au­mentos no preço do di­esel e da ga­so­lina, anun­ci­ados pela Pe­tro­brás em 15 de abril? Quais as causas que le­varam a mais este re­a­juste?
Desde ou­tubro de 2016, a Di­reção da Pe­tro­bras adotou a iné­dita po­lí­tica de Preços Pa­ri­tá­rios aos de Im­por­tação (PPI). Se­gundo esta po­lí­tica, os preços dos com­bus­tí­veis ven­didos nas re­fi­na­rias da com­pa­nhia têm preços ar­bi­trados como se ti­vessem sido im­por­tados. Ou seja, se es­tima o preço do com­bus­tível numa re­fi­naria es­tran­geira e se soma os custos lo­gís­ticos de im­por­tação, as taxas e se­guros, além das mar­gens de risco e de lucro dos im­por­ta­dores. Pa­rece ab­surdo, mas é isso que acon­tece, apesar de a Pe­tro­brás e do Brasil serem su­pe­ra­vi­tá­rios na pro­dução de pe­tróleo cru e de termos ca­pa­ci­dade de re­fino para o pe­tróleo bra­si­leiro, que é com­pa­tível com nosso parque de re­fino e com o mer­cado na­ci­onal de di­esel e de ga­so­lina, por exemplo. E apesar de a Pe­tro­brás ter custos in­fe­ri­ores aos Preços Pa­ri­tá­rios de Im­por­tação (PPI) e ca­pa­ci­dade de abas­tecer nosso mer­cado com me­nores preços, são ar­bi­trados preços como se os com­bus­tí­veis pre­ci­sassem ser im­por­tados, desde 2016.

Como avalia a po­lí­tica de su­bor­di­nação de preços ao mer­cado in­ter­na­ci­onal? Qual o be­ne­fício à so­ci­e­dade bra­si­leira?
Com preços re­la­ti­va­mente altos, os com­bus­tí­veis da Pe­tro­brás perdem com­pe­ti­ti­vi­dade e ficam en­ca­lhados nas suas re­fi­na­rias. Assim, os im­por­ta­dores têm lu­cros ga­ran­tidos e tomam o mer­cado da Pe­tro­brás que fica com suas re­fi­na­rias oci­osas em até 30%, desde 2016. Ga­nham os pro­du­tores de di­esel, ga­so­lina e etanol dos Es­tados Unidos, origem da maior parte dos com­bus­tí­veis im­por­tados. Ga­nham os im­por­ta­dores e os dis­tri­bui­dores pri­vados, assim como os pro­du­tores de etanol no Brasil.

E quem perde?
Perde a Pe­tro­brás, com a re­dução da sua par­ti­ci­pação no mer­cado. Perde o con­su­midor bra­si­leiro, di­reta e in­di­re­ta­mente, com preços des­ne­ces­sa­ri­a­mente altos dos com­bus­tí­veis que re­fletem na ele­vação de preços em toda a eco­nomia. Perde a eco­nomia na­ci­onal, com a re­dução da pro­du­ti­vi­dade do tra­balho e maior di­fi­cul­dade para pro­mover o de­sen­vol­vi­mento hu­mano e econô­mico, o que é con­sequência da energia mais cara do que po­deria ser ga­ran­tida pela Pe­tro­brás.

Este au­mento tem re­lação com a po­lí­tica de de­sin­ves­ti­mentos dos úl­timos anos? Que ba­lanço você faz dessa po­lí­tica?
A Pe­tro­bras, en­quanto in­te­grada ver­tical e na­ci­o­nal­mente, ou seja, en­quanto atua desde a pro­cura do pe­tróleo ao seu re­fino e dis­tri­buição, é muito efi­ci­ente, tem custos baixos e ca­pa­ci­dade de abas­tecer com preços in­fe­ri­ores aos de im­por­tação e pre­servar sua ca­pa­ci­dade de in­vestir, ad­mi­nis­trar a dí­vida etc. O ca­pital es­tran­geiro, ao ad­quirir re­fi­na­rias, não tem ca­pa­ci­dade de com­petir com a Pe­tro­brás. Assim, pre­cisa ter a ga­rantia de que a Pe­tro­bras não exer­cerá seu po­ten­cial com­pe­ti­tivo. Por isso, para vender as refinarias, a Petrobras precisa cobrar os preços do petróleo importado e não seus preços reais, que são bem mais baratos. Com a atual política de preços, é mais fácil atrair o ca­pital es­tran­geiro para com­prar re­fi­na­rias da Pe­tro­bras e ter acesso pri­vi­le­giado aos mer­cados re­gi­o­nais e de­cidir qual a ma­neira mais lu­cra­tiva de abas­tecê-los, não ne­ces­sa­ri­a­mente com com­bus­tí­veis pro­du­zidos no Brasil.

Como ana­lisa a gestão de Cas­tello Branco à frente da Pe­tro­brás, que saiu ga­bando-se de ter “feito a Pe­tro­brás menor”?
Foi exa­ta­mente o que ele fez, re­duziu a Pe­tro­brás com a di­mi­nuição dos in­ves­ti­mentos e com a venda de ativos ren­tá­veis e es­tra­té­gicos da com­pa­nhia.Desde a dé­cada de 1960, os in­ves­ti­mentos anuais mé­dios da Pe­tro­brás foram de cerca de US$ 20 bi­lhões, em termos atu­a­li­zados. Entre 2009 e 2014, foram US$ 50 bi­lhões por ano. Cas­tello Branco deixa plano quin­quenal com média de in­ves­ti­mento pro­je­tado de cerca de US$ 11 bi­lhões por ano. Em 2020, foram in­ves­tidos apenas US$ 8 bi­lhões.

E as privatizações já feitas?
Em 2015, ainda no Go­verno Dilma e sob a ad­mi­nis­tração Ben­dine, a Pe­tro­bras apre­sentou o maior plano de pri­va­ti­zação da sua his­tória, mais de US$ 57 bi­lhões em vendas de ativos para cinco anos. O plano foi man­tido e exe­cu­tado pelas ad­mi­nis­tra­ções sub­se­quentes de Temer/Pa­rente, Temer/Mon­teiro e Bol­so­naro/Cas­tello Branco. Entre 2015 e 2020 foram pri­va­ti­zados US$ 35,5 bi­lhões em ativos. Sob Cas­tello Branco, em 2019 e 2020, foram US$ 17 bi­lhões.

Quais os danos à Petrobras?
Os va­lores, por si só, não re­fletem os danos cau­sados à Pe­tro­brás, a de­sin­te­gração da com­pa­nhia traz riscos des­ne­ces­sá­rios porque au­menta custos ope­ra­ci­o­nais, reduz efi­ci­ência e com­pro­mete a ge­ração de caixa para preços mo­de­rados ou baixos do pe­tróleo. Enfim, pre­ju­dica o po­ten­cial de in­ves­ti­mentos da Pe­tro­brás, assim como sua ca­pa­ci­dade de abas­tecer nossa eco­nomia com preços mo­de­rados de com­bus­tí­veis e de energia. Trata-se da su­bor­di­nação do país e da sua maior em­presa aos in­te­ressas fi­nan­ceiros es­tran­geiros. Trata-se da en­trega do mer­cado bra­si­leiro, da de­sin­dus­tri­a­li­zação e do boi­cote ao po­ten­cial de cres­ci­mento e de­sen­vol­vi­mento bra­si­leiro que pre­cisa contar com sig­ni­fi­ca­tiva e de­ci­siva li­de­rança es­tatal.

A visão ne­o­li­beral bra­si­leira tem am­paro real ou pre­va­lece no mundo uma forma mais es­ta­tista de con­trole do pe­tróleo?
As mai­ores com­pa­nhias de pe­tróleo do mundo são es­ta­tais; das cinco mai­ores, são quatro es­ta­tais. En­quanto das 25 mai­ores, as es­ta­tais são 19. Con­trolam mais de 90% das re­servas e cerca de 75% da pro­dução de pe­tróleo. As pe­tro­lí­feras es­ta­tais são com­pa­nhias in­te­gradas ver­ti­cal­mente e que au­mentam sua im­por­tância re­la­tiva ao longo do tempo.

E as alternativas energéticas?
As ener­gias de origem fóssil – carvão, pe­tróleo e gás na­tural – re­pre­sentam cerca de 85% da ma­triz ener­gé­tica mun­dial há dé­cadas e não há pers­pec­tiva de mu­dança em curto ou médio prazos. O Brasil deve optar pelo uso do seu pe­tróleo, agregar valor a ele e não per­mitir sua ex­por­tação em es­tado cru. De­vemos in­vestir no de­sen­vol­vi­mento das ener­gias po­ten­ci­al­mente re­no­vá­veis, co­nhe­cendo seus li­mites e uti­li­zando nossas van­ta­gens na­tu­rais e in­te­li­gência para pro­duzi-las aos me­nores custos pos­sí­veis.

Qual a im­por­tância da Pe­tro­bras para o Brasil, em termos ge­rais?
O pe­tróleo é uma mer­ca­doria es­pe­cial, na me­dida em que não tem subs­ti­tutos em equi­va­lente qua­li­dade e quan­ti­dade. Sua ele­vada den­si­dade ener­gé­tica e a ri­queza de sua com­po­sição, em or­gâ­nicos di­fi­cil­mente en­con­trados na na­tu­reza, con­ferem van­tagem econô­mica e mi­litar àqueles que o pos­suem. A so­ci­e­dade que co­nhe­cemos, sua com­ple­xi­dade, sua or­ga­ni­zação es­pa­cial con­cen­trada, sua pro­du­ti­vi­dade in­dus­trial e agrí­cola, tudo isso de­pende do pe­tróleo. Para desenvolver o país, é ne­ces­sário ga­rantir a pro­pri­e­dade do pe­tróleo e operá-lo no menor preço possível, que seja lucrativo para os acionistas e não provoque inflação e recessão. É isso que a Petrobras pode fazer, mas o governo não permite.

3 thoughts on “Preços de combustíveis sobem sem cessar para possibilitar privatização de refinarias

  1. Com o aumento dos preços de combustíveis sobem os alimentos e a energia elétrica, tudo.

    Para preparar o terreno, arar, semear, tratar da lavoura, colher, armazenar nos silos e enviar para o comprador tudo isso se faz usando óleo diesel.

  2. Esse trecho evidencia a falta de patriotismo ou, quem sabe, outras coisinhas mais.

    “Desde ou­tubro de 2016, a Di­reção da Pe­tro­bras adotou a iné­dita po­lí­tica de Preços Pa­ri­tá­rios aos de Im­por­tação (PPI). Se­gundo esta po­lí­tica, os preços dos com­bus­tí­veis ven­didos nas re­fi­na­rias da com­pa­nhia têm preços ar­bi­trados como se ti­vessem sido im­por­tados. Ou seja, se es­tima o preço do com­bus­tível numa re­fi­naria es­tran­geira e se soma os custos lo­gís­ticos de im­por­tação, as taxas e se­guros, além das mar­gens de risco e de lucro dos im­por­ta­dores. Pa­rece ab­surdo, mas é isso que acon­tece, apesar de a Pe­tro­brás e do Brasil serem su­pe­ra­vi­tá­rios na pro­dução de pe­tróleo cru e de termos ca­pa­ci­dade de re­fino para o pe­tróleo bra­si­leiro, que é com­pa­tível com nosso parque de re­fino e com o mer­cado na­ci­onal de di­esel e de ga­so­lina, por exemplo. E apesar de a Pe­tro­brás ter custos in­fe­ri­ores aos Preços Pa­ri­tá­rios de Im­por­tação (PPI) e ca­pa­ci­dade de abas­tecer nosso mer­cado com me­nores preços, são ar­bi­trados preços como se os com­bus­tí­veis pre­ci­sassem ser im­por­tados, desde 2016.”

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