Preços sobem, salários congelados, consumo se retrai e receitas de impostos diminuem

Acidente de Harrison Ford e inflação nas charges deste sábado - Região -  Jornal VS

Charge do Tacho (Jornal NH)

Pedro do Coutto

O título desse artigo acentua uma sequência negativa que prejudica os que trabalham, freia a economia do país e favorece o não pagamento de impostos. Uma reportagem de Stephanie Tondo e Julia Noia, O Globo, expõe pesquisa do IBGE apontando uma inflação de 1,1% em outubro, o que, a meu ver, é menor do que a que deveria ser assinalada, uma reflexo atingindo o poder de compra da sociedade brasileira e, na outra ponta, uma queda na receita tributária.

Os salários ficam congelados enquanto a inflação se expande.Com isso, diminuem na prática, uma vez que cai o poder aquisitivo, sobretudo de alimentos. Os preços do supermercado, aliás, são os que atingem mais duramente os segmentos sociais de menor renda. Não se sabe onde o governo Bolsonaro quer chegar.

DESESPERO NA ATMOSFERA – O que se sabe, entretanto, é que há uma sensação de desespero na atmosfera, uma vez que não existem perspectivas de melhoria social. O Banco Central, destacam Stephanie Tondo e Julia Noia, no final deste mês vai elevar a taxa da Selic. Isso porque com uma inflação de 10,7% nos últimos meses e uma Selic de 9,25%, o governo não conseguirá colocar no mercado os títulos do Tesouro que regem os juros pagos mensalmente pela rolagem da dívida interna do país, uma dívida que atinge R$ 6 trilhões.

Publica-se geralmente que a elevação da Selic é para conter a inflação: é falso o argumento. Como digo sempre, os bancos, os fundos de investimento e os fundos de pensão das estatais não são devedores dessa taxa, e sim credores dela. Com isso, por exemplo, um aumento de 1% da Selic representa um acréscimo de juros na ordem de R% 60 bilhões, resultado da incidência de 1% sobre R$ 6 trilhões.

Tem-se observado de uns tempos para cá que as páginas econômicas dos jornais focalizam elevações percentuais, tanto de juros quanto de consumo e também de produção. Mas é preciso que se informe sobre que valores absolutos recaem os percentuais. Porque só com o valor absoluto fixado pode-se avaliar verdadeiramente o efeito da elevação ou redução das percentagens.

INFLAÇÃO – Essa opinião foi várias vezes destacada pelo ministro Roberto Campos, avô do atual presidente do Banco Central. A respeito da inflação calculada pelo IBGE, reportagem de Leonardo Vieceli, Folha de S. Paulo, também focaliza o assunto e assinala que o processo inflacionário, ao que tudo indica, deve permanecer até 2022.

Portanto, os assalariados de modo geral, incluindo o funcionalismo público, os empregados da iniciativa privada e os servidores das estatais, vão continuar perdendo poder aquisitivo ao longo do governo Jair Bolsonaro. Os empregados das estatais ainda conseguem algum aumento, embora percam para a inflação. Mas os demais tiveram reajuste de 0%.

DESONERAÇÃO DA FOLHA  – Enquanto isso, ovprojeto que tramita na Câmara Federal e que tem como relator o deputado Marcelo Freitas, prorroga a desoneração fiscal de empresas abrangidas por 17 setores da economia e que são responsáveis por parte substancial do mercado de trabalho. Ao invés de os empregadores pagarem ao INSS a contribuição de 20% sobre as folhas salariais, continuarão a pagar entre 1% a 4,5% do faturamento líquido até dezembro de 2026 de acordo com emenda do deputado Efraim Filho.

A matéria deve ser aprovada e significa que no fundo o próprio governo está estatizando parcialmente o pagamento de uma receita com a previdência social. Ocupam assim um lugar que cabia aos empregadores. Tudo isso quer dizer que só os assalariados devem suportar os efeitos do processo inflacionário.Isso de um lado.

NOTAS FISCAIS – De outro, destaca Paula Soprana, Folha de S. Paulo de ontem, a evasão de tributos pelas compras feitas por aplicativos e redes comerciais em 2020 somam entre R$ 95 bilhões a R$ 125 bilhões. Essa evasão calculada pela Consultoria Global  McKinsey e divulgada quarta-feira decorre principalmente como reflexo da falta de emissão de notas fiscais.

O estudo foi destinado pela  McKinsey para o Instituto de Desenvolvimento do Varejo. O setor de vestuário e calçados lidera a sonegação, seguido pelo setor de alimentos e bebidas, pelas farmácias e lojas de produtos de beleza feminina, comércio de eletrônicos e venda de celulares e o de material de construção. A percepção conduz ao fato de que a atuação dos vendedores informais, realizada através de aplicativos, é que mais facilita a evasão fiscal. O movimento por intermédio de vendedores informais chega a atingir praticamente 50% do mercado de aplicativos e vendas efetuadas pelas redes de comércio.

PRECATÓRIOS NO SENADO –  O Supremo Tribunal Federal ainda não julgou o mérito da proibição de uso das verbas do orçamento secreto da Câmara, mas a matéria já seguiu para o Senado que vai apreciá-la depois do pronunciamento da Comissão de Constituição e Justiça. No principal editorial de ontem, O Globo sustenta que é uma obrigação do Senado rejeitar o projeto que adia o pagamento dos precatórios. Ontem, o líder do governo no Senado, numa entrevista à GloboNews, defendeu o projeto, dizendo que ele se destina a combater a fome que está atingindo grande parte da população do país.

Mas o fato é que também ontem, quinta-feira, em vários pontos, formaram-se extensas filas com pessoas tentando se inscrever no programa Auxilio Brasil. O Rio de Janeiro foi um exemplo. Porém, as pessoas pernoitaram e não foram ainda atendidas porque não se sabe como poderão se inscrever, exceto as famílias já inscritas no Bolsa Família que desapareceu, substituído pelo Auxilio Brasil.

RESISTÊNCIA – No Senado está prevista uma resistência maior contra a proposição do governo relativamente aos precatórios. Inclusive, o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, cuja candidatura à Presidência da República será lançada pelo PSD, não tem interesse em contribuir para fortalecer o governo Bolsonaro. Sobretudo porque,visando estruturar a legenda partidária, vai se apresentar como uma alternativa para terceira via disputada por Ciro Gomes e agora também por Sergio Moro, cuja candidatura à sucessão de 2022 está praticamente lançada pelo Podemos.

É interessante observar em que sentido poderá influir a candidatura Sergio Moro; se mais contra Bolsonaro ou contra Lula dentro da polarização que está predominando no eleitorado com vantagem ampla para o ex-presidente da República.

MOURÃO E O ORÇAMENTO SECRETO – Em declarações à GloboNews na tarde de quarta-feira e ontem à Folha de S. Paulo, matéria de Ricardo Della Colleta e Marianna Holanda, o vice-presidente Hamilton Mourão apoiou a decisão do STF de suspender o pagamento das emendas parlamentares configuradas no orçamento secreto da Câmara e usadas como moeda de troca entre a compra e venda de votos.

“Acho que os princípios da administração pública e os contidos na lei de impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência não estavam sendo respeitados. Não posso saber como vão ser gastos esses recursos, mas o dinheiro pertence a cada um de nós”, afirmou. A declaração de Mourão acentua mais uma vez a sua ruptura, agora formal, com o presidente Jair Bolsonaro, abrindo assim praticamente uma dissidência na base militar do Planalto.

ADEUS A CRISTIANA LÔBO–  Morreu ontem a jornalista Cristiana Lôbo que teve uma atuação brilhante na reportagem política da GloboNews, incluindo a análise dos fatos que marcaram os últimos governos do país. Tinha uma visão lúcida da realidade política, de suas modificações em prazos curtos e de suas consequências.

Atuou no jornalismo por mais de 30 anos. Começou a carreira cobrindo a política do estado de Goiás, onde nasceu, até se mudar para Brasília. Ainda em “O Globo”, trabalhou na coluna Panorama Político. Depois de 13 anos no jornal, assumiu a coluna política do jornal “O Estado de S. Paulo”. A estreia na televisão foi na GloboNews, em março de 1997. Cristiana Lôbo fará falta.

11 thoughts on “Preços sobem, salários congelados, consumo se retrai e receitas de impostos diminuem

  1. À manchete sensacionalista respondo com um “FiqueEmCasa, jornalista! A economia a gente vê depois.” É hilário ver os jornalistas vermelhos da Foice, do Globo e do Tucanão fazendo greve por aumentos saláriais.

    O Globo perdeu a vergonha, alugou suas páginas para o PCCh publicar propaganda do assassino Xi Jinping, o genocida que infectou o mundo com o virus chinês.

  2. O Brasil não precisa de traidores. Basta Bolsonaro. Se não tiver algum motivo mais visível, vai falar que a esposa do Biden é uma velha e a do Trump uma gata!

    • O vice presidente Hamilton Mourão está coberto de razão, pois a Transparência é vital para o regime democrático.
      Somente regimes Ditatoriais operam Orçamentos Secretos e omitem gastos com Cartão Corporativo.
      Os cidadãos, os trabalhadores em geral, têm sua vida exposta, a qualquer contribuinte, que deseje informações aos órgãos do Estado. Então, porque os membros do Executivo e do Legislativo ficam fora dessa medida transparêncial?
      Ora, a Constituição é clara, quando define: ” todos os cidadãos são iguais perante a Lei”.
      Não está acontecendo isso agora, com o Orçamento Secreto.
      Mourão vem se transformando numa grande surpresa, e pode vir a ser, um candidato com condições viáveis para a disputa presidencial.
      Mas, podem tirar o cavalinho da chuva, o general declarou que não disputará contra Bolsonaro. O general é um militar Ético e honesto.

  3. Não gostaria de voltar ao tema Covid, que causou tanta celeuma. No entanto, foi acertada a decisão pelo uso de máscaras e distanciamento social. A Economia não parou, os ônibus e o BRT rodaram lotados e o que minimizou a contaminação foi o Homeoffice. Mesmo assim, 600 mil brasileiros morreram. Entoar o slogan de Economia a gente vê depois e o mesmo que zoar das pessoas que se foram, como se a Economia fosse mais importante, até porque não houve lookdown no Brasil.
    Países que flexibilizaram o uso de máscaras e o distanciamento, estão as voltas com nova onda da Covid, como a Alemanha e a Áustria.
    A vacinação no Brasil iniciada tardiamente e apoiada pela população começa a dar seus resultados, com zero números de casos fatais no Rio e em São Paulo.
    Acho temerário ainda, liberar festas e Carnaval, pois o vírus está circulando por aí e milhares de Negacionistas se recusaram a tomar as vacinas.
    Nada pior para a Economia, do que o medo que a população tem de ser entubado pelos efeitos da Covid.

  4. O jornalista Pedro do Couto, em seu artigo esclarecedor sobre os efeitos da inflação na classe trabalhadora e nas populações de baixa renda, que sentem na pele, o aumento dos preços nos Supermercados.
    Não constatei nenhum viés ideológico, na sua explanação. Foi tão didático, que não restou, a meu juízo, nenhuma dúvida acerca da redução de impostos, da perda do poder de compra, e do desespero das pessoas coma queda de BB poder aquisitivo.
    Se torna uma bola de neve, que atinge também, o Comércio e a Indústria. Se poucos compram, as mercadorias ficam encalhadas e o comerciante não encomenda novas remessas as fábricas. Se forma uma tempestade perfeita.
    Então, os sábios da Economia começam a querer enxugar gelo, estatizando os prejuízos dos empregadores com a desoneração da Folha de Pagamentos, que reduz a Receita do INSS, enquanto na outra ponta trabalham para privatizar as Estatais lucrativas, exemplo da Petrobrás.
    Trata-se de uma perfida contradição, afinal, os governos devem operar na Equidade, mas, ao contrário, protegem os patrões e impõe pesados tributos aos contribuintes, além, de operar na eliminação dos direitos adquiridos, seja na liberação das aposentadorias ou como agora no Calote dos Precatórios.
    Só falta proporem a gatunagem na Caderneta de Poupança. Não estamos livres disso não, ein, pois o Paulo Guedes é um economista muito criativo.

  5. Também fiquei triste com a morte da jornalista Cristiana Lobo.
    Não perdia um programa dela, as sextas feiras, 19 horas na Globo News, denominado Fatos e Versões.
    Ela, mediadora e mais três convidados respondiam as suas perguntas. Geralmente compunham a bancada/ cadeiras, jovens jornalistas da Folha, do Valor Econômico, do Estadão e do Globo.
    E no último bloco, o sagaz, Papo no Cafezinho, sobre o que de interessante viria na semana seguinte.
    Cristiana fará muita falta.

  6. Bem assinalado que aumento da taxa Selic não reduz inflação de preços. Significa que o povo esta de novo encurralado no seu poder aquisitivo do salário. A atuação do governo para conter a inflação é a mesma de sempre: resultado zero.

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