Prefeito do Rio baixou demais o nível político

Pedro do Coutto

Num lance inconseqüente e absurdamente infeliz, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, baixou em demasiado o nível político no qual deveria eticamente se manter, sobretudo na véspera da chegada do presidente Barack Obama ao Brasil e à cidade.

Na tarde de quinta-feira, reportagem de Cristina Nascimento e Francisco Edson Alves, O Dia, ao destacar o início das obras da Estrada Transcarioca, em Campinho, localidade entre Cascadura e Madureira, o prefeito divisou na platéia o ator de bairro Paulo Roberto dos Santos, sósia do terrorista Osama Bin Laden, o mais procurado do mundo, responsável maior pelo hediondo e terrível atentado de 11 de setembro de 2001.

Informado de que se tratava de figura popular em Madureira, Paes não teve dúvidas – chamou-o ao palco improvisado e fez questão de ser fotografado a seu lado. O Dia publicou a foto com enorme destaque na primeira página. O que o prefeito praticou? Um ato absurdo, de uma deselegância total, e até agressivo para com o presidente dos Estados Unidos, a quem inclusive terá que recepcionar ao lado do governador Sergio Cabral em sua passagem no Rio. Será que sua assessoria é tão inconseqüente como ele revelou ser? Na véspera de ocasiões diplomáticas,as autoridades públicas devem pelo menos consultar o Itamarati.

Claro que o MRE não poderia aprovar o surgimento de um sósia do superassassino que se tornou personagem principal do maior atentado político da história universal de todos os tempos. Mas, por isso mesmo, Eduardo Paes deveria na hora ter recorrido ao bom senso. Apenas isso. Ao simples bom senso. Com sua atitude pode inclusive ter contribuído para um mal estar principalmente para a presidente Dilma. Como?  Poderá indagar interiormente o presidente Obama, como uma das maiores cidades do mundo, um forte símbolo brasileiro, uma das sedes da Copa de 2014 e sede das Olimpíadas de 2016, pode ter um homem assim à frente de sua administração?

A resposta será complicada, mas tem sua origem no desabamento de  fato da escala de valores éticos do sistema partidário de nosso país. Não quero ser saudosista, porém realista: não se produzem mais no universo políticos as figuras de tempos passados.

Procure-se homens do porte de Afonso Arinos, Santiago Dantas, Raul Fernandes, Osvaldo Aranha,Getúlio Vargas, José Carlos de Macedo Soares, Juscelino, Carlos Lacerda, Vieira de Melo, Rui Ramos, Otávio Mangabeira, Artur Bernardes, Alberto Pasqualini, e para não alongar demasiado a lista, Paulo Brossard, e não encontraremos.

O nível intelectual caiu. Com isso desceu o plano do comportamento. O prefeito Eduardo Paes, dando destaque de comédia à figura de um terrorista internacional, um destruidor de milhares de vidas humanas, jogou  a escala de valores que deveria sustentar-se no lixo. Um prefeito não pode agir assim. Mas agiu.

Francamente, uma cidade, a de maior beleza natural entre todas as outras, depois de ser governada por Pereira Passos, Henrique Dodsworth, Lacerda, Negrão de Lima, ser governada por Eduardo Paes? É uma lástima. Um retrocesso.

Sobretudo porque, no cargo, o atual prefeito investe-se no estilo de uma liderança comunitária, não no de alguém que verdadeiramente ocupa uma representação da maior relevância. É um perigo qualquer governante resolver a esmo brincar com assuntos sérios, principalmente em público diante das lentes comprovadoras da imprensa. Foi um lance profundamente infeliz que vai ficar na história do Rio. A população carioca não merecia ser tratada dessa forma. O erro foi demais. Uma vergonha.

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