Prefeitura, agora com Eduardo Paes, nunca fiscalizou obras de risco

Pedro do Coutto

A Prefeitura do Rio, agora com Eduardo Paes no Palácio da Cidade, constata-se hoje, não foi capaz, nas últimas décadas, de exercer seu papel fiscalizador e avaliar tecnicamente as obras de risco realizadas, especialmente a construção excessiva de andares em edifícios projetados para menos número de pavimentos. O resultado aí está, a tragédia do edifício Liberdade, arrastando consigo dois outros que a ele estavam laterais. Os desabamentos da Treze de Maio, sem dúvida, são o maior desastre na história da cidade. Pela imprevidência.

Reportagem de Chico Otávio, Gustavo Goulart, Luiz Ernesto Magalhães, Rogério Daflon, publicada no Globo de terça-feira 31, revela a face que ainda se encontrava oculta do episódio e ilumina o que a sombra do desleixo pode causar. E causou. Vidas humanas se perderam nos escombros da incompetência que se refugia na omissão. A foto da matéria é de Paulo Moreira.

Os jornalistas entrevistaram o engenheiro José Schiper, perito da Procuradoria Geral do Estado. Informou ele que, em 1950, administração do prefeito Mendes de Moraes, que construiu o Maracanã e o túnel do Pasmado, o poder municipal consentiu que o número de andares do Liberdade, projetado em 34 e inaugurado em 37, fosse elevado de 15 para 18. Um absurdo. A obra teria que apresentar reflexos no decorrer do tempo.

Além do mais, como a fotografia de Paulo Moreira deixou registrado, as obras do Metro tiveram início exatamente na Treze de Maio, em 1969, governo Negrão de Lima. Quando começou a funcionar anos depois, as escavações deveriam ter sido permanentemente analisadas tecnicamente em face das vibrações normais do sistema. Nada disso foi feito. A administração pública esperou a banda passar. De personagem principal da vida urbana tornou-se espectadora. Um absurdo.

A construção de mais três pavimentos, claro, acrescentou peso extra a recair na estrutura. Mas não ficou só nisso. Sequer houve acompanhamento quanto ao cansaço do material em face da criação – revela O Globo – de um depósito de material em andar alto. A Prefeitura, contando com o distanciamento do síndico do prédio, Paulo Renha, não considerou, além dos pavimentos extras, a transformação do edifício de residencial em comercial e residencial.

O peso aumentou em decorrência, o movimento das pessoas em seu interior também. Sequer a Prefeitura carioca, em 1976, preocupou-se com a inclinação verificada, como a reportagem destacou. Um edifício com andares demais, peso em demasia, erguido numa área em que as obras do Metro começaram, sujeito às inevitáveis vibrações dos trilhos subterrâneos, era para ser objeto de acompanhamento permanente. Não houve nem acompanhamento eventual, periódico, quanto mais permanente.

Os fatores críticos não terminam ainda neste ponto, apesar de estar situado em elevada escala. E necessário considerar ainda, a existência de lençóis de água freáticos, uma vez que a área está bem próxima do mar e ter sido formada por sucessivos aterros. Bem próximo dali um, bastante amplo, definido pelo próprio nome: Aterro do Flamengo.

Passaram pela Prefeitura e não observaram a existência de riscos, não só nos prédios, mas nos bueiros, Israel Klabin, Júlio Coutinho (falecido), Saturnino Braga (que confessou a falência do Rio), Marcos Tamoio, Cesar Maia, Luis Paulo Conde, Cesar Maia de novo, e, no momento Eduardo Paes, que se encontra no centro do palco e portanto dos acontecimentos. Trágicos para desventura de toda população, fatídicos para os que deixaram de viver, desastroso para o país numa fase em que se prepara para sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

A administração municipal não poderia ter ficado pior diante da opinião pública. Nacional e estrangeira.

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