Preocupado e falante, o vice general Mourão ainda vai dar muita dor de cabeça

Resultado de imagem para mouraoEliane Cantanhêde
Estadão

Passou suavemente, quase despercebida, a frase do presidente eleito, capitão reformado Jair Bolsonaro, sobre seu vice, general de quatro estrelas da reserva Hamilton Mourão, mas ela diz e projeta muito de um governo que nem começou. “Tenho pouco contato com ele”, disse Bolsonaro, com um ar de pouco caso, deixando uma pulga atrás da orelha de atentos e curiosos.

Mourão tem respeitável carreira no Exército, ocupou postos de destaque dentro e fora do País, inclusive o Comando Militar do Sul, foi bem em entrevistas às tevês (dizem que até melhor do que o próprio Bolsonaro) e acaba de passar muito bem no teste de inglês ao falar à BBC. Mas é dado a declarações polêmicas, às vezes chocantes.

Sua primeira vitória foi ultrapassar Janaína Paschoal, Marcos Pontes, Magno Malta, Luiz Philippe Orleans e Bragança na corrida pela vice. Entre professores, políticos, astronautas e príncipes, Bolsonaro ficou com um general gaúcho que surgiu no cenário político ainda na ativa, ao ser afastado da Secretaria de Economia e Finanças do Exército em 2017, não por coincidência, após defender intervenção militar.

PÉROLAS DA ELEIÇÃO – Já candidato, Mourão produziu as pérolas da eleição, atribuindo as mazelas brasileiras à “indolência dos índios” e à “malandragem dos negros” e confirmando suas crenças mais profundas ao orgulhar-se da beleza do neto e do “branqueamento da raça”, o que remete ao que há de pior na história da humanidade e é nevrálgico no Brasil. Ainda foi adiante ao chamar as famílias sem homens, comandadas por mães e avós, de “fábricas de desajustados”.

Até aí, Bolsonaro e a campanha tratavam Mourão como um boquirroto, que sai falando tudo que passa pela cabeça sem atentar para as consequências, mas o caldo entornou quando ele se meteu a falar de intenções de governo. Defendeu uma Constituinte exclusiva, formada por “notáveis” e passando ao largo do Congresso eleito pelo povo, aliás, uma ideia lançada pelo ministro Tarso Genro no governo do PT.

NAS REDES SOCIAIS – O general também virou estrela das redes sociais ao chamar o 13º salário de “jabuticaba brasileira”, mesmo depois de Bolsonaro alertá-lo duas vezes para ter “cuidado” com o que dizia. As advertências entraram por um ouvido, saíram pelo outro. E, no pior momento da campanha, quando o PT acertou o passo e os bolsonaristas não paravam de dar tiro no pé, Bolsonaro deu um freio de arrumação: mandou Mourão e Paulo Guedes calarem a boca. O economista atendeu, o general se deu por desentendido.

Inteligente e preparado, seria grosseiro e injusto tratar Mourão como apenas folclórico, até porque suas falas não são sobre banalidades, mas sobre coisas sérias, num País onde os vices não são apenas enfeite. Na prática, vice está na antessala de assumir a Presidência.

OUTROS VICES – Sarney só entrou na chapa do adversário Tancredo para dividir a base do governo militar e garantir a transição. Itamar virou vice de Collor para dar consistência política e partidária a uma aventura do PRN. Temer foi resultado de uma aliança PT-MDB para dominar o Congresso, apesar de Dilma. Todos viraram presidentes.

Os demais nem sempre foram reforço, mas dor de cabeça. Aureliano Chaves infernizou (com boas razões) o general Figueiredo, último presidente militar. José Alencar virou arauto contra os juros altos e sonhava ser presidente um dia, mas Lula conquistou-o com lábia e jeitinho. O vice dos sonhos de qualquer um, ou uma, foi Marco Maciel, o pernambucano intelectual suave e discreto que jamais criou problemas para FHC.

Convenhamos, Hamilton Mourão está mais para Aureliano do que para Maciel e pode dar muito trabalho ainda para o presidente Bolsonaro, com quem tem “pouco contato” e, quando tem, parece não dar tanta bola assim.

12 thoughts on “Preocupado e falante, o vice general Mourão ainda vai dar muita dor de cabeça

  1. Notícias reveladoras!

    O suspeito acusado de vandalizar uma sinagoga do Brooklyn com pichações anti-semitas como “Matem todos os judeus” e “Die Jew Rats” foi promovido por uma família judia e trabalhou como residente da Prefeitura encarregado de combater crimes de ódio.

    https://forward.com/fast-forward/413528/kill-all-jews-synagogue-graffiti-suspect-was-foster-child-of-jewish-family/

    O Atirador Parkland também foi promovido por uma família judia. Muito estranho.

    • Eduardo RJ, meu caro … ahhh – os vices!!!

      Começou com o Marechal Floriano … vice do Marechal Deodoro kkk KKK kkk

      Itamar Franco foi escolhido por Collor para conquistar o voto decisivo de MG … e do resto do Brasil na condição de Itamar ter sido destaque na CPI contra a corrupção

      Um aperto de mão.

  2. Boa noite.

    Intrigas, intrigas e integras. Egos sendo insuflados, vontade de poder pelo poder sendo instigados. Podem tentar de tudo, não conseguirão atingir este governo. Os seres humanos são todos iguais em seus direitos e obrigações, mas são muito diferentes em conhecimentos. E queiram ou não, quem apostou com seu voto nesta eleição, com uma pule de 10, sabe qual o “cavalo” favorito, mais veloz no raciocínio, e na falsa esperteza dos adversários.
    Os vencedores possuem escola, e riem destas pequenas intrigas.
    Um abraço a todos.
    PS: Alguém poderia me fornecer o índice de audiência da globo a cada dia?
    Alguém poderia me fornecer o número de exemplares que a folha e o globo estão vendendo a cada dia?
    PS1- Isso acima pode contar também com as assinaturas digitais!!!

  3. As penas alugadas dos secos e molhados campeões de audiência, poderiam tratar da ressaca canhota, das vaidades socialistas e da guerra intestina do pt, que já ocorre desde ultimo domingo e ninguém fala nada.
    Um bom assunto pro nosso editor.
    A quantas anda a dita esquerda o que ela pensa e como ela pode atrapalhar o povo brasileiro.

  4. Há que se frisar, “ultrapassou” não, herdou a vaga de vice de Bolsonaro. Uma outra coisa, a hierarquia nas FA, vale dentro das FA, Bolsonaro agora é o presidente da República e ponto final. General Mourão agora é o subordinado, se ele não gosta disso, se isso o incomoda, nem deveria ter aceitado. Uma outra coisa, quando o presidente estiver fora, quem assume é o vice. Neste ponto é imperativo que os dois estejam afinados.

  5. A jornalista foi não foi generosa ao não mencionar e não adjetivar o não menos ilustre vice presidente Pedro Aleixo.

    Marco Maciel, perto dele poderia ser considerado um intransigente?

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