Prestes: autohipnótico, carbonário, ingênuo e romântico

Pedro do Coutto

A Folha de São Paulo, em sua edição de segunda-feira, publicou magnífica reportagem de página e meia, assinada por Graciliano Rocha e William Waack, sobre a atuação política desenvolvida por Luis Carlos Prestes na União Soviética antes de tentar deflagrar a revolta de 35, a Intentona Comunista como ficou conhecida na história do Brasil. Fracasso completo e total com os fatos comprovam e não se pode brigar com eles, nem no plano material bem no plano intelectual.

Ezra Pound, por exemplo, tentou o impossível, em 44, ao dizer na rádio italiana que as forças aliadas que invadiram a Normandia estavam sendo dizimadas pelos nazistas que ele apoiava. Um dos grandes artistas do século 20, era americano de Idaho. Ia ser condenado à morte como traidor. Mas terminou sendo proibido de retornar aos Estados Unidos. Artistas como Hemingway, Faulkner, John dos Passos, Elliot, pediram por sua vida. Washington concordou com apena de expulsão e perda de cidadania. Morreu em Veneza. Admiradores de sua obra não aceitam debater esse lado sombrio e trágico de sua vida. Mas esta é outra questão.

Luis Carlos Prestes, senador mais votado do Rio (então Distrito Federal) em 45, enquadra-se no mesmo tipo de autohipnose. Era um carbonário, mas ao mesmo tempo ingênuo e romântico. Um Dom Quixote moderno. O destaque à sua coragem física e política é feito na matéria da FSP pelo próprio Prestes Filho: “Tinha muita coragem e ingenuidade. Cometeu erros?” – indaga. “Só quem não comete erros é quem não faz nada”, acrescenta. Ingênuo sim. Eis a chave que, no espaço que ocupou na reportagem, William Waack diz procurar para entender e explicar o líder comunista.

William Waack é autor do grande livro “Camaradas”, no qual relata, com base em documentos que pesquisou e obteve em Moscou, as provas da participação da antiga URSS no levante da Praia Vermelha, quando Agildo Barata Ribeiro, pai do ator Agildo Ribeiro, terminou preso e, como Prestes, condenado pela Lei de Segurança. Ambos foram libertados pela anistia dada por Vargas em fevereiro de 45. O jornalista da Rede Globo dá ênfase à palavra chave. Ingenuidade é o seu verdadeiro nome. Antes de dizer por que acho isso, desejo destacar que a participação soviética naquela tentativa de insurreição encontra-se também muito bem colocada e detalhada pelo escritor Fernando de Moraes no excelente “Olga”, que se transformou em filme de Jaime Monjardim, com um notável desempenho da atriz Camila Morgado no papel título.

Romântico e ingênuo, para ele o comunismo era uma espécie de religião sem Deus. A começar pelo seguinte. Prestes pediu a Stálin o envio de agentes comunistas para que pudesse desencadear a rebelião. Stálin enviou três: Olga Benário, Arthur Evert e Elise Evert. Todos três comunistas, porém alemães. Nenhum russo. Não é possível que não houvesse um ativista russo em Moscou. Prestes não questionou o distanciamento do Velho Diabo de seu projeto. Stálin não acreditava nele. Na verdade, só o próprio Prestes romanticamente acreditava em si próprio. Caso de autohipnose. Típico dos fanatismos.

Mas era um homem de estado que colocava o comunismo acima das pessoas. Acima de si mesmo. Tanto assim que, apesar de Vargas ter cedido ao pedido de Hitler, formulado através de Goebels, de extradição de Olga Benário e tê-la entregue a um navio alemão com a suástica no casco, Prestes em 42, da prisão, enviou telegrama a Vargas apoiando sua decisão de declarar guerra ao nazifacismo. E não só isso.

A Folha de São Paulo publica uma foto de Vargas e Prestes, lado a lado, num comício. Na legenda disse que o comício ocorreu em 47. Um erro. Em 47, Vargas era senador, não estava mais no governo. O comício foi em 45 no estádio do Vasco da Gama, na campanha pela Constituinte. Na realidade, o comício fazia parte de uma investida que fracassou, chamada queremismo. Ou seja, Constituinte com Getúlio candidato a presidente. Era o continuísmo derrubado pela deposição de Vargas em 29 de outubro de 45. Eurico Dutra, com o apoio do ditador que encerrava seu ciclo de poder, foi eleito presidente da República nas eleições de 2 de dezembro.

Eu afirmei que Prestes era um homem que colocava o conceito de estado acima das pessoas. Senti isso, quando participei, ao lado de Marcello Alencar, na Rádio Carioca, em que ele possuía um programa político, da última entrevista da LCP, em 88, pouco antes das eleições municipais em que Marcelo elegeu-se prefeito do Rio. Perguntei a ele sobre Gorbachev que denunciava os crimes de Stálin e se preparava para derrubar o Muro de Berlim, um ano depois. Ele apoiou Gorbachev integralmente concordando com a denúncia dos crimes de Stálin. Percebi então que ele considerava revolucionário o estado soviético, não este ou aquele líder.

Tanto assim que perdeu em 47 o mandato conquistado nas urnas de 45 caindo em armadilha preparada por Juraci Magalhães. Se houvesse uma guerra entre Brasil e URSS com quem ficaria? Com o Brasil – respondeu – se fosse uma guerra justa. Perdeu o mandato no episódio. Não se recuperou nunca mais. Um ingênuo, sem dúvida. Que fica na história.

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